“Britannia”: muita invenção, razoável diversão

Celtas, romanos e druidas se batem na Inglaterra do século 1, em uma série que começa mal mas acaba tomando jeito

Aqui em casa a gente gosta tanto do assunto que resolvemos insistir – mas foi preciso força de vontade para aturar o excesso de invencionice e as mudanças de tom desajeitadas (às vezes até ridículas) que bagunçam os quatro primeiros episódios de Britannia, uma série produzida pela Amazon que está disponível na FOX Premium, e que não sabe se quer ser fantasia, aventura, ficção histórica ou, às vezes, até comédia. Entre o quarto e o sexto episódio, porém, a série começa a encontrar o compasso, e daí segue até bem decente: enfim, valeu ter resistido. É o ano de 43 d.C. e, quase um século depois de Julio César ter levado uma sova das tribos celtas que populam as Ilhas Britânicas, o general Aulus Platius (David Morrissey) está determinado a fazer uma nova tentativa de conquista: desembarca com os os 20 000 homens da 9ª Legião, dá uma sacada nas hostilidades entre as tribos, abre uma negociação (ou é o que ele pensa) com os druidas e esfrega as mãos: vai ser fácil, pensa ele, apesar de os soldados estarem apavorados com a reputação sanguinária dos celtas e com sua magia braba. Aulus, na verdade, quer usar dessa magia para certos fins inconfessáveis. Mas vai ter problemas com uma rainha da pá virada (Zoë Wanamaker) e um rei teimoso (Ian McDiarmid) que tem um filho vacilante (Julian Rhind-Tutt) e uma filha decidida (Kelly Reilly). Vai ter dificuldade, também, em saber em qual dos times joga Veran (Mackenzie Crook), o esquisitíssimo chefe dos druidas. Principalmente, vai ter de se ver com a profecia que diz que uma menina será a ruína de Roma na Britannia. A série não esconde que essa menina é Cati (Eleanor Worthington-Cox), que sobreviveu a um massacre romano, ficou sozinha no mundo e tem a ajuda relutante de um druida renegado muito louco, Divis (Nikolaj Lie Kass). Mas faz segredo de quem ela é na verdade, escondendo o nome que ela ganhou no seu ritual de passagem para a vida adulta. (Leia a respeito, se quiser, depois do último parágrafo.)

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David Morrissey é um ator de uma nota só, e seu general Aulus é igualzinho ao Governador de The Walking Dead – pérfido, desequilibrado porém focado e secretamente fraco. Não fosse a cooperação decisiva do restante do elenco, não teria dado pé. Mas, à medida que o roteiro ganha alguma qualidade, alguns atores começam a achar pé e a sobressair. Por exemplo, Mackenzie Crook, que foi o esquisitão Gareth do The Office inglês e o Orell de Game of Thrones: magro feito um vara-pau, com um rosto cavado e anguloso (e aqui coberto de uma maquiagem muito bacana), ele vai fazendo do druida Veran o personagem mais interessante da série. Ou Julian Rhind-Tutt, que pega o papel ingrato do filho fraco e o transforma em uma figura tragicamente à frente da sua época selvagem. Eleanor Worthington-Cox é outra que começa sem ter certeza de onde querem que ela faça mira, mas aos poucos apara os excessos de Cati e dá um rumo a ela. (E, bem, gosto muito da ruiva Kelly Reilly, mas sou obrigada a admitir que aqui ela está meio canastra.)

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É curioso que a série tenha esse jeito de que começou a ser filmada antes de alguém revisar o roteiro final: ela é co-produzida por Sam Mendes, que, além de ter dirigido o sensacional 007 – Operação Skyfall (e ganhado o Oscar por Beleza Americana), produziu uma das melhores séries desta década – Penny Dreadful. Mais: Britannia é criada/escrita/dirigida por Jez Butterworth, dramaturgo respeitado e bom roteirista de cinema, e seu irmão Tom Butterworth, escritor experiente de séries. Os irmãos Butterworth, inclusive, adoram o tema: escreveram juntos o roteiro de A Última Legião (2007), com Colin Firth, que se passa no final da ocupação britânica pelos romanos, no século 5. Aqui, entretanto, eles fantasiam tanto para compensar as lacunas documentais – os celtas não faziam registros escritos, e só se tem o lado romano da história – que às vezes parecem estar pura e simplesmente chutando. Como eu já disse, porém, a coisa toma jeito: do sexto ao nono (e último) episódio não há muito do que reclamar. E, para todos os efeitos, tudo está bem quando acaba bem.

E QUEM SERIA CATI, AFINAL? Para o público inglês, faz sentido o suspense em torno do nome que a menina destinada a arruinar os romanos teria ganhado no seu ritual de passagem para a vida adulta: a expectativa é de que ela se revele uma figura muito conhecida da história oral britânica. Para os espectadores que não têm familiaridade com os primódios das ilhas, entretanto, a (possível) revelação desse nome talvez não queira dizer nada. Se você acha que conhecer essa possibilidade é spoiler, pare de ler aqui.

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Mas, se acha que saber o significado de tanto suspense aumenta a excitação, aqui vai minha hipótese: Cati se provará ser Boadicea – a forma latinizada do original Boudica –, que em 60 d.C. reuniu várias tribos celtas (uma façanha por si só, já que elas não paravam de se matar umas às outras) numa revolta sangrenta contra os romanos e chegou a fazer Roma pensar seriamente em bater em retirada e pôr um ponto final à sua ocupação das ilhas. Desde o século 19, graças à fixação dos vitorianos com o passado remoto da Inglaterra, Boadicea se tornou uma figura popularíssima na imaginação nacional: o símbolo inaugural da identidade britânica e sua primeira heroína. Não chega assim ao patamar do rei Arthur – mas quase.

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