Um Limite Entre Nós

O filme de Denzel está passando no cinema, mas é teatro


Situação difícil, esta. Teatro definitivamente não é a minha praia. Quando o pessoal do Casseta & Planeta zoou com aquela campanha “Vá ao teatro” lançando o slogan alternativo “Vá ao teatro, mas não me convide”, adotei na hora. Vá nessa, dou a maior força. Enquanto isso, fico vendo um filme. As coisas se complicam, porém, no caso de Um Limite Entre Nós: passa no cinema, concorreu ao Oscar, mas é teatro na alma e na carne. Mais: é aquele tipo de teatro em que o texto é tudo. Depois do primeiro estirão de meia hora de diálogos sem pausa para respirar entre uma fala e outra, não resta dúvida – o que você está vendo é, sem tirar nem pôr, a montagem da peça que Denzel Washington e Viola Davis estrelaram na Broadway em 2010, e pela qual ambos ganharam o Tony, o Oscar do teatro. Denzel, assumindo aqui também as funções de diretor, faz uma opção propositada pela encenação teatral. Usa as ambientações como os cenários de um palco, posiciona a câmera quase sempre como se ela estivesse no lugar da plateia, calibra as interpretações – particularmente a sua – para uma casa cheia e mantém o caudaloso texto original na íntegra. Enfim, você gosta de teatro? Prato cheio. Não gosta? Prepare-se para 139 minutos árduos. Com compensações, mas árduos.

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Mas há que se dizer: que senhor texto, e que vida e ferocidade no uso da palavra. Fences (“Cercas”) faz parte de um ciclo de dez peças do dramaturgo August Wilson (1945-2005) sobre a experiência de ser negro nos Estados Unidos em diferentes momentos do século 20. O momento, aqui, é 1956; na Filadélfia, o lixeiro Troy Maxson (Denzel) acaba de comprar uma briga com seus chefes: por que só os brancos é que dirigem o caminhão de lixo, e só os negros carregam os latões? No quintal de sua casa, acompanhado do amigo e também lixeiro Bono (Stephen Henderson) e da mulher, Rose (Viola), Troy embarca numa das enxurradas verbais que são o seu cerne: analfabeto, criado paupérrimo numa plantação do Sul, esportista frustrado (negros eram barrados das ligas de beisebol) e com um passado como ladrão que ele decidiu encerrar após uma passagem pela prisão, Troy chegou à meia-idade fervilhando em um caldo de descontentamento, raiva e amargura. A maneira como ela narra – e orna, e reinventa – sua vida pregressa e presente, fazendo-se em herói contraditório dessa narrativa, é uma afirmação da sua identidade e também uma declaração de guerra contra ela.

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Quando encontra Lion (Russell Hornsby), seu filho trintão, fruto de um relacionamento anterior, Troy não perde a oportunidade de humilhá-lo. Lion é músico, não quer saber de trabalho fixo e depende do emprego da mulher (assim como de ocasionais empréstimos de Rose) – e Troy o demole por não ter a coragem de ser infeliz como ele e cumprir meticulosamente suas obrigações de pai e marido. Cory (Jovan Adepo), o filho adolescente que Troy teve com Rose, herdou do pai a aptidão atlética, e tem chances de conseguir uma bolsa de estudos para a faculdade se persistir no futebol americano. Troy ridiculariza Cory pela ingenuidade e faz de tudo para impedir seus planos: na sua ambivalência constante, Troy quer poupar os filhos das decepções reservadas a um homem negro e, ao mesmo tempo, quer que eles compartilhem com ele dessas decepções; quer que eles sejam melhores do que ele foi, mas não suporta a ideia de que eles sejam o que ele nunca pôde ser.

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Aos poucos, porém, o eixo da trama se vai deslocando para Rose, a esposa abnegada, que dedicou cada dia dos últimos dezessete anos ao marido, e que preferiu enxergar sua vitalidade a deixar-se atingir por sua crueldade. E, à interpretação impetuosa e enérgica de Denzel, Viola se opõe com uma atuação de meios-tons, quase quieta – de forma que, quando uma traição de Troy leva Rose a irromper também ela em amargura, o efeito é devastador. Viola ganhou um merecedíssimo Oscar pelo desempenho, no domingo passado. É para a câmera que ela interpreta, e não para uma plateia hipotética. Quando é nela que a cena se concentra, algo fabuloso acontece: Um Limite Entre Nós vira cinema.


Trailer


UM LIMITE ENTRE NÓS
(Fences)
Estados Unidos, 2016
Direção: Denzel Washington
Com Denzel Washington, Viola Davis, Stephen Henderson, Russell Hornsby, Jovan Adepo, Mykelti Williamson, Saniyya Sidney
Distribuição: Paramount

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