“A Descoberta das Bruxas” e “Consequências”: românticos ou tolos?

Série da GloboPlay e filme com Keira Knightley que acaba de estrear no streaming confundem uma coisa com a outra

Não são muitos os filmes que tratam do ressentimento dos alemães com as condições da sua derrota na II Guerra Mundial, porque o assunto é mais do que delicado; é quase um tabu. A Alemanha foi pesadamente bombardeada pelos Aliados nos meses finais do conflito, e dezenas de milhares de civis morreram; o país ficou sob a tutela de americanos, ingleses e russos, enfrentou fome, escassez e humilhação. Nenhuma dessas penalidades é seletiva, e alemães favoráveis e contrários ao nazismo as sofreram juntos – mas até que ponto é possível argumentar a legitimidade das queixas se, indiscutivelmente, foi a Alemanha que começou a guerra? A questão é motivo de controvérsias inesgotáveis, e tem-se aí um rico cenário, portanto, no qual ambientar Consequências, que acaba de entrar direto no streaming (NOW, AppleTv, GooglePlay etc.), sem passar pelos cinemas.

Consequências

A inglesa Rachael (Keira Knightley) se muda para Hamburgo para finalmente se juntar ao seu marido, o coronel Morgan (Jason Clarke), chefe das forças britânicas responsáveis por administrar a cidade – ou o que sobrou dela. As primeiras impressões de Rachael são terríveis: Hamburgo reduzida a pó, gente faminta e maltrapilha cavocando os escombros à procura de algo que comer. Morgan e Rachael, evidentemente, não estão sujeitos a essa penúria, já que o comando britânico destacou para eles uma mansão magnífica, cercada de um imenso parque e ainda cuidada pelo proprietário original, o arquiteto Stephen Lubert (Alexander Skarsgard) – “Ex-arquiteto; agora sou torneiro em uma fábrica”, ele frisa. Gosto muito de Jason Clarke, mas acho também perfeitamente compreensível que Keira Knightley tenha reações imediatas e fortes a Alexander Skarsgard – reações que ela confunde com desagrado, mas que até os espectadores menos atentos percebem ser coisa bem diferente. O casamento de Rachael e Morgan não vai nada bem desde que, em algum momento da guerra, o filho deles morreu. Rachael culpa Morgan por ter se mandado logo em seguida ao funeral e tê-la deixado sozinha com seu luto durante os anos seguintes, e culpa-o também por agora trazê-la para esse lugar horrível, cheio de gente detestável (Lubert, a arredia filha pré-adolescente dele e as duas criadas alemãs encabeçam a lista dela). Mas conversa vai, conversa vem, o inevitável acontece – e Consequências esquece onde e quando está para tratar do amor secreto entre Rachael e Lubert da maneira mais batida que existe: como um romance entre duas pessoas que perderam tanto (também a mulher de Lubert morreu na guerra) e se veem unidas pela tristeza, pela paixão pela suíte Clair de Lunede Debussy (sempre linda mas, falando em coisas batidas…) e pela sua fantástica ossatura facial e bom gosto para se vestir. Todas as infinitas complicações da história – aquela com “h” maiúsculo –, da inocência ou culpabilidade, das lealdades familiares e do perigo muito concreto de uma aliança como essa nesse lugar e nesse momento somem do filme, como se também os roteiristas e o diretor James Kent estivessem tão fascinados com seu par central que não conseguem pensar em mais nada. Nem sequer em como todos esses obstáculos poderiam tornar o romance bem menos doce, mas bem mais tórrido.

Consequências

Kent estreou com um filme muito bom sobre amor e guerra (a I Guerra, no caso), Juventudes Roubadas, com Alicia Vikander. Mas, aqui, apesar da solidez do elenco e do prazer inegável dos arroubos amorosos e da direção de arte, troca as exigências do momento histórico por algo que beira a frivolidade. Desconfio que Kent sabe muito bem que está trabalhando aquém das suas possibilidades, porque numa cena crucial faz Keira Knightley usar um vestido de seda que é quase uma cópia, em cor diferente, daquele estonteante vestido verde que ela usa em Desejo e Reparação– como se lembrar o espectador de um filme melhor pudesse fazê-lo passar por cima das deficiências do que está diante dos seus olhos. Se, de qualquer forma, Consequências deixar você no clima (muito provável, porque é tudo tão bonito), sugiro ver a aula magna do diretor Neil Jordan (e sobretudo do escritor Graham Greene) em Fim de Caso, de 1999, com Julianne Moore e Ralph Fiennes. Aí sim.


A Descoberta das Bruxas

Um tipo muito mais radical de tolice – e de desperdício – é o que acomete a série A Descoberta das Bruxas, que acaba de entrar na GloboPlay. Adaptada da primeira parte da trilogia da escritora Deborah Harkness (consta que as duas temporadas que faltam estão aprovadas), a série se propõe como um Crepúsculo com gente um tiquinho mais velha (ainda que igualmente atraente) e ambientação pretensamente mais sofisticada: Diana Bishop, a protagonista interpretada pela australiana Teresa Palmer, mal passou dos 30 anos mas já faz parte do corpo docente de Yale, nos Estados Unidos, e acaba de se tornar professora convidada em Oxford, na Inglaterra, com créditos algo bizantinos: especialização em história da alquimia. Diana é bruxa de longa linhagem (uma ancestral sua foi condenada nos julgamentos de Salem, em 1692), mas acredita não ter poderes. O bioquímico Matthew Clairmont sabe que ela está enganada: é só Matthew Goode, que o interpreta, fazer pose com sua figura longilínea e piscar bem devagar os olhos de alcova e está tudo dito: a) ele é um vampiro; b) Diana é superpoderosa, porque ele pressente e porque só ela consegue achar na Biblioteca Bodleian um volume misterioso que há séculos todos procuram. Clairmont pressente algo mais em Diana: um aroma que o enfeitiça (perdão pelo trocadilho). Bruxas e vampiros são inimigos mortais, mas nada como um romance inter-espécies para sacudir a poeira de regras escritas mil anos antes e nunca revistas. É claro que os responsáveis por garantir o cumprimento dessas regras – uma certa Congregação – vão partir para cima do casal em conluios variados. Aliás, além de bruxas e vampiros há também demônios na história, mas nos oito episódios desta primeira temporada ele não fazem nadica de nada. Ainda estou para descobrir que apito tocam. Em compensação, são muito boa gente.

A Descoberta das Bruxas

Não há um único clichê que A Descoberta das Bruxasnão revisite. Vampiros são riquíssimos, elegantérrimos e, à exceção do vampiro principal da história, costumam ser pérfidos. A heroína tem uma tragédia familiar no seu passado, e é lógico que ela resulta de alguma traição nunca revelada. A mãe do vampiro (1.500 anos e ainda controlando a vida dos filhos) hostiliza Diana mas depois a aceita. O mais irritante de tudo: assim que conhece Clairmont, Diana manda o trabalho às favas. Não entrega os papers que está devendo, falta em todos os compromissos e não abre mais um livro sequer, com a desculpa de que a Bodleian vive cheia de criaturas à sua espreita. Em uma semana, enfim, vira heroína do século 19, que passa o dia suspirando pelo seu príncipe das trevas. Igualmente decepcionante é a maneira como a série desperdiça sua locação principal e as inúmeras possibilidades que ela oferece. A Universidade de Oxford começou no ano de 1096, é a segunda mais antiga em atividade no mundo, continua na liderança em todos os rankings internacionais e, dos seus 20 e tantos mil alunos, mais de 40% são estrangeiros. Toda a parte histórica da cidade e da universidade são, além disso, lindas de morrer, cheias de pátios, vielas, torres e recantos góticos. Dava para fazer miséria com tudo isso – como o faz, por exemplo a sensacional Endeavour, que trata do início de carreira do Inspetor Morse. Tudo o que A Descoberta das Bruxasconsegue, porém, é ser bobinha e tolinha – ainda mais que Crepúsculo, na proporção direta da sua pretensão de ser mais que a saga de Bella e Edward, que pelo menos se assumia.

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