A volta de “Stranger Things”

Segunda temporada é um funil de mistérios que vai tragando o espectador

Não é surpresa que Stranger Things venha lá no alto da lista de preferências dos supermaratonistas da Netflix – gente que devora uma temporada inédita de série nas primeiras 24 horas após o lançamento. Esse é o efeito calculado pelos criadores, os gêmeos Matt e Ross Duffer: o de ir puxando o espectador cada vez mais fundo para dentro dos mistérios que se desenrolam na fictícia cidade de Hawkins, Indiana. De tal modo que, no final de cada capítulo, a pessoa sente que precisa ver o próximo, pois ali pode estar a chave que ela quer encontrar. E assim por diante, até que se chega ao nono e último episódio e aí vem aquele banzo: agora não há remédio senão esperar mais um ano. Se Stranger Things pudesse ser descrita por um diagrama, eu diria que ela tem a forma de um funil. A história vai se avolumando à medida que as paredes do funil se estreitam, até conduzir ao gargalo e daí desaguar em um novo recipiente – um setup diferente na temporada seguinte. Moldar uma trama a esse tipo de fluxo é uma arte que os Duffer dominam. Mas o afunilamento tem um inconveniente: como começa-se com um cenário muito aberto, demorei a pegar o pé ao cair no episódio inicial da segunda temporada, que está a partir de hoje, na íntegra, na Netflix. Da mesma forma que na temporada anterior, porém, as coisas subitamente ganham volume e aceleração no quarto episódio.

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Um ano depois dos eventos da temporada inicial, Will (Noah Schnapp), o garoto que sumira no mundo de Cabeça para Baixo, está de volta à escola e à convivência com os amigos Mike (Finn Wolfhard), Dustin (Gaten  Matarazzo) e Lucas (Caleb McLaughlin). Mas continua a ser motivo de angústia para eles e para sua mãe, Joyce (Winona Ryder): Will está retraído e inseguro; tem “ausências”, e vê coisas que talvez sejam memórias do universo paralelo, talvez sejam alucinações – ou talvez signifiquem algo diverso. À sua maneira, também Mike está se sentindo isolado; conta os dias (literalmente conta-os) desde que viu Eleven (Millie Bobby Brown) pela última vez. E, sem que ele saiba, também Eleven está furiosa por ser mantida longe dele.

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Eleven furiosa é um perigo; e Will nas mãos do cientista que substituiu Papa (Matthew Modine) no Laboratório de Energia de Hawkins é outro perigo. O Dr. Owens (Paul Reiser) ou não enxerga as novas anomalias que se manifestam na cidade, ou está escondendo informações cruciais de pessoas que deveriam tê-las – como o xerife Hopper (David Harbour, de novo um ponto alto do elenco). Dois novos personagens acrescentam à instabilidade: a garota Max (Sadie Sink), por quem Dustin está de queixo caído, e o irmão postiço dela (Dacre Montgomery), um arruaceiro e cafajeste que caiu na classe de Nancy (Natalia Dyer), Steve (Joe Keery) e Jonathan (Charlie Heaton).

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Se na primeira temporada Stranger Things seguia a linha de clássicos como Conta Comigo, Os Goonies, Contatos Imediatos do Terceiro Grau etc., agora os irmãos Duffer a encaminham para uma outra vertente da década de 80: as adaptações de terror de Stephen King e as distopias de John Carpenter (que continua a ser reverentemente homenageado na trilha sonora). Algo pesado está prestes a irromper em Hawkins – algo vindo do próprio solo, dos céus ou, possivelmente, de todos os lugares ao mesmo tempo. Os Duffer replicam a atmosfera de presságio na própria narrativa: aumentam a proporção de cenários escuros e fechados, intensificam a tensão com cortes abruptos e movimentos de câmera desorientadores, e dão uma coloração mais sombria à trilha sonora (que continua viciante). Tenho certeza de que eles devem ter vários trunfos na manga para a terceira temporada, mas gosto assim, quando os showrunners dão a sensação de que estão pondo tudo na mesa sem economizar em nada, como se o mundo fosse acabar ali. O que, quem sabe, uma hora dessas pode até acontecer mesmo (mas só em Stranger Things, espera-se).

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