“Desejo de Matar”: Bruce Willis julga, sentencia e executa

Sem a crueza nem a sinceridade do original de 1974, refilmagem só preserva o sadismo e o oportunismo

Começando em 1974, e sendo retomada (desnecessariamente) nos anos 80 por mais quatro filmes, a série Desejo de Matar era uma espécie de versão brucutu do Perseguidor Implacável (1971) com Clint Eastwood: enquanto o detetive “Dirty” Harry Callahan de Eastwood esticava a interpretação do que é legal e permitido em nome de um desejo sincero, quase puro, de proporcionar alguma justiça às vítimas (estava-se então no auge de um movimento pelos direitos de presidiários e pela vigilância aos procedimentos corretos nas polícias, e Harry representava o reverso da medalha), o arquiteto Paul Kersey interpretado por Charles Bronson em Desejo de Matar era um sujeito liberal e da paz convertido à ideia de justiça violenta em razão da violência injusta que recaíra sobre sua família – a morte de sua mulher e a destruição de sua filha em um assalto. Bronson saía do luto ao passar algumas horas num estande de tiro e então ganhar um revólver .32: ele decidia que, em vez de sofrer em casa, melhor seria sair e limpar as ruas. Nova York, no começo da década de 70, não se parecia em nada com a Nova York de hoje: era suja, pichada, degradada, com áreas inteiras em que ninguém se atreveria a andar à noite. Mas, na visão do diretor Michael Winner, ela não era só uma cidade insegura – era um inferno em que ladrões e homicidas pulavam das sombras a cada esquina. Fingindo-se de cidadão indefeso, com um saco de compras nos braços para completar o disfarce, Bronson exterminava todos eles. O filme era uma fantasia desagradável e uma apologia da justiça com as próprias mãos. Mas era eficaz, porque tocou num nervo exposto e porque Winner era um diretor competente. Tem seu lugar na história, enfim. Já esta refilmagem com Bruce Willis que acaba de entrar em cartaz é um daqueles filmes sem propósito: não quer atacar nem defender, mas tenta ficar com as vantagens de uma coisa e de outra,e refugia-se em lugares-comuns que, nestas três ou quatro décadas, ficaram tão batidos que não resta mais carne nenhuma no osso deles. O Desejo de Matar original virou um evento cultural espontâneo; esta versão mal tem chances de ser notada.

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No roteiro de Joe Carnahan readaptado do livro de Brian Garfield e dirigido por Eli Roth, o protagonista não é mais arquiteto, e sim médico (porque médicos salvam vidas, não as tiram!). Numa atuação insípida de Bruce Willis, sem nada da crueza que distinguiu o desempenho de Charles Bronson e fez dele um astro B, Paul Kersey cumpre todos os passos do roteiro original, mas nunca se acredita na sua convicção. Bronson dava uma fúria silenciosa ao personagem, e caracterizava a trajetória dele como uma viagem ruim; Willis parece estar nessa jornada estranha a passeio, mais intrigado com a facilidade de entrar numa loja e comprar armas (esse é o pretenso comentário político da refilmagem) do que surpreso consigo mesmo e repugnado com seu desejo de se entregar aos lados mais escuros do seu caráter. Joe Carnahan escreve e/ou dirige aqueles filmes do tipo vamos-matar-todo-mundo, como Esquadrão Classe A. E Eli Roth, que fez carreira em cima da série de torture-porn O Albergue, é um cínico: acendendo aqui uma vela para o santo e outra para o diabo, ele tira de Desejo de Matar até a – vá lá – sinceridade ideológica. Só o que sobra aqui, são sadismo e oportunismo.


Trailer


(Death Wish)
Estados Unidos, 2018
Direção: Eli Roth
Com Bruce Willis, Vincent D’OnofrioElisabeth Shue, Camila Morrone, Dean Norris, Kimberly Elise, Beau Knapp
Distribuição: Imagem

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