Duas ótimas séries de suspense para fazer maratona

Manhunt: Unabomber” recria caso real célebre, enquanto “The Missing” imagina o pior dos cenários – o desaparecimento de um filho


Durante dezessete anos, entre 1978 e 1995, o terrorista doméstico que ficou conhecido como Unabomber matou três pessoas e feriu outras 23, explodindo um total de dezesseis bombas em escritórios, casas e até aviões americanos – às vezes plantando-as pessoalmente, e na maior parte das vezes mandando-as pelo correio. Era bom no que fazia: à parte algumas “assinaturas” (por exemplo, grande quantidade de solda), nunca deixou um traço físico nas bombas ou nos pacotes, nem qualquer trilha no serviço postal que fornecesse alguma pista. Como descobrir qual a identidade de um sujeito assim? Foi a mais longa e mais cara busca já montada pelo FBI, mas só deu frutos mesmo quando os agentes federais abandonaram seus métodos convencionais e partiram para uma estratégia nunca usada antes: analisar a linguagem muito peculiar do Unabomber. Proponente de uma ideologia própria e muito detalhada (anti-sociedade industrial, anti-consumismo etc.), ele fazia questão de se comunicar em cartas enviadas às autoridades e aos jornais; a certa altura, divulgou um longo manifesto no qual esmiuçava, ponto por ponto, todo o seu raciocínio. Manhunt: Unabomber, que está disponível na Netflix, dedica seus oito episódios não só a reconstituir a investigação, mas também a mostrar como o Unabomber, um ex-prodígio da matemática que entrou na Universidade Harvard aos 16 anos, se tornou essa pessoa (não vou nem contar o nome real dele, para não estragar nada do suspense da série). Paul Bettany está excelente como o terrorista; já Sam Worthington nem sempre convence como o agente federal que concebe o método inovador, e que pouco a pouco começa a aderir ao pensamento do Unabomber. Nada que chegue a atrapalhar, porém. Não está na categoria do Mindhunter de David Fincher (cujo estilo de filmar a série imita), mas é um roteiro bastante eficiente, conduzido com um ritmo bem dosado entre o presente e os flashbacks.

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The Missing

Com a primeira temporada disponível no GlobosatMais e a segunda na AmazonPrime, The Missing é o melhor tipo de suspense – aquele que atormenta o espectador e não lhe dá sossego enquanto ele não chega à resolução do mistério. As duas temporadas podem ser vistas de maneira independente, já que são histórias completamente separadas, com um único personagem em comum: o detetive francês Julien Baptiste (Tchéky Karyo, ótimo), especializado em desaparecimentos de crianças. Na primeira temporada, ele investiga o sumiço do garoto inglês Oliver, de 5 anos, em férias com os pais (James Nesbitt e Frances O’Connor) no interior da França. Na segunda, ele sai da aposentadoria – Baptiste é o tipo de policial que remói durante anos a fio os casos que não conseguiu resolver – porque o reaparecimento de uma moça inglesa sumida onze anos antes, na Alemanha, parece conter pistas sobre o sequestro de um menina francesa que marcou sua carreira. O primeiro caso, o do menino Oliver, é tristíssimo; a vida dos pais desmorona e se desfaz com a atenção da imprensa e com a pressão das pistas que sempre acenam com a promessa de que o paradeiro do seu filho será desvendado, e sempre terminam por frustrar. São anos de uma angústia que, em dado momento, chega a levar o pai numa viagem desesperada até a Rússia. O segundo caso, o das pré-adolescentes Alice Webster e Sophie Giroux, é de roer as unhas, e absolutamente viciante. Aqui, a família Webster (David Morrissey e a excelente Keeley Hawes fazem os pais), que mora numa base militar britânica numa cidadezinha alemã, conseguiu se manter unida durante sua década de desesperança – mas desaba quando Alice ressurge. Aliás, será mesmo Alice, pergunta-se a mãe? O detetive Baptiste, cada vez mais devastado por um câncer, tem a mesma dúvida e não consegue de jeito nenhum largar o osso, apesar da desconfiança com que a polícia alemã e as autoridades militares britânicas o tratam. São mistérios dentro de mistérios que estão dentro de mais mistérios ainda. Baptiste tem idade e não muita saúde, mas espero que deem um jeito de ele voltar para uma terceira temporada.

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