“Assunto de Família” e “Cafarnaum”: Oscar para todo mundo, por favor

“Roma”, do México, vem como um trator na categoria de filme estrangeiro – e, por mais que mereça o prêmio, vai atropelar estas joias do Japão e do Líbano

Não há dúvida de que, com Roma, o mexicano Alfonso Cuarón emplacou um trabalho de rara beleza e também de indiscutível importância para a discussão acalorada, e nem sempre razoável, que opõe a produção de cinema e o streaming. A esta altura, é dado como líquido e certo que Roma não apenas vai aparecer em várias categorias na lista de indicações ao Oscar que sai na manhã desta terça-feira, 22 de janeiro, como será também o ganhador do prêmio de produção estrangeira. Merece. E, no entanto, essa probabilidade me deixa ao mesmo tempo feliz e triste, porque está forte como nunca a lista deste ano de nove candidatos às cinco vagas do Oscar de filme estrangeiro. Já sofro em antecipação pelos cineastas que ficarão de mãos abanando – entre os quais Florian Henckel von Donnesmark, da Alemanha, que ganhou em 2007 com A Vida dos Outrose volta agora com Werk ohne Autor(Obra Sem Autor); o polonês Pawel Pawlikowski, que ganhou com Ida em em 2015 e apresenta este ano Guerra Fria(estreia prevista aqui para 7 de fevereiro); pela Dinamarca, o estreante Gustav Möller e seu potente Culpa; o colombiano Ciro Guerra, de O Abraço da Serpente, que vem com Pássaros de Verão. E, principalmente, sofro por Assunto de Família, do japonês Hirokazu Koreeda, e por Cafarnaum,da libanesa Nadine Labaki, que estão em cartaz nos cinemas brasileiros.

Assunto de Família

Nadine Labaki fez muito sucesso ao redor do mundo com seu doce Caramelo, de 2007, sobre os dramas pessoais de um punhado de mulheres – cabeleireiras e freguesas – de um pequeno salão de beleza em Beirute. Seu Cafarnaum, porém, é furiosos e inflexível na maneira como acompanha a saga de Zain, um menino franzino de 12 anos que ela põe, aqui, como avatar de todos os miseráveis das favelas de Beirute, apinhadas de libaneses pobres e de mais de 1 milhão de refugiados chegados da Síria e da África nos últimos anos. Nadine usa desse cenário específico para falar da sentença que é a pobreza extrema em qualquer lugar do mundo – uma sentença que os filhos herdam dos pais, e que passam adiante aos filhos que ainda terão, numa punição eterna. Prepare-se para ser fustigado durante duas horas – e, no meio desse horror, encontrar momentos de uma beleza que vai direto ao coração.

Cafarnaum

É aí, também, que Hirokazu Koreeda atinge o espectador com Assunto de Família, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes em maio passado e trata de um clã de pequenos marginais que acolhe uma menina de 5 anos abusada pelos pais. Koreeda embala a plateia no mesmo conforto e ternura que a garotinha encontra entre essas pessoas ligadas por laços algo obscuros (são parentes? não são? como foram parar juntos?). E então, na última meia hora, repentinamente tira-lhe o chão de debaixo dos pés. Já declarei meu amor pelo trabalho de Koreeda várias vezes aqui no blog; para mim, é um dos cineastas mais extraordinários em atividade no mundo. Deveria ter sido várias vezes indicado ao Oscar, e nunca foi. E, pelo jeito, neste ano vai ganhar a indicação mas não, que dó, a estatueta.

Leia a seguir as resenhas completas de Assunto de Família e Cafarnaum:


Tragédia Gentil

Com Assunto de Família, Hirokazu Koreeda deixa a plateia se sentir confortável e então a acerta no coração. Até na obra do mestre japonês, esta voltagem e pungência são inéditas

Osamu (Lily Franky) e sua mulher, Nobuyo (Sakura Ando), não são pessoas muito honestas, tampouco esforçadas: ambos têm empregos que levam daquele jeito, mas ficam felizes mesmo é quando roubam pequenos itens – um xampu, um salgadinho – das lojas, não raro com a participação do filho, o garoto Shota (Jyo Kairi). Junto com outra parente, eles se apinham na casa da avó, em meio a uma bagunça tão compacta que quase pode ser dividida em estratos geológicos. Mas o clã Shibata não é gente má. Eles se amam uns aos outros com uma alegria gentil, e imediatamente começam a amar também Yuri, de 5 anos (a fofésima Miyu Sasaki), que encontram passando frio na varanda dos pais e levam consigo para casa. O jantar vira um pernoite; o pernoite vira meses: Yuri é quietinha, esperta (tem um dom natural para furtar, aliás) e é também uma criança abusada pelos pais. Por que não deveria ficar com quem a ama e a trata com carinho?

Durante aproximadamente noventa de seus 121 minutos, Assunto de Famíliacerca o espectador do mesmo conforto e graça que Yuri agora desfruta, deixando-o acomodar-se no mundo ameno desses pequenos e afetuosos marginais – para então, no ato final, virá-lo do avesso com a tragédia funda, calada e inapelável que o diretor Hirokazu Koreeda sempre soube existir no interior dessa história.

Vencedor da Palma de Ouro em Cannes e candidato do Japão ao Oscar de produção estrangeira, Assunto de Famíliarivaliza com Ninguém Pode Saber, de 2004, como melhor trabalho de Koreeda – um mestre do drama enganosamente simples e do retrato que apenas parece ser casual. Expoente do cinema japonês contemporâneo, Koreeda a cada filme faz, desfaz e refaz as definições de amor e família enquanto também seus personagens fazem, desfazem e remendam – ou não – seus laços. Não é raro que, ao fim de um filme seu, a plateia se veja simultaneamente arrasada e enlevada. Com esta jóia, porém, ele atinge, aos 56 anos, uma voltagem e uma pungência imprevistas até para uma obra como a sua. E, com ela, prenuncia uma maturidade artística cujos frutos mal é possível imaginar.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na edição 2617 da revista Veja
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2019


Beleza Fulminante

Apoiada na atuação extraordinária de um pequeno refugiado, a diretora libanesa Nadine Labaki ilumina a tragédia das favelas de Beirute – ou de qualquer outro lugar – em Cafarnaum

Zain (Zain Al Fafeea) tem uns 12 anos (seus pais não sabem dizer) e tamanho de 7 ou 8. Franzino, com ossos de passarinho, sempre sujo e maltrapilho, o menino – o mais velho de uma penca de irmãos – empilha caixas de refrigerante, puxa botijões de gás por quarteirões, vende suco na rua e, de maneira geral, sustenta a família. Zain tem também uma fúria dentro de si: a indignação com a miséria abjeta em que vive, e a revolta com o pai e a mãe que não param de ter filhos e condená-los a esse mundo – e por isso mesmo, por terem-no obrigado a nascer, ele está processando os pais no tribunal. Ao qual comparece em algemas: alguma crise, possivelmente ligada à venda de sua irmã de 11 anos para um homem adulto, levou Zain a cometer um crime, pelo qual ele deve passar cinco anos preso.

Terceiro longa da libanesa Nadine Labaki, de Caramelo(2007) e E Agora Onde Vamos? (2011), Cafarnaumtoma seu título da cidade em que Jesus realizou muitos de seus milagres e pregações. A referência é metafórica: de mais de 500 horas filmadas, a cineasta tirou 120 minutos de uma odisseia implacável pelas favelas de Beirute, no Líbano, país onde a chegada de mais de 1 milhão de refugiados tornou catastrófica uma situação que já era drástica. Todos os protagonistas – à exceção de Nadine, no pequeno papel da advogada do garoto – são não atores, e vivem na tela versões muito próximas de si mesmos, incluindo-se o juiz. Ninguém é mais extraordinário, no entanto, do que o refugiado sírio Zain Al Rafeea, que está em cena todo o tempo e infunde o filme com seu desespero, e com sua maturidade tristemente precoce.

Cafarnaum convida a um lugar-comum: há, verdadeiramente, algo de materno na compaixão de Nadine – e também na ferocidade com que ela encampa a tragédia de Zain e a de Rahil (Yordanos Shiferaw), a imigrante etíope ilegal que o acolhe em certo momento e que confia ao garoto os cuidados de seu bebê. Yordanos foi presa dias depois de filmar, pelo mesmo motivo que sua personagem – falta de documentos. A desgraça, em Cafarnaum, é abissal. E sua beleza, fulminante.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na edição 2618 da revista Veja
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2019


Trailers


ASSUNTO DE FAMÍLIA
(Manbiki Kazoku/Shoplifters)
Japão, 2018
Direção: Hirokazu Koreeda
Com Lily Frank, Sakura Andô, Jyo Kairi, Miyu Sasaki, Mayu Matsuoka, Sosuke Ikematsu
Distribuição: Imovision

CAFARNAUM
(Capharnaüm)
Líbano/Estados Unidos, 2018
Direção: Nadine Labaki
Com Zain Al Rafeea, Yordanos Shiferaw, Haita “Cedra” Izzam, Kawsar Al Haddad, Fadi Yousef, Elias Khoury, Nadine Labaki
Distribuição: Sony Pictures

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