“Tales from the Loop”: o brilho da ficção científica da Amazon

Originalíssima no visual e nas tramas, série em oito episódios tem andamento lento – mas, ao final, parece ter durado só um piscar de olhos

De cada cinco novas séries de ficção científica do streaming, quatro em geral se revelam uma decepção. Mas Tales from the Loop, que a Amazon Prime Video colocou no ar na íntegra na semana passada, se destacaria ainda que o critério não fosse o da comparação: mesmo que você ache o ritmo um tanto contemplativo (ou, vá lá, lento), sugiro acomodar-se a ele e aproveitar para apreciar cada detalhe da produção apuradíssima e das interpretações excelentes. Sugiro, principalmente, deixar-se levar pelas oito histórias passadas em uma cidadezinha do interior americano em cujo subterrâneo pulsa uma misteriosa máquina-laboratório – a “Loop” do título – capaz de cancelar ou alterar as leis que regem o universo. Quando a última história – essa, dirigida por Jodie Foster, que deveria arregaçar as mangas e dirigir com muito mais frequência – terminar, o tema maior da série vai continuar cintilando na sua memória: de todas as dimensões da trajetória humana, o tempo é a mais intratável e a mais cruel, mas é também a que dá sentido a todas as outras. Mesmo quando ele descreve um círculo em torno de si mesmo, como faz aqui às vezes (um “loop” é uma laçada, uma volta), ele não devolve o que tirou. No máximo, oferece em troca alguma compensação, nem sempre proporcional – e é por isso que somos capazes de entender algumas coisas como mais importantes do que outras, ou reclassificamos como preciosas coisas que, no momento, parecem banais.

 

Uma frase, em geral, basta para resumir o enredo de cada episódio: mulher faz experimento com uma matéria desconhecida e desaparece, deixando sozinha a filha pequena; um rapaz troca de corpo com o amigo ao entrar em uma máquina abandonada, e então prova de confortos que haviam estado sempre fora do seu alcance; uma garota para o tempo à sua volta para poder ficar com o namorado; um menino (o fantástico Duncan Joiner) se bate com a perda iminente do avô adorado; um homem encontra a si mesmo em um universo paralelo, levando a vida com que sempre sonhou. Mas o mais instigante desta série criada por Nathaniel Halpern, roteirista de Legião Outcast, não é “o quê”; é “como” – como os personagens, que dependendo do episódio se revezam entre coadjuvantes e protagonistas, reagem aos paradoxos e aos estranhos acontecimentos propiciados pela “Loop”, que o cientista visionário Russ (Jonathan Pryce, de Dois Papas, em mais uma atuação soberba) construiu, mas cujos efeitos aleatórios nem ele saberia – ou desejaria – controlar.

 

A fonte de Tales from the Loop é originalíssima. Halpern se inspirou nas curiosas pinturas do sueco Simon Stålenhag, nas quais gigantescas criaturas e estruturas mecânicas modificam cenários bucólicos. A ambientação primorosamente concebida é em si, portanto, um personagem fundamental: embora a trama comece nos anos 50 e chegue até o presente, só uns poucos detalhes mudam. A cidadezinha em que as histórias transcorrem é simultaneamente futurista e passadista; enormes robôs caminham pelas matas e vultos de aço sobressaem na paisagem, mas as casas são antiquadas, os celulares não existem e nos diners antiguinhos só se ouvem músicas dos anos 50. De imediato, assim o espectador é lançado no território das múltiplas possibilidades. Além do visual tão marcante, no entanto, o que une todos os enredos é o sentimento de desamparo, de solidão ou de desconexão que aflige cada um dos personagens e que, graças ao contexto tão inusitado, a série examina com novos olhos e a partir de novas perspectivas. Tales from the Loop é o tipo mais gratificante de ficção científica – o que provoca com perguntas em vez de propor respostas. Ao final, as quase oito horas que pareciam tão pausadas vão mudar completamente de caráter – a sensação é a de que, como dizem três personagens em três momentos cruciais, elas passaram em um piscar de olhos.

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