As 10 Melhores Séries de 2017

Policiais, pistoleiros, traficantes e também o papa e a rainha protagonizam as produções mais marcantes do ano

Não há como não se render às evidências: sem Mad Men e Breaking Bad no ar (ambas do canal AMC), e com a decepção da nova Westworld e da sétima temporada de Game of Thrones (as duas da HBO), a Netflix dominou o cenário das séries em 2017. E não foi só porque o adversário mal e mal compareceu ao jogo, mas porque o serviço de streaming entrou na quadra com um time fantástico mesmo. Do brilhantismo de David Fincher na sua nova criação, Mindhunter, à surpresa que foi o faroeste Godless; da excelência demonstrada nas continuações de The Crown e de Narcos ao ângulo inesperado que Ozark dá à história do homem comum que se mete com o crime em grande escala, a plataforma confirmou que não está interessada em participar – só em ganhar.


1. Mindhunter

(Netflix)

Em meados dos anos 70, um agente novato se junta a outro já meio em fim de carreira para, à revelia do próprio FBI, desenvolverem um método de perfil psicológico para um fenômeno recente, o dos serial killers. A metodologia: ir de prisão em prisão entrevistando os autores de múltiplos e bárbaros assassinatos – todos eles figuras reais, a exemplo do cativante (sim, cativante) e assustador Ed Kemper. O maior de todos os cineastas americanos na ativa, David Fincher (Seven, A Rede Social) criou esta série e dirige quatro dos dez episódios da primeira temporada, estupenda do primeiro ao último minuto. Jonathan Gross (de Glee) e Holt McCallany (de Blue Bloods) formam uma dupla excelente, mas é o desconhecido Cameron Britton quem vai levar você a nocaute no papel de Ed Kemper.

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2. Godless

(Netflix)

Pense nesta série de oito episódios como um western de sete horas e meia – como o melhor western feito até aqui no século 21, ou até como um dos grandes westerns de toda a história do western. Leva menos de dez minutos para viciar e, quando acaba, deixa uma síndrome de abstinência que não passa nunca. Viúva de um índio, a rancheira Alice (Michelle Dockery, a Lady Mary de Downton Abbey, elegante até no meio da poeira) encontra no seu estábulo um rapaz ferido a bala. Roy (Jack O’Connell) diz que é melhor ele ir embora logo, porque atrai azar. Mas Alice o faz ficar na cidade de Belle, onde um acidente na mina matou todos os homens e deixou quase que só mulheres. Alice, Roy, o xerife quase cego (Scoot McNairy) e a irmã do xerife (a excelente Merrit Wever), entre outros personagens sensacionais, terão de se ver com o pesadelo que persegue Roy: o tenebroso malfeitor Frank Griffin (Jeff Daniels, arrasando). É épico, violento, triste, poético – e lindo.

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3. The Young Pope

(Fox Premium)

Poucas séries me enredaram, confundiram e maravilharam tanto até hoje quanto esta criação magistral do italiano Paolo Sorrentino, ganhador do Oscar por A Grande Beleza. Sorrentino filma diabolicamente bem, e as imagens que ele concebe, sempre entre o real e o indefinivelmente imaginado, são uma viagem. E, não menos importante, esta talvez seja a interpretação da vida de Jude Law: como o papa americano que despreza a Igreja que conduz, tem uma visão às vezes medieval da religião e vive um relacionamento de infinitas complicações com a própria espiritualidade, Law arrebata e hipnotiza. E não é o único que o faz: Silvio Orlando está inesquecível no papel do ardiloso, hiperpolítico mas afinal comovente cardeal Voiello, que tenta dar ao novo papado alguma feição que os fiéis cada vez mais escassos possam reconhecer. E Diane Keaton é um estouro como a freira que criou o papa órfão e o moldou a ferro e fogo para o seu grande destino.

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4. The Crown – A Segunda Temporada

(Netflix)

Fiquei louca pela primeira temporada de The Crown, no ano passado, e já estava preparada para algum desapontamento com a segunda temporada, porque como seria possível continuar na mesma toada? Pois Peter Morgan, criador da série, prova que até aquilo que é superlativo pode ficar ainda mais impressionante: um virtuose do roteiro, Morgan troca o retrato da jovem Elizabeth II pelo painel de um século em mutação na virada dos anos 50 para os 60, e alcança um resultado fantástico. Fica melhor ainda quando se vê pela segunda vez e presta-se atenção aos mínimos detalhes dos diálogos, das imagens que citam outras, os paralelismos entre tramas que aparentemente não estão ligadas. Agora, Morgan se propõe um desafio ainda maior para a terceira temporada: ajudar a grande Olivia Colman a entrar no papel que Claire Foy, que parece entender Elizabeth pelo avesso e pelo direito, tornou completamente seu.

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5. Narcos – A Terceira Temporada

(Netflix)

A segunda temporada da série criada por José Padilha terminou com a morte de Pablo Escobar (Wagner Moura), e deixou dúvidas honestas sobre a temporada seguinte: como se reorganizar da perda de um personagem central, e tão carismático? Narcos resolveu a questão da única maneira sensata: com um roteiro excelente, que estende para o território da venalidade política a sua autópsia da fragilidade da maior parte dos países latino-americanos frente ao assédio incessante do populismo, da corrupção, do crime (que se organiza com agilidade infinitamente superior à das instituições) e das muitas outras mazelas típicas do continente. Agora o agente da DEA Javier Peña (Pedro Pascal), um personagem cada vez mais intenso e complicado, se bate com os “cavalheiros” do cartel de Cáli e a influência que eles exercem no governo. No meio do quiproquó, tem-se o número 2 da segurança do cartel, Jorge Salcedo (o ótimo Matias Varela), um homem bom que deu um mau passo. A direção fluente e fluida se vale do realismo para realçar o surreal. Resultado: a melhor das três temporadas de Narcos até aqui.

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6. Big Little Lies

(HBO)

Tem jeito de novela: na ultra-exclusiva Monterey, no norte da Califórnia, Reese Witherspoon, Nicole Kidman, Shailene Woodley, Laura Dern e Zoë Kravitz são mulheres que têm tempo e dinheiro de sobra, mas vivem infelizes ou furiosas em período integral. A direção de Jean-Marc Valée (de Clube de Compras Dallas e Livre) e o roteiro de David E. Kelley (de Ally McBeal, Chicago Hope e Boston Legal), porém, dão sensação de vertigem a essa história de rivalidades e insatisfações tão profundas que levam a um assassinato na festa beneficente da escola primária (de quem? Como? Por quê? O espectador não sabe). Os personagens secundários estão dando seus depoimentos à polícia; nenhum dos protagonistas – vividos pelas atrizes citadas acima, mais Alexander Skarsgard e Adam Scott – é visto dando seu testemunho. Ou seja, são todos candidatos a vítima ou suspeito(a). Big Little Lies parte de um material que facilmente se presta ao melodramático e ao vulgar, mas tira dele algo maravilhoso: um mergulho naquele íntimo que cada personagem esconde até (ou primeiramente) de si mesma.

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7. Ozark

(Netflix)

Não é toda série que se dispõe a ir tão longe nas consequências de uma decisão infelicíssima – a que o protagonista Marty Byrde, consultor financeiro com um pequeno escritório em Chicago, tomou dez anos antes, de aceitar lavar dinheiro para um cartel mexicano de drogas. Interpretado com bravura e compromisso férreo por Jason Bateman, Marty é um pai de família que achou que poderia manter os dois lados da sua vida separados, mas agora tem de enfrentar a trombada de frente deles: com um barril de ácido já à espera do seu cadáver (mesmo), Marty convence o cartel de que pode lavar dinheiro com mais presteza, e mais longe da lei, em Lago das Ozarks, no Missouri – e assim Marty, sua mulher (Laura Linney), a filha adolescente e o filho garoto (Skylar Gaertner, maravilhoso) pegam o que podem e se mudam no mesmo dia para o interior profundo, onde o horror que eles levam vai se espraiando mais e mais pelo ciclo natural de ignorância, violência, alcoolismo e miséria da região. Não há dúvida de que Ozark está se candidatando à vaga deixada aberta por Breaking Bad. Por mim, já ganhou o emprego.

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8. Nobel

(Netflix)

No Afeganistão, um soldado das Forças Especiais norueguesas se envolve num incidente que parece isolado – mas cujas ramificações o perseguem de maneiras imprevistas durante uma licença com a família em Oslo. Com ótimos roteiro e desenvolvimento de personagens, direção tensa mas muito direta e sem floreios desnecessários, e sobretudo com o magnífico Aksel Hennie no papel principal, esta criação do experiente Per-Olav Sorensen oferece uma história completa em oito episódios, e é de longe a melhor produção estrangeira encampada pela Netflix até aqui.

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9. Alias Grace

(Netflix)

O ano de 2017 não ofereceu desempenho feminino mais hábil, original e atordoante que o de Sarah Gadon nesta minissérie que trata de um caso célebre da crônica policial canadense: de como, em 1843, a empregada doméstica Grace Marks, então com 16 anos de idade, virou figura notória ao ser presa pelo assassinato de seu patrão, Thomas Kinnear, e possivelmente também da governanta dele (que estava grávida de Kinnear). O caso provocou furor: os assassinatos vinham cercados de sugestões sexuais, e Grace era muito jovem e muito bonita, com um ar inocente que atiçava a imaginação. O livro da escritora Margaret Atwood e também a série baseada nele introduzem um elemento ficcional para investigar a personagem real: um médico (Edward Holcroft) passa vários dias entrevistando Grace – presa já há quinze anos –, com o intuito de confirmar a inocência dela. Serena, composta, recatada, Grace conta sua versão dos fatos para o médico, provocando-o com sua deferência e também com sua ardileza: como ele pode saber se o que ela diz é verdade? Uma série pequena porém perfeita.

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10. The Deuce

(HBO)

Parceiros na magnífica The Wire, o escritor George Pelecanos e o produtor David Simon deitam e rolam com este painel quase aleatório, de tão aberto, da nascente indústria do sexo na Rua 42 de Nova York e suas imediações, no começo da década de 70. Um barman e seu gêmeo trapaceiro (ambos interpretados por James Franco, bem menos irritante que o normal), prostitutas e cafetões, diretores e comerciantes de filmes pornográficos, mafiosos de olho aberto para as oportunidades, policiais corruptos e honestos e uma prostituta que insiste em trabalhar sem cafetão (Maggie Gyllenhaal) vão compondo sem pressa, mas com grande minúcia e veracidade, o retrato de como algo que está “no ar” repentinamente ganha forma e se torna uma força propulsiva. Espectadores fluentes em inglês vão aproveitar mais o programa, já que não há maneira possível de as legendas fazerem justiça à riqueza de tonalidades dos diálogos.

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