J.K. Simmons em dose dupla é só uma das qualidades de “Counterpart”

Com duas temporadas bem amarradas, série de ficção disponível na Globoplay sabe muito bem aonde quer chegar, e qual caminho percorrer

Em Counterpart – Mundo Paralelo, disponível na Globoplay, J.K. Simmons descobre ter um duplo, idêntico a ele fisicamente mas muito diferente em todo o resto: enquanto Howard Silk 1 é cordato, gentil e sem ambição (está há trinta anos no mesmo posto, sem promoção), Howard Silk 2 é brusco, mordaz e calculista, e está embrenhado em coisas muito complicadas. Simmons é tão bom ator que faz os dois personagens sem nenhuma ajuda de maquiagem ou figurino – mas nunca o espectador fica em dúvida se quem está em cena é Howard 1 ou Howard 2. Basta bater os olhos nele para saber. Da mesma forma que Simmons, o criador Justin Marks e os outros roteiristas desta série jamais perdem o fio da meada enquanto desnovelam a história complexa de um mundo – grosso modo, o nosso – que, em razão de um acidente quântico, se desdobrou em dois lá pelo fim dos anos 80. De início espelhos perfeitos, os dois mundos logo começaram a se diferenciar. Primeiro, em um detalhe ou outro. Mas, à medida que as repercussões desses detalhes foram se multiplicando, espraiando-se e se avolumando, o mundo 1 e o mundo 2 divergiram até um ponto irreconciliável. São agora antagonistas; desconfiam um do outro, competem, guardam segredos, espionam-se. Essa divisão, entretanto, é mantida em sigilo absoluto. Só umas poucas pessoas sabem dela e trabalham para gerenciá-la, de dentro do edifício sob o qual está o único portal entre os mundos – e que, por coincidência, fica em Berlim, a cidade que foi o limiar histórico entre o Ocidente e o império soviético. Howard 1 trabalhou nesse edifício a carreira toda, em perfeita ignorância. No primeiro episódio, porém, Howard 2 repentinamente entra em sua vida: algo a ver com um grupo terrorista do mundo 2 – e a ver também com Emily (Olivia Williams), a mulher de Howard 1, há três meses em coma em razão de um atropelamento.

 

Intrigante e discreta, Counterpart tem só duas temporadas, em um total de vinte episódios. É um arco curto, mas bem resolvido. E é também um exercício excelente no casamento entre ficção especulativa à moda de Philip K. Dick (tem um quê de Agentes do Destino, filme de que gosto muito) e thriller de Guerra Fria na linha de John le Carré. É feita com tanto critério que nem se nota que, como produção, é relativamente modesta: a paleta de cores diluídas em cinza e a luz homogênea e indireta imediatamente conjuram a atmosfera de filmes de espionagem como O Espião que Sabia Demais; as vistas de Berlim são poucas, mas usadas com inteligência; e as decisões cenográficas e de figurino solucionam com honras o desafio sempre interessante de propor uma realidade alternativa que inquieta justamente pela semelhança com o presente e a normalidade.

 

Simmons é um arraso, e o restante do elenco não fica muito atrás. Não sou muito fã da iraniana Nazanin Boniadi, de Homeland, que tem aqui um personagem crucial, e acho que Stephen Rea pesa a mão como um “spy master” tão suave quanto nefasto. Em compensação, é brilhante o trabalho do inglês Harry Lloyd como Peter Quayle, o fraco e acovardado chefe da divisão de Howard 1, e o mesmo se pode dizer de James Cromwell em um papel que não convém comentar. Os personagens menores são particularmente bem escalados, começando pelo dinamarquês Ulrich Thomsen como um agente de, digamos, limpeza. O que costura tudo isso, porém, é um elemento mais raro: propósito. Counterpart sabe o que quer ser e como sê-lo; sabe também aonde quer chegar, e qual caminho percorrer. É um azar que tenha durado apenas duas temporadas. Mas, como foi possível amarrar a história, de certa forma é também uma sorte essa sua vida curta – uma garantia de que sua melhor qualidade não pôde ser dispersada em temporadas supérfluas.

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