“The Good Fight” x Trump: melhor até que o noticiário

No centro desta nova e afiadíssima leva da série na Amazon, as relações perigosas do presidente americano com os russos (e as russas)

Diane Lockhart, a advogada interpretada pela sublime Christine Baranski, começou a primeira temporada desta série derivada de The Good Wife (e disponível na Amazon) literalmente boquiaberta com a eleição de Donald Trump. Diane é democrata até o osso, mas não é intransigente – tanto que se casou, apaixonadíssima, com um republicano que adora armas. Trump, porém, com aquela sua maquiagem cor de Doritos e a compulsão para falar asneiras desequilibradas, não dá pé; é demais até para o senso de humor de Diane. Nos oito episódios da temporada inaugural, contudo, ele foi pano de fundo. Diane estava ocupada demais caindo num abismo financeiro (um amigo investidor deu-lhe o golpe) e tentando recomeçar do meio do caminho numa firma quase que exclusivamente de negros de Chicago, liderada pelo ótimo Delroy Lindo. Agora, na segunda temporada, já muito bem na nova firma mas deprimida com uma onda de assassinatos de advogados, Diane tem tempo para pensar no estado da nação. E também para brincar com microdoses de psilocibina, o ingrediente ativo dos cogumelos alucinógenos. Largada em frente à TV, à noite, Diane assiste o noticiário e imagina coisas – por exemplo, que Trump insistiu em levar cinco cabras para uma reunião de cúpula no exterior. Pela janela de seu escritório, ela a toda hora vê (será?) um casal dançando ou transando, pelado, com máscaras de Trump. Diane está obcecada – e, então, uma moça russa procura seu escritório com uma história maluca envolvendo o presidente. Ou, talvez, não tão maluca assim.

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O casal Michelle & Robert King, que criou The Good Wife e The Good Fight e supervisiona tudo nos mínimos detalhes, sempre foi craque em levantar do noticiário questões controversas que, nos seus roteiros, são trocadas em lúcidos e interessantíssimos miúdos pelos advogados e seus clientes. Venda de dados do Facebook, uso de algoritmos para promover na sua busca sites que interessam ao Google, acidentes com carros autônomos, haters profissionais, o que a lei diz sobre a execução de membros do Estado Islâmico nascidos nos Estados Unidos – os King têm faro para achar qualquer ponto que esteja começando a emergir (os temas acima foram tratados em The Good Wife, que acabou dois anos atrás) e antecipar a discussão que eles vão provocar no noticiário.

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Pois, lá pela reta final dos treze episódios da segunda temporada (que terminou de ir ao nos Estados Unidos em 27 de maio), aparece a história da tal russa, que está para ser deportada antes que possa abrir a boca – alega ela – sobre um vídeo muito comprometedor em que ela e uma colega de profissão alvejam Trump, e então são alvejadas por ele, com um “chuveiro dourado”. A inspiração deliciosamente sacana dos King foi a de tornar literais as relações meretrícias entre os russos e a eleição americana. Pois eles acertaram até no que ainda não estava na mira. Nem o caso da atriz pornô/stripper Stormy Daniels tinha surgido ainda quando o episódio foi escrito – que dirá a gravação que veio à tona nos últimos dias, em que Trump e seu advogado discutem pagar pelo silêncio de uma modelo da Playboy com quem ele teria tido um affair (se é que ele merece palavra tão distinta).

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Outra trama totalmente do momento nesta temporada? A caça, por meios não mais que tenuamente legais, dos agentes de imigração ao investigador da firma de Diane, Jay (Nyambi Nyambi), na tentativa de tirá-lo de uma certa jogada que não convém a certas pessoas. A coisa vem sendo orquestrada tão de cima que o próprio Jay – filho de nigerianos nascido nos Estados Unidos – toma uma baita surpresa com sua certidão de nascimento. O mais interessante desse enredo, porém, é a batalha que se arma entre juízes federais, juízes estaduais, juízes municipais e agência de imigração, e que – de novo – antecipa algo que ainda estava por acontecer: as posições muito diferentes do governo e das várias instâncias do Judiciário americano a respeito dos imigrantes não-documentados, num cenário que evoluiu de vez para a guerra com a escandalosa separação das crianças e seus pais. Os King não só leem o noticiário com olhar de raio-X – eles são tão bons, e conhecem tão bem o seu país e os seus tribunais, que adivinham para que lado o caldo vai entornar.

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