“The Terror”: Presos no Ártico com os seus demônios (e não só os seus)

Espetacular, a série do canal AMC recria com fato e ficção uma malfadada expedição de 1845 ao Polo Norte

O sujeito do Almirantado britânico que elegeu enviar os navios Terror e Erebus (“treva” ou “inferno”, na mitologia grega) para uma missão no Ártico, em 1845, devia gostar de desafiar o destino – com a pele dos outros. “The Terror”, uma série sensacional que está disponível inteira no canal AMC (para quem o tem no pacote), nem precisaria avisar já na abertura que aconteceu algo muito estranho com os navios e todos os 139 homens a bordo: ela é tão bem filmada que, desde o início, não há dúvida sobre a atmosfera de tensão e malignidade que pesa sobre as embarcações enquanto elas cruzam os blocos de gelo à procura da Passagem Noroeste, que encurtaria significativamente a rota para a China. John Franklin (Ciarán Hinds), o comandante do Erebus e da expedição, era um tipo que vicejava na elite naval: excessivamente – e injustificadamente – confiante nas suas qualidades pessoais e no poder do Império Britânico diante de tudo e qualquer coisa. Tinha a seu lado um terceiro-em-comando, James Fitzjames (Tobias Menzies), arrogante e bajulador. E ambos conviviam com dificuldade com Francis Crozier (Jared Harris), o segundo oficial da expedição e capitão do Terror, que consideravam um tipo deprimido e agourento, sempre pronto a estourar a bolha do otimismo deles com ressalvas e objeções. Crozier, além disso, bebia. Muito. Mas conhecia muito melhor o Ártico, por terra e mar, do que qualquer outra pessoa ali, à exceção do seu único aliado, o imediato Thomas Blanky (Ian Hart), um especialista no assunto. Houvessem ouvido o que eles tinham a dizer, o Terror e o Erebus não teriam ficado presos na banquisa de inverno – o mar congelado num bloco de centenas de quilômetros de área, cujos movimentos (e prazo para descongelar) são imprevisíveis. E as coisas que se passaram a partir daí – bem, isso é o que a série em parte recria, em parte especula, misturando descobertas posteriores a adivinhações bem informadas e até ao folclore esquimó.

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Portanto, recomendo vivamente: se você por acaso já não conhece a história do Terror e do Erebus, resista com todas as suas forças a dar um Google para saber como foi. O clima de horror e mistério é magnificamente opressivo – uma excelente conjunção do roteiro de primeira capitaneado pelo também criador da série, David Kajganich (de Renascido das Trevas e A História Verdadeira), à cinematografia assinada por um time de diretores de fotografia especializados em ambientes naturais extremos. O elenco é todo ele excepcional – eu não saberia nem quem destacar –, e tem muito com que trabalhar: Mad Men, Breaking Bad, Fargo, Better Call Saul e The Walking Dead (pelo menos nos seus finados bons tempos) estão aí para demonstrar que o desenvolvimento de personagens é um dos pontos altos da produção do AMC. Alguns deles percorrem trajetos interessantíssimos, como o James Fitzjames de Tobias Menzies (que é sempre ótimo como o vilão mesquinho e prepotente, a exemplo do “Black” Jack Randall de Outlander, e só fica melhor ainda quando cai em si) e o esquivo e manipulador marinheiro Cornelius Hickey, do ator Adam Nagaitis. Jared Harris e Ian Hart já adoro mesmo, e The Terror não muda nadinha do meu apreço por eles. Mas adorei descobrir três outros atores maravilhosos: Paul Ready, que faz o cirurgião de bordo (então um ofício muito abaixo do de médico), Liam Garrigan, como o fidelíssimo criado do capitão Crozier, e Nive Nielsen como a esquimó Lady Silence. Todos eles levam seus fantasmas para o Ártico. Alguns deixam seus demônios despertar ali, nas paisagens fantásticas e assustadoras do gelo. E encontram, ainda, coisas que não compreendem, tiradas de sua ordem natural pela presença deles. Estou assombrada até agora.

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Só a título de curiosidade… a Marinha britânica tinha mesmo o hábito de batizar os navios da classe do Terror e do Erebus, os “bomb vessels”, com nomes atemorizadores. Outros exemplos: Trovão, Meteoro, Infernal, Enxofre, Fúria e Devastação.

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