“Game of Thrones”: o herdeiro vacilante e a sua rainha millennial

O piti escaldante de Daenerys não foi surpresa: todos os sinais estavam lá. Já a insistência de Jon em fechar os olhos para o seu erro, foi uma decepção

Aplaudo Jon Snow por ter sido sempre capaz de estender aos inimigos – e a vários aliados, o que é mais difícil ainda – o benefício da dúvida. Proclamado Rei do Norte, Jon não gostou, mas negociou, quando Daenerys, ao conhecê-lo, pressionou para que ele se submetesse a ela como a única soberana dos Sete Reinos. Ficou chocado, mas tentou encontrar razões na desrazão, quando Daenerys executou sumariamente lorde Tarlyn e seu filho, aliados dos Lannister, depois de derrotá-los em batalha. Caminhou sobre gelo muito fino com Sansa, Arya e os barões do Norte quando Daenerys chegou a Winterfell com seus Imaculados, dothrakis e dragões, posando de ó do borogodó. É que Winterfell de fato precisava das forças da rainha Targaryen e Jon estava apaixonado, raciocionou o espectador, tão desejoso quanto Jon de acreditar em Daenerys apesar de todas as evidências. Não, já não era paixão. Era medo mesmo. Aquele tipo de medo que se conhece popularmente como “vacilo”: na falta de força para reparar um erro, tenta-se vestir esse erro em alguma roupagem benigna, como lealdade ou desapego ao poder. Jon tem caráter e é impossível que, nos ataques de birra e manipulações descaradas de Daenerys (por exemplo, tentar dobrá-lo por meio de pegação), ele não tenha enxergado o desplante com que ela simplesmente descartou a informação de que ele na verdade é Aegon Targaryen e tem reivindicações mais robustas que as dela ao Trono de Ferro. Tenho a tentação de perdoar Jon por ter fingido para si mesmo que não era Daenerys que queria demais o trono, e sim ele próprio que o queria de menos. Mas, quando Daenerys executou lorde Varys no meio da noite por – haja cara de pau – traição, a partir daí o vacilo de Jon se tornou imperdoável, porque nesse momento ele entendeu o que estava por vir, e viu na relutância de Daenerys em concordar com um sinal para a trégua – o toque dos sinos – que ela já estava a mais de meio caminho andado na decisão de arrasar Porto Real. E por que Daenerys queria tanto calcinar Porto Real com o fogo de seu dragão? Porque em Westeros ela não é amada como gosta de ser, porque Jon escolheu contar a verdade para Sansa e Arya (“eu bem que pedi a ele para não fazer isso”, diz Daenerys, amuada, transferindo antecipadamente para ele a responsabilidade pelo que iria fazer), porque a contrariaram e ela não suporta que a questionem, porque foram uns chatos e tornaram menos gloriosa a realização do seu sonho. Daenerys, enfim, é uma millennial: ao menor sinal de contrariedade, perde o controle e parte para a ignorância. Jon e em menor medida Tyrion eram os únicos em posição de colocar-lhe um freio, mas acovardaram-se e não o fizeram. Deu no que deu, e vai ficar bem pior ainda antes de ficar melhor – se é que vai melhorar.

Millennials, é claro, existem desde que o mundo é mundo. O que o termo tipifica é uma síndrome que se tornou epidêmica, mas que decorre de um punhado de circunstâncias nada incomuns na natureza humana, que a palavra inglesa “entitlement” define muito bem – o “sentir-se no direito de”. Dessa certeza de que se tem direito ao direito (de ser feliz, de ser amado/a e festejado/a, de realizar todos os sonhos), decorrem outras certezas – a de que naturalmente se tem razão, a de que se sabe qual a verdade mais verdadeira, a de que se é superior – moralmente, inclusive – a todos os outros. O que essa certeza não traz consigo é a compreensão de que todos esses “direitos” são coisas pelas quais se deve trabalhar. Essa é uma ideia psicologicamente insuportável para o “entitled”, que vê no trabalho de conquista desses direitos a negação mesmo deles.

Desde a primeira temporada de Game of Thrones, Daenerys dá mostras claras dos seus melindres de millennial: não disfarçou o sentimento de justiçamento quando Khal Drogo matou barbaramente o irmão dela e abriu seu caminho para o Trono de Ferro (ora, Viserys era um tonto e ela é muito melhor); refestelou-se no poder de Drogo, apesar de ele advir da conquista à força e da escravização (mas ela ia temperar a fúria dothraki com a sua inteligência); matou a feiticeira que quis brecar a linhagem a que ela Drogo dariam origem e, dessa raiva, tirou a força mágica que fez seus dragões nascerem. Tudo se justifica, porque ela tem um direito a receber – os Sete Reinos. Daenerys libertou milhares de escravos em Astapor, Qarth e Yunkai, sim – e desabrochou com a idolatria que os libertos passaram a dedicar a ela e com a crueldade meticulosa com que puniu cada um dos antigos senhores de escravos. Daenerys exige gratidão e adoração, e o reconhecimento de que é única, especial e plena; qualquer coisa menos do que isso desperta imediatamente a sua paranoia e a sua hostilidade. De forma que não, não há nada de surpreendente no piti escaldante dela no episódio de ontem. Todos os sinais de despotismo estavam lá desde o início. E, desde que desembarcou em Westeros, Daenerys já vinha dando também sinais da loucura Targaryen – que nada mais é do que a certeza absoluta do direito ao poder absoluto, e a desconfiança de qualquer um que questione ou ameace esse direito.

A única coisa que perdoo em Jon e Tyrion é o medo que eles têm de Daenerys. Eu também teria. Mas a fraqueza deles de disfarçá-lo em lealdade e em confiança – essa foi uma enorme decepção. É como se diz: para que os maus vençam, basta apenas que os bons nada façam. De forma que, depois de suportar toda a opressão de Cersei, os infelizes moradores de Porto Real viraram cinza como punição por não serem capazes de adivinhação (deveriam ter se rebelado contra essa opressão e manifestado sua devoção à rainha que nunca haviam visto) – ou, mais ao ponto, por Jon ter nascido Targaryen, um incidente pelo qual nem eles nem o próprio Jon têm qualquer responsabilidade. Agora Daenerys, com toda a sua voracidade por aprovação e a empáfia do seu “entitlement”, está instalada sobre essas cinzas com o amparo das legiões de Imaculados e dothrakis que compartilham seus sentimentos de vingança. E Jon e Tyrion, os homens bons, talvez já tenham perdido a chance de fazer qualquer coisa. Se Game of Thrones terminar assim, vai ser triste. E também um bocado mais plausível.

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