“O Acampamento”: Quando coisas horríveis acontecem

Por que os cineastas da ordeira Austrália têm fixação com eventos e personagens violentos


Desde o primeiro Mad Max, de 1981, ficou patente: as erupções de violência são o tema por excelência do cinema australiano. Um país pacífico e muito igualitário, com ótimos indicadores sociais e 24 milhões de habitantes concentrados em alguns pontos – geralmente perto da costa – de um território árido de dimensões continentais, a Austrália é tida como um dos melhores lugares do mundo nos quais viver. Resiliência e senso de perspectiva não são quantificados nesse tipo de pesquisa. Mas, se fossem, os australianos continuariam a se sair muito bem na cotação: são talvez os únicos cujo maior feriado nacional, o Anzac Day, celebra não uma vitória, mas sim uma derrota militar (a de Gallipoli, na I Guerra Mundial). Entretanto, se a única maneira de conhecer a Austrália fosse pelo seu cinema e sua televisão (que, aliás, tendem a ser muito bons), teria-se a impressão de que ela é um dos lugares mais imprevisíveis e perigosos da Terra. Em todos os quatro Mad Max, no faroeste A Proposta, no policial Reino Animal, no suspense The Rover, na série Underbelly e numa infinidade de outros títulos vindos da Austrália, a vida é uma barbaridade e uma selvageria – especialmente, embora não só, quando os personagens adentram o vasto e hostil interior que compõe quase a totalidade do país (cenários pós-apocalípticos são também uma constante no cinema australiano, até porque as locações já estão ali, prontas, sem necessidade de adereço). Coisas terríveis acontecem até no efusivo Priscilla, a Rainha do Deserto. Em O Acampamento, que entrou em cartaz aqui nestes dias, elas são mais do que terríveis: são hediondas.

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O Acampamento é uma homenagem do diretor Damien Power a um tipo de exploitation que foi muito forte no cinema americano dos anos 70, em filmes como O Massacre da Serra Elétrica, e que nunca parou de florescer no próprio cinema australiano: viajantes incautos se aventuram por lugares ermos e trombam com caipiras sádicos, que torturam de forma medonha os inocentes antes de matá-los. Aqui, um casal jovem vai acampar na beira de um riacho na floresta e embatuca com o fato de que os ocupantes da única outra barraca montada ali não dão as caras. Completamente sozinhos no meio do nada, eles cismam com alguns barulhos na noite, mas creem se tratar de animais. Estão com uma pontinha de apreensão, mas acham que talvez ela se deva só ao isolamento mesmo; são gente da cidade, não muito acostumada à vida na natureza. O espectador tem mais motivos para se preocupar: a ele, o diretor mostra algumas cenas dos campistas sumidos – um casal bem mais habituado a trilhas no mato, com uma filha adolescente que não está gostando nada do programa (o pai explica a ela que o local foi palco de um massacre de aborígenes por parte dos colonizadores) e um bebê que está aprendendo a andar. A certa altura, as duas histórias se encontram, e o filme vira coisa para quem tem bons nervos e estômago resistente. Mas ressalte-se, é muito bem filmado e totalmente comprometido com a sua premissa.

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Sempre achei curiosa essa fixação do cinema australiano com os enredos pós-apocalípticos e/ou de selvageria. Quando Mad Max – Estrada da Fúria foi lançado, há dois anos, tive a oportunidade de conversar com o diretor George Miller, e ele me ofereceu sua teoria: a natureza da Austrália é tão adversa e inimiga que, exceto para os aborígenes que vivem ali há milhares de anos, ela nunca pareceu sequer domável, quanto mais domesticável, e essa volatilidade está já na essência da imaginação australiana. Segundo, disse Miller, trata-se de um país pacífico mesmo, e por isso os eventuais episódios de violência chocam muito e calam fundo – porque são proporcionalmente raros e porque lembram os australianos da brutalidade que eles talvez ainda guardem de seu passado violento como nação, com o transporte de criminosos da Inglaterra para lá, com a arrepiante truculência do Exército contra os degredados e com uma extensa mortandade de aborígenes. Fui ler The Fatal Shore (A Costa Fatal), de Robert Hughes, uma história do nascimento da Austrália, e fiquei de cabelos em pé. George Miller tem razão; com uma herança dessas, é difícil ser tranquilo.


Trailer


O ACAMPAMENTO
(The Killing Ground)
Austrália, 2016
Direção: Damien Power
Comm Harriet Dyer, Ian Meadows, Aaron Pedersen, Tiarnie Coupland, Aaron Glenane, Mitzi Ruhlmann, Maya Stange, Stephen Hunter
Distribuição: Cineart

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