‘Jogador Nº 1’: a coqueteleira pop de Spielberg

Deliciosa, a primeira ficção científica do diretor em mais de uma década é uma coleção infinita de ‘Easter eggs


Entre 1975, ano do lançamento de Tubarão, e 1998, com O Resgate do Soldado Ryan, Steven Spielberg foi a figura de ponta do cinema americano não só porque acumulou várias bilheterias colossais, porque inventou o filme-evento, porque fez os efeitos especiais avançarem em escala exponencial ou porque foi soberano num certo tipo de escapismo, do qual virou sinônimo: Spielberg foi tudo isso porque nesse período criou ícones da cultura pop com uma profusão que permanece sem termo de comparação (e também, é claro, porque manja de fazer cinema como poucos). Do próprio Tubarão a Indiana Jones, de E.T. – O Extrarrestre e Contatos Imediatos do Terceiro Grau a Jurassic Park, e de A Lista de Schindler a Soldado Ryan, o diretor moldou essas décadas e lançou sobre elas uma sombra longa, que influenciou todo o entretenimento. Em certo sentido, ele é uma figura muito parecida com a de James Halliday, o personagem que, no livro Jogador Nº 1, do escritor Ernest Cline, cria um jogo virtual no qual as pessoas de 2045 se perdem da realidade: muito melhor do que morar na Terra de verdade é fugir dela nesse gigantesco acervo da cultura pop, reorganizado conforme as preferências de Halliday. (Muito do que Spielberg fez no cinema foi, também, reorganizar seu repertório de criança e adolescente de maneiras novas e excitantes.)

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Nada mais apropriado, então, que seja Spielberg a filmar o livro de Cline nesta sua primeira ficção científica desde Guerra dos Mundos, de 2005. Para mim, Jogador Nº 1 foi uma viagem: me diverti à beça “pescando” as centenas de referências e fiquei feliz de ver que Spielberg se divertiu, fazendo, até mais do que eu, assistindo. Minha curiosidade, agora, é observar se Jogador Nº 1 vai bater também com a parcela da plateia – que hoje é grande – que não cresceu e/ou se formou durante o reinado de Spielberg. Está aí, aliás, a razão pela qual cravei em Soldado Ryan o marco final da era dele: Spielberg teve grandes bilheterias desde então, e várias vezes foi muito comentado. Mas, nos últimos anos, apesar do sucesso de filmes como Minority Report ou Guerra dos Mundos, da volatilidade de temas como o de Munique ou da excelência de trabalhos como Lincoln e Ponte dos Espiões, ele não mais deixou na cultura pop a marca funda que costumava deixar. Talvez, aos 71 anos, ele volte a repetir as façanhas da juventude e meia-idade com Jogador Nº 1, talvez não. Em qualquer caso, adorei vê-lo filmando não só com a maestria de costume, mas com a vibração e a alegria que fizeram dele um caso único na história.

Leia a seguir a resenha completa:


Geleia Geral do Pop

Citações e referências em profusão disputam espaço no delicioso e não raro vertiginoso Jogador Nº 1, o retorno de Steven Spielberg à sua melhor veia de entertainer

Muito empregada em filmes e games, a expressão Easter egg, ou “ovo de Páscoa”, vem de uma tradição pascal, cultivada nos Estados Unidos e em alguns países europeus, de esconder ovos pintados de cores vivas para que as crianças os procurem. O termo designa citações e referências a elementos da cultura pop embutidas no enredo ou no visual de filmes e games e destinadas a fazer o deleite dos conhecedores que as encontram e decifram. Jogador Nº 1, assim, é perfeitamente apropriado à ocasião de sua estreia, na véspera do feriado de Páscoa: um labirinto de Easter eggs que dá várias voltas sobre si mesmo enquanto se abre para avenidas, ruas e becos também eles coalhados de Easter eggs, o filme de Steven Spielberg é ao mesmo tempo uma brincadeira ininterrupta e uma especulação distópica sobre um futuro cada vez mais presente – aquele em que a experiência virtual se sobrepõe à vida real com tanta intensidade que chega a substituí-la.

Está-se em 2045, e o mundo anda tão feio que a maior parte da humanidade prefere esquecer que mora nele. À parte breves intervalos para dormir, comer e cuidar de outras necessidades naturais, explica o jovem protagonista Wade Watts (Tye Sheridan), quase todas as horas do dia são passadas no Oasis, um jogo feito de incontáveis ambientes virtuais hiper-realistas. É fácil compreender o porquê quando se veem por exemplo as “Pilhas”, o bairro de Columbus, Ohio, em que Wade mora – um amontoado periclitante de contêineres sem conforto nem privacidade, cercado de pichações e ferro-velho e retratado com minúcia atordoante pelo diretor de fotografia Janusz Kaminski, colaborador de Spielberg desde A Lista de Schindler. Em qualquer janela das “Pilhas” pela qual se espie, encontra-se alguém com os óculos de realidade virtual (quem pode pagar usa ainda vestes que transmitem sensações para todo o corpo), dançando, gesticulando ou lutando com o vazio enquanto faz sabe-se lá o quê nesse mundo impalpável. No Oasis, vencem-se fases e acumulam-se troféus e fortuna (de mentirinha), como em qualquer jogo. Mas nele também é possível sair para a balada, fazer exercício, frequentar rodinhas, dedicar-se a passatempos que seriam caros demais para os bolsos de verdade, exercer uma vocação que não se poderia alcançar – e ser alguém mais interessante.

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O que torna o Oasis verdadeiramente fascinante para seus usuários, porém, são as suas especificidades: o jogo é como que uma réplica da mente de seu criador, James Halliday (Mark Rylance, de Ponte dos Espiões), um nerd introvertido que durante a vida fez um único amigo – seu sócio Ogden Morrow (Simon Pegg). Como muitos solitários, Halliday teve uma rica existência dentro da própria cabeça, mergulhado na cultura pop e reorganizando-a em um universo particular. Muitos dos frequentadores do Oasis são peritos em Halliday, aliás. Aprender a navegar as correntes idiossincráticas da sua imaginação é um esporte em si, e quem o leva a sério pode inclusive recorrer a uma biblioteca em que todas as memórias desse gênio retraído foram cuidadosamente arquivadas.

Nesse sentido, Jogador Nº 1 é como uma imagem refletida no espelho até o infinito: o escritor Ernest Cline reconstruiu o próprio repertório ao criar Halliday no romance homônimo em que o filme se baseia; Spielberg e o roteirista Zak Penn então submeteram esse acervo a seus próprios filtros e novamente o reorganizaram e também expandiram – e, enquanto assiste ao filme, cada espectador vai fazendo a sua curadoria particular, com base nas referências que “pesca” ou não e nos elementos com os quais se identifica mais proximamente. É impossível calcular quanta graça é acrescentada a esse caleidoscópio pelo fato de Zak Penn (roteirista dos X-Men, de Os Vingadores e de mais uma futura regurgitação pop, Karate Kid 2, e Spielberg não serem meros observadores, mas participantes ativos da fusão pop. O diretor, em especial, é um criador fertilíssimo de ícones culturais desde os anos 70, e foi muito consumido por Cline – que, aos 45 anos, integra a geração atingida em cheio pelo seu reinado no cinema. Spielberg exclui de Jogador Nº 1 muitas das referências que o livro faz à sua obra; a única menção ostensiva a ela é um T-Rex que anda pelo Oasis. Mas, como a sua rede de influência é vasta, o filme vem cheio de homenagens oblíquas. Por exemplo, uma corrida vertiginosa na qual Wade – ou melhor, seu avatar, Parzival – pilota o DeLorean de De Volta para o Futuro, que Spielberg produziu para o diretor Robert Zemekis. Ou ainda uma sequência espetacular dentro do Iluminado de Stanley Kubrick (a cujo pedido Spielberg fez A.I. – Inteligência Artificial), que reproduz tão perfeitamente o filme, e utiliza tão bem certos momentos-chave dele como Easter eggs, que pode levar ao delírio os Kubrick-maníacos.

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Como em muito do trabalho de Spielberg, a amizade é o elemento crucial de redenção em Jogador N º 1. Dentro do Oasis, firmam-se conexões leais e duradouras entre pessoas que nunca sequer suspeitariam ser quem são se dividissem o banco de um ônibus ou a mesa de um café. Como, por exemplo aquela que une Parzival e Aech (Lena Waithe), e à qual logo se soma Art3mis (a encantadora Olivia Cooke, de Eu, Você a Garota que Vai Morrer), uma graça de rebelde por quem Wade/Parzival fica perdida e desengonçadamente apaixonado. O trio faz parte de um punhado de fanáticos que, ao cabo de cinco anos infrutíferos, ainda procura por três chaves mágicas que Halliday ocultou no jogo antes de morrer. Cada chave leva à seguinte, e o primeiro jogador a solucionar o enigma ganhará controle total – e propriedade real, com contrato assinado – sobre o império que é o Oasis.

Esses caçadores têm um opositor de peso: Nolan Sorrento (Ben Mendelsohn), presidente da corporação rival da Gregarious Games, proprietária do Oasis. Inescrupuloso, ardiloso e fingido como devem ser os vilões de matinê, Nolan mantém um grupo de jogadores permanentemente escarafunchando o Oasis em busca das chaves, e outro grupo, este de alunos nota 10 de colégio, sempre procurando pistas nos filmes, músicas, jogos e livros preferidos de Halliday – e amplificando o ricochete de referências. (Em mais um momento delicioso de Jogador Nº 1, esse grupo reencena uma das melhores experiências coletivas já proporcionadas pelo cinema: o momento de Os Caçadores da Arca Perdida em que a plateia espontaneamente avisava o arqueólogo Indiana Jones, em uníssono, de que ele deixara cair seu chapéu.)

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Desde Guerra dos Mundos, de 2005, Spielberg não fazia uma ficção científica, e possivelmente desde Prenda-me Se For Capaz, de 2002, não imprimia tanta alegria a um filme. Mas Jogador Nº 1 é o diretor na sua melhor veia de entertainer – fluente, brincalhão, leve no toque (apesar de uma ou outra passagem mais arrastada), superlativo nas variadas linguagens visuais que o enredo pede e cheio de empatia para com seus personagens. Em especial para com o avoado e balbuciante James Halliday, que construiu o mais vasto e intrincado repositório de cultura compartilhada de que se tem notícia mas nunca conseguiu juntar coragem para dividi-lo em pessoa com ninguém. O escapismo pode ser divertido e mesmo saudável, reafirma o cineasta que ergueu sobre ele a sua carreira. Mas viver a vida com gente de carne e osso é ainda mais excitante, avisa o homem por trás dele.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista Veja em 28/03/2018
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2018

Entrevista


Trailer


JOGADOR Nº 1
(Ready Player One)
Estados Unidos, 2018
Direção: Steven Spielberg
Com Tye Sheridan, Mark Rylance, Olivia Cooke, Lena Waithe, Ben Mendelsohn, T.J. Miller, Simon Pegg, Philip Zao, Win Morisaki, Ralph Ineson, Susan Lynch, Claire Higgins
Distribuição: Warner

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