“Loaded”: quando o dinheiro vem para quem não sabe o que fazer com ele

Série inglesa na Netflix acompanha quatro amigos que ficam milionários da noite para o dia com um jogo idiota para celular


Ewan, o nerd tímido, explica para um ficante por que fingiu não ter grana, quando na verdade é milionário: “O que me dá medo é não perceber se o dinheiro está me mudando – tipo, ir dormir normal e acordar um Russell Crowe”. Coitado de Ewan, tão doce, nem que tentasse a vida inteira ele conseguiria virar uma fera como Russell Crowe. E, para especificar, Ewan (Jonny Sweet) não é milionário; ele acabou de se tornar milionário, com a venda por £ 246 milhões (pela cotação de hoje, algo como R$ 1,2 bilhão) de um jogo idiota para celular, chamado Cat Factory, que ele fez com os amigos Leon, Josh e Watto. É dinheiro que não acaba mais. Leon (Samuel Anderson), o agitador do quarteto, compra Ferrari, helicóptero e uma casa com uma piscina revestida de preto, tão funda que ninguém tem coragem de entrar nela – e contrata ainda um coralzinho para ir cantar palavrões em harmonia na porta de todos os seus desafetos. Watto (Nick Helm) está tentando não beber, fumar e cheirar toda a sua fortuna, de modo que a torra em outro tipo de inutilidades, menos tóxico mas igualmente estúpido. Um inconformista autodeclarado, Watto está tendo uma baita dificuldade em conciliar seus princípios anarquistas com sua conta no banco. Josh (Jim Howick), o cérebro por trás do jogo, sofre de ansiedade generalizada. Seus pais acham que ele vai quitar a hipoteca da casa deles; ele dá para eles de presente uma viagem “cultural” para Uganda, Paquistão, Iêmen etc., e sem querer destrói um casamento de décadas (“Quando íamos para a Disney, não precisávamos conversar um com o outro”, reclama o pai). Estão todos os quatro tontos com o dinheiro, e apenas começando a sacar que a) de fato, ninguém acorda igual ao que era antes quando ganha alguns milhões de libras da noite para o dia; b) a pressão só vai piorar, porque Casey (Mary McCormack), a compradora americana, que se define como “um Darth Vader sexy”, acabou de desembarcar em Londres para garantir que os quatro continuem trabalhando.

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Loaded, uma série inglesa da AMC em oito episódios – disponível na Netflix – de começo se parece um pouco com a brilhante e insuperável Silicon Valley. Logo, porém, vê-se que seu rumo é outro: Leon, Josh, Ewan e Watto são amigos de verdade, e não parceiros que mal conseguer disfarçar o desprezo mútuo, como em Silicon Valley. Aqui, também, o tema é menos o terror de todo dia descobrir que se está à beira do fracasso estrondoso, como em Silicon Valley, e muito mais a maneira como a amizade dos quatro – além do namoro de Josh com a superfranca e doidinha Abi (Aimee Ffion-Edwards) – vai ser testada por uma circunstância inédita na vida deles: agora, o trabalho não é só algo que eles fazem porque gostam; é algo que tem consequências. E que, por isso, imediatamente deixa de ser fonte de prazer e união para se tornar motivo de angústia e discórdia. O dinheiro só piora as coisas porque agora eles não precisam mais conciliar suas diferenças: cada um deles pode mandar os outros passear assim que quiser. E também porque, mais no fundo ou mais na superfície, conforme o caso, todos os quatro sabem que é um absurdo ter tanta grana por causa de uma idiotice como o Cat Factory.

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Mais do que tudo, porém, amei os diálogos (quase sempre o aspecto imbatível da séries inglesas; nem pense em pôr na versão dublada) e o traquejo do elenco para entregá-los. Mary McCormack está ótima como a loira-trator que passa por cima de todo mundo. Lolly Adefope, que faz Naomi, a assistente dela, é outra que faz sua personagem render: começa como mero alívio cômico mas faz um trabalho tão bom que em dois tempos os roteiristas dão a Naomi uma personalidade de verdade. Os quatro amigos, lógico, são o ponto alto, especialmente Leon e Josh. Mas, assim como meu favorito em Silicon Valley é Jared, que eu vivo querendo consolar, o meu preferido em Loaded é Ewan, tão deixado para trás que esquecem até de botar o nome dele em um processo – e que, além disso, é a cara do meu primo Alex, que eu adoro e vejo muito menos do que gostaria.

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