5 sugestões: um bom filme por dia na Netflix

Programe-se de hoje até domingo com terror, suspense, comédia, romance e drama


Crime/Drama: Atração Perigosa (The Town, 2010)

Quatro mascarados adentram o banco, rendem todos ali com truculência e exigem, então, que a jovem subgerente abra o cofre. Nervosa, com um rifle apontado para sua cabeça, ela erra a combinação uma vez, e outra, e outra ainda – e a atriz Rebecca Hall está tão dentro do momento que se pode sentir seu tremor e ver a transpiração se acumulando sobre seu lábio, de forma espontânea. Um dos bandidos, então, sussurra ao ouvido dela que tenha calma, ninguém vai lhe fazer mal. E mais uma coisa extraordinária acontece: trata-se de um momento de direção tão inspirado que torna palpável o vínculo genuíno, quase puro, que se estabelece entre o agressor e a vítima. É essencial que seja assim, porque Atração Perigosa vai ter nessa ligação sua linha mestra; não fosse ela crível, todo o filme estaria em perigo. O criador desse lance magistral é Ben Affleck, que interpreta Doug, o bandido que protegeu a subgerente, e dirige Atração Perigosa com maturidade, contundência e precisão. Como ator, Affleck é ainda refém de suas limitações. Mas sabe que é um ator mediano, e é um exercício de humildade contrapor-se, em cena, à potência de Pete Postlethwaite (um velho criminoso irlandês), Chris Cooper (o pai de Doug), Jon Hamm (um agente federal) ou Jeremy Renner, que compõe um homem tão volátil na sua violência e desejo de autodestruição que todas as cenas em que ele está trepidam de instabilidade. A condução límpida e sem adornos de Affleck, porém, não apenas valoriza o talento do elenco como denota que ele não se sente intimidado e está de fato no comando. Atração Perigosa se passa no meio em que Affleck cresceu – as comunidades irlandesas de Boston. Ele fala sua língua, entende seus códigos e reconhece seus tipos. Mas, em vez de tratá-lo como uma zona de conforto, faz o oposto: transporta o espectador para dentro dele e faz com que ele experimente na própria pele suas tremendas vicissitudes e ocasionais graças. Um trabalho difícil, e lindamente executado.

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Atração Perigosa

Romance: Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice, 2005)

Elizabeth Bennett (Keira Knightley) é vivaz e tem um senso de humor infalível. Mas o que lhe sobra em inteligência falta-lhe em experiência, o que a leva a julgamentos desastrados. Ela tem ainda contra si três irmãs caçulas destemperadas, um pai relapso e uma mãe estúpida e vulgar. Elizabeth e sua irmã mais velha, Jane (Rosamund Pike), mais do que merecem o interesse dos aristocráticos Sr. Bingley (Simon Woods) e Sr. Darcy (Matthew Macfadyen). Mas, por causa dessa família inaceitável, Darcy, o mais rico e severo dos dois, decide podar os romances ainda em botão. Para duas moças em idade de casar, no início do século 19, essa é uma pequena tragédia, como a inglesa Jane Austen (1775-1817) anotou minuciosamente em Orgulho e Preconceito, o livro mais popular de sua pequena e magnífica obra. Será que Bingley terá coragem de se opor a Darcy? Será que Elizabeth vai perceber que Darcy não é um monstro, e sim um cavalheiro que tem o coração (e tudo o mais) no lugar certo? E será que um dia Darcy conseguirá se declarar para Elizabeth sem ofendê-la? Há dois séculos leitores e espectadores continuam sofrendo com essas perguntas como se não tivessem a menor ideia de qual seria a resposta. O filme do diretor Joe Wright (de O Destino de uma Nação) aposta nesse misto de familiaridade e excitação que Austen soube produzir como ninguém. O maior sucesso desta nova versão está na mise-en-scène, que reconstitui não uma Inglaterra de museu, mas vibrante, colorida e ruidosa, cheia de animais, bailes e conversas educadas ou nem tanto. Outro ponto alto é o elenco, com interpretações sólidas de Donald Sutherland, Brenda Blethyn e Judi Dench, e um par perfeito em Keira e Macfadyen – talvez o melhor Sr. Darcy de todos os tempos, incluindo-se aí a encarnação antológica de Colin Firth na minissérie de 1995.

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Orgulho e Preconceito

Suspense: Segredos de um Crime (Felony, 2013)

Na cena de abertura, com a câmera correndo pelo imenso armazém atrás dos agentes e especialmente atrás do detetive Malcolm (Joel Edgerton), enquanto eles perseguem um bando de criminosos em fuga, pode-se até ter a impressão de que este é um clássico filme de policiais versus bandidos. Mas o território deste suspense australiano escrito pelo próprio Joel Edgerton é outro: um tremendo dilema moral. Que, enquanto progride e se desdobra, vai arruinando vidas. Durante a batida no armazém, Malcolm toma um tiro no abdômen. É salvo pelo colete a prova de balas. Mas, entre o hematoma e o susto, é compreensível que, de noite, ele exagere nos drinques de comemoração com os colegas. Dirigindo alcoolizado e com sono de volta para casa, Malcolm sem querer dá um peteleco com o retrovisor do carro numa bicicleta, e fica atordoado quando percebe que o ciclista, um menino de 9 anos, foi ao chão com uma fratura no crânio. Malcolm chama a ambulância – mas, quando a atendente pergunta se ele foi parte do acidente, ele vacila e diz que não, que apenas achou o garoto. Daí para a frente, o rolo só aumenta, com a entrada na questão de dois outros policiais muito diferentes entre si. O detetive veterano Carl (Tom Wilkinson), um alcoólatra sóbrio de terno sempre amarrotado, cheio de desencanto, imediatamente entra em modo de controle de danos quando chega ao local do acidente e vê que Malcolm está envolvido. Já seu parceiro, Jim (Jai Courtney), um novato caxias, acha que a coisa toda não se encaixa, e não quer largar do osso – inclusive porque está encantado com a mãe da vítima e quer entregar alguma justiça a ela. E o garoto, enquanto isso, continua em coma, à morte. Esse é só o ponto de partida da história – e ela tem tanto a ver com investigação e acobertamento quanto com culpa, negação e racionalização. No íntimo, Malcolm está desabando sob o peso da tragédia que causou, mas as ramificações dela evoluíram de tal maneira que talvez já não seja possível voltar atrás. Tenso, cheio de eletricidade, valorizado pelos ótimos desempenhos centrais (inclusive o de Courtney, que às vezes é um ator meio duro) e muito bem dirigido por Matthew Saville (de ótimas séries australianas como Please Like Me), é uma daquelas descobertas que compensam o garimpo.

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Segredos de um Crime

Comédia: O Virgem de 40 Anos (The 40-Year-Old Virgin, 2005)

O protagonista desta comédia dirigida por Judd Apatow (que estava então no início da maré alta que continuaria com Ligeiramente Grávidos e Superbad – É Hoje) é exatamente o que o título anuncia: um sujeito que chegou invicto à metade da vida. Não porque lhe falte desejo — bem ao contrário. Mas porque, a cada tentativa malsucedida de iniciar um relacionamento amoroso, sua ansiedade foi se avolumando até o ponto do insustentável. Andy Stitzer (Steve Carell, maravilhoso), então, decide canalizar sua energia para outras atividades: trabalhar numa loja de eletrônicos – os colegas deliciosamente interpretados por Paul Rudd, Seth Rogen, Romany Malco e Jane Lynch compõem quase toda a sua vida social –, colecionar bonecos de super-heróis e esconder seu segredo. O Virgem de 40 Anos não deixa escapar as várias chances de fazer humor chulo (e, neste caso, hilariante) que o enredo oferece. Mas a surpresa é que o faz sem ridicularizar seus personagens, com empatia para com as aflições masculinas e com não só graça, mas também graciosidade. Além de considerável generosidade: às vezes, até um sujeito assim tão travado dá uma sorte danada e encontra pela frente uma mulher que enxerga além do cabelinho empastado, da roupa quadradona e da falta de jeito – no caso, Catherine Keener, que abandona aqui seu modo habitual (ou seja, ácido) em prol de uma personagem encantadora. A redenção de Andy, ao som de The Age of Aquarius, é pura alegria.

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O Virgem de 40 Anos

Terror: A Hora do Espanto (Fright Night, 2011)

De jeans justo e camiseta apertada, Jerry exala aquela variedade de testosterona irresistível para vizinhas indóceis como Jane (Toni Collette). Já Charley (Anton Yelchin), o filho adolescente de Jane, forma impressões bem diversas: Jerry, diz ele, é um vampiro. Isso explicaria as janelas vedadas em sua casa (não tão incomuns em um subúrbio de Las Vegas, onde boa parte dos moradores trabalha no turno da noite) e as mulheres que visitam Jerry mas nunca são vistas indo embora. E explicaria ainda o número cada vez maior de casas vazias no bairro: os moradores ausentes, insiste o rapaz, foram mortos por Jerry (Jane, que é corretora de imóveis, acha que o estouro da bolha imobiliária é uma causa mais provável). É claro que Charley tem razão. Interpretado por Colin Farrell com graça felina e um cinismo hábil, que resvala na paródia apenas para redobrar o coeficiente de ameaça, Jerry pertence à linhagem dos vampiros pré-Crepúsculo: não sente paixão, solidão nem culpa, só desejo de subjugar, dilacerar e beber sangue. A ironia que não escapa à direção de Craig Gillespie (de Eu, Tonya) nem muito menos ao ótimo roteiro de Marti Noxon (com créditos em Mad Men e Buffy, a Caça-Vampiros) é que foi justamente o advento dos vampiros neossentimentais como os de Crepúsculo que tornou tão revigorante a ideia de um predador niilista como Jerry. Casar essa figura destrutiva à atmosfera de abandono dos subúrbios americanos, atingidos em cheio pela crise, é um lance de finesse. Como no bom filme homônimo de 1985 do qual tira seu enredo básico, A Hora do Espanto não tem pressa de chegar ao seu destino final: diverte-se é com as curvas do caminho e com as piscadelas que dá para aquela parte da plateia que está ligada nas suas pequenas artimanhas – como a escalação de David Tennant (em fase pré-Kilgrave, e então ídolo dos seguidores de Doctor Who) para o papel de um charlatão que se apresenta como caçador de vampiros. Coloca-se muito acima da média, principalmente, na escolha de seu protagonista: depois de O Sonho de Cassandra e Na Mira do Chefe, Farrell deu uma guinada. Despojou-se da ambição de ser astro e decidiu que ser ator estava de bom tamanho – e nunca trabalhou tanto, e tão bem, quanto desde então.

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A Hora do Espanto

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