Frantz

No desencanto da I Guerra Mundial, uma mentira que faz mais sentido que a verdade

Quando a França, a Inglaterra e a Rússia entraram em guerra contra a Alemanha e o Império Austro-Húngaro, em 1914, fizeram-no com um entusiasmo que logo se provaria não apenas ingênuo, mas desastroso. A “guerra para acabar com todas as guerras” acabou envolvendo 27 nações e, ao terminar com uma derrota humilhante e duramente punitiva para a Alemanha, deixou o terreno pronto para um conflito ainda mais globalizado, a II Guerra Mundial de 1939-1945. Causou um sofrimento quase sem paralelos: foi a primeira guerra tecnológica e industrializada em larga escala, e com emprego livre de armas químicas – e, em razão do impasse da tática de trincheiras, nas quais os soldados às vezes permaneciam anos a fio, foi também de um desgaste físico e psicológico enlouquecedor. Frantz, o novo filme do cineasta francês François Ozon (de trabalhos excelentes como Sob a Areia e Dentro da Casa), não mostra esse cenário, mas conta que o espectador esteja familiarizado com a crueldade dele e com o sentimento que ele provocou na geração tragada pela I Guerra Mundial – cansaço, desencanto e a sensação de que sua juventude lhe fora roubada inteira, de maneira irremediável.

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Numa pequena cidade alemã, em 1919, um ano após o término da guerra, Anna (Paula Beer) todos os dias põe flores no túmulo de Frantz, seu noivo morto no front. Anna mora com os pais de Frantz, Magda (Marie Gruber) e o doutor Hoffmeister (Ernst Stötzner), e a perda domina todos os aspectos da vida deles. Certo dia, Anna percebe que um estranho também tem frequentado o túmulo de Frantz: o jovem francês Adrien (Pierre Nieney), que se apresenta como amigo de Frantz dos velhos tempos em que este estudara em Paris. A cidadezinha se indigna que um francês tenha a empáfia de vir se colocar ali, entre alemães; o doutor Hoffmeister odeia a ideia de receber o inimigo como visita em sua casa – mas Anna e Magda, sequiosas por lembranças do morto, dobram essa resistência, e Adrien se torna companhia constante. Claro que essa não é a história toda: há um segredo decisivo no centro dela.

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Filmado em um preto e branco leitoso, Frantz às vezes ganha cores, justamente naqueles poucos momentos que recuperam a alegria de ser jovem e despreocupado e ter um horizonte à frente. Como no filme em que se baseia – Broken Lullaby, dirigido pelo alemão Ernst Lubitsch em 1932, nove anos depois de ele se radicar nos Estados Unidos –, Frantz ressalta os profundos laços comuns entre franceses e alemães: a paixão pela arte, a cultura, a música e o refinamento da civilização. Essa é a parte mais banal do seu saldo. A parte arrebatadora é a ideia de que, às vezes, quando os fatos são insensatos demais, uma mentira pode ser uma forma de remediar o horror e tentar restabelecer algum equilíbrio. O segredo de Frantz está à vista de todos os personagens, mas ninguém quer vê-lo – porque faria muito mais sentido se a mentira fosse a verdade, e esta nunca tivesse acontecido.


Trailer


FRANTZ
França/Alemanha, 2017
Direção: François Ozon
Com Paula Beer, Pierre Niney, Ernst Stötzner, Marie Gruber, Anton von Lucke, Johann von Bülow
Distribuição: Califórnia

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