The Virgin Queen

Outra série sobre Elizabeth I? Nunca é demais

Hoje em dia, quando a gente quer se referir a alguém que ocupa um cargo ilustre, mas desprovido de poder, diz que fulano ou beltrana é uma “rainha da Inglaterra”. Pois quando a monarquia ainda apitava, dois dos mais influentes soberanos da longa história da monarquia inglesa foram mulheres: Elizabeth I, que ocupou o trono por quase 45 anos, de 1558 a 1603, e Vitória, que ficou por 64 anos, de 1837 a 1901. Das duas, a mais formidável é sem dúvida Elizabeth I, filha de Henrique VIII com sua segunda mulher, Ana Bolena (que viria a ser decapitada pelo marido aos três anos de casamento). Henrique tinha uma filha mais velha, Mary Tudor, de seu casamento com a espanhola Catarina de Aragão. Em circunstâncias normais, a sucessão seria clara: Mary nasceu primeiro, portanto seria a herdeira presumida do pai. Mas Henrique divorciou-se de Catarina, rompeu com a Igreja católica para poder fazê-lo, e tecnicamente tornou Mary filha ilegítima; Elizabeth é que passava a ser a pretendente ao trono. É evidente que, no momento em que o rei morreu, Mary e Elizabeth partiram para um salseiro que dividiu não só reino, mas toda a Europa. Bem, a história é longa e vale muito a pena vê-la em qualquer uma (ou todas) das suas várias versões para o cinema e a TV. Mas o fato é que Elizabeth foi coroada e, tirando o máximo proveito do legado do pai e provando-se uma rainha excepcional, lançou a Inglaterra em um florescimento econômico, cultural e social que só alcançaria paralelo justamente no reino de Vitória, bem mais adiante.

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Adoro a história de Elizabeth I e nunca perco a chance de vê-la em mais uma encarnação. Por exemplo, na minissérie The Virgin Queen (A Rainha Virgem), que é de 2005 mas só há pouco entrou na grade da Netflix. Produzida pela BBC, com a excelente Anne-Marie Duff no papel de Elizabeth e um elenco de primeiríssima, a série concentra o foco sobre a paixão complicada (e nunca consumada) entre a rainha e Robert Dudley, que ela tornou Conde de Leicester – e que é interpretado aqui por Tom Hardy, novinho de tudo. Mas a ideia não é ser um mero romance: é mostrar o processo brutal pelo qual um soberano tem de reprimir em si tudo que seja obstáculo a isso, à sua construção em soberano (aliás, é essa a tônica também da ótima The Crown, sobre a jovem Elizabeth II, uma rainha muito diferente da sua xará mas também ela formidável à sua maneira). O processo é duplamente massacrante, aqui, por se tratar de uma rainha no não muito igualitário século 16. Os próprios conselheiros de Elizabeth desacreditavam dela (eles logo perceberam seu engano) e queriam desesperadamente casá-la com algum príncipe europeu para se ver livre da “ditadura dos saiotes” – a expressão é do Duque de Norfolk, primo de Elizabeth que estava louco para se botar na linha de sucessão. Falando em saiotes, aliás, Elizabeth tinha um lado meio Jean-Paul Gaultier: quanto mais o tempo passava, mais excêntricos e extravagantes seus trajes foram ficando; uma maneira de mostrar não só a opulência e o poderio do reino, mas também de se afirmar como uma pessoa literalmente única, à parte e acima de todas as outras

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Curiosamente, há uma outra excelente série inglesa de 2005 sobre a rainha – Elizabeth I, esta uma produção da HBO e do Channel 4, com Helen Mirren e Jeremy Irons. Essa, por azar, não é fácil de achar por aqui. O que ela sublinha é a extraordinária habilidade política da Elizabeth já mais madura, sua personalidade fortíssima e e a maneira como ela manobrou as várias propostas de casamento para ir refazendo ou mantendo alianças e tensões políticas dentro da Europa (quanto mais forte a Inglaterra se tornava, mais pretendentes choviam, mesmo quando a rainha já estava bem passada da idade de ter herdeiros). Elizabeth usava muito bem também o fato de ser mulher (“o meu é o corpo frágil de uma mulher, mas o meu coração é o de um rei”, disse ela ao seu exército, na praia, enquanto aguardava uma invasão espanhola) e era ainda um gênio da retórica. Seus pronunciamentos à corte, inclusive os casuais, eram minuciosamente anotados. Ainda bem: é um deleite ouvir os seus jogos de palavras, cheios de inteligência aguda e humor espirituoso, no desempenho irresistível de Helen Mirren.

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Da mesma forma, apesar das suas distorções históricas desnecessárias, é um deleite ver Cate Blanchett no papel que a lançou, no longa Elizabeth, de 1997. Ou ainda ver Bette Davis em Meu Reino por um Amor, de 1939, com Errol Flynn no papel de Robert Devereux, o Conde de Essex, que virou seu jovem favorito quando ela já era velhusca (Essex era enteado do favorito anterior, Leicester – ou talvez filho ilegítimo dele). Seja a jovem Elizabeth, colocando em prática sob imenso risco sua visão inovadora do poder, seja a Elizabeth da idade avançada, batendo-se com o desgaste desse mesmo poder, não há rainha que convide a tanta releitura quando esta. Elizabeth foi uma força da natureza, e a melhor cabeça coroada com que seu pai, que tanto quis ter um filho homem, jamais poderia ter sonhado para sucedê-lo. (Mary, em compensação, era retrógrada e uma chatonilda.) Na interpretação de Anne-Marie Duff nos dois episódios de The Virgin Queen, a chama de Elizabeth arde forte. Quase queima a rainha – mas termina por temperá-la e deixá-la tão cortante e resistente quanto o aço.


THE VIRGIN QUEEN
Inglaterra, 2005
Com Anne-Marie Duff, Tom Hardy, Ian Hart, Kevin McKidd, Ewen Bremner, Sienna Guillory, Dexter Fletcher, Jason Watkins, Hans Matheson, Tara Fitzgerald, Ben Daniels, Ralph Ineson, Ulrich Thomsen, Joanne Whalley
Onde: na Netflix

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