Filmes x Séries

E o Oscar 2017 vai mesmo é para… a TV


Na Folha de S.Paulo de ontem, o colunista João Pereira Coutinho – uma das minhas leituras semanais favoritas – argumentava que o último grande filme, grande de verdade, a ganhar um Oscar, foi Os Imperdoáveis, premiado em 1993. E que, ao mesmo tempo em que os eleitos pelo Oscar iam se provando destinados à irrelevância, os premiados pelo Emmy demonstravam ser fatos duradouros da cultura contemporânea (ele cita Família Soprano, The West Wing e Seinfeld, e poderia citar muitas outras séries ainda). Eu não iria tão longe quanto Coutinho na primeira parte da argumentação: o cinema ainda é uma imensa fonte de prazer e de descoberta para mim, e não acredito que o potencial para “ficar” no futuro seja um critério decisivo ou indispensável para avaliar um filme. Ter algo a dizer ao presente já pode ser uma façanha e tanto. E, nesse sentido, Moonlight foi uma excelente escolha para o Oscar de melhor filme no quadro deste ano.

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Os Imperdoáveis

Mas a segunda parte da argumentação, a de que a TV abocanhou quase toda a grandiosidade dramática e a capacidade de mobilizar atenção e galvanizar opiniões que antes era privilégio do cinema – nisso Coutinho está coberto de razão. Digo mais: tem tanta coisa maravilhosa acontecendo na televisão que o Emmy não dá conta nem de indicar todas elas. Assim como o Oscar, ele fica ali, arranhando a superfície mais visível do que se produz. Mas, como se produz tanta coisa extraordinária, ele tem muita carne que morder. O que não é grandioso no Emmy é a premiação, cheia de categorias super específicas (“melhor performance de uma atriz em um filme para TV ou série limitada”) que nem de longe têm a força de algo cabal como “melhor atriz”, pura e simplesmente. O dia em que o Emmy reformatar suas categorias de maneira a torná-las mais diretas e definitivas, e der uma solenidade maior à ocasião – aí o Oscar que se cuide.

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Moonlight

De forma que passei a tarde da segunda-feira 27 de fevereiro escrevendo um balanço da premiação do Oscar em si e da condução magistral que o apresentador Jimmy Kimmel deu à festa (proponho que ele vire mestre-de-cerimônias vitalício) – um balanço, enfim, de tudo aquilo que a vexaminosa troca de envelopes ofuscou. Não publiquei o post; resolvi deixá-lo “descansar”, para refletir melhor. E aí, de noite, depois de escrever, fui ver os dois episódios finais da quinta e última temporada de Hell on Wheels, uma das séries que mais amei nestes últimos anos. Que coisa magnífica. Terminei a noite acachapada, arrasada e maravilhada. Fiquei até com dor na alma por ter que me separar de Cullen Bonnahon, o protagonista atormentado que Anson Mount interpreta com força visceral e com infinitas delicadezas. “Anson quem?”, você se pergunta. Pois é. As séries americanas (esta é da AMC) têm hoje uma tal fartura de talento à frente e atrás da câmera que um ator do qual você talvez nunca tenha ouvido falar é capaz de, entra dia sai dia, entregar um desempenho absolutamente memorável durante seis anos – e, na temporada final, elevar o jogo ao ponto em que, se ele estivesse competindo por este papel no Oscar 2017, não haveria quem pudesse se comparar a ele.

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Hell on Wheels

Digo isto porque está rolando a maior discussão a respeito de qual dos dois filmes que mediram forças no Oscar é que vai ser lembrado no futuro, se Moonlight ou se La La Land. Gosto de La La Land. Gosto muito de Moonlight. (E talvez goste até mais de Manchester à Beira-Mar, A Qualquer Custo e A Chegada, mas isso é outra história.) Se pressionada a fazer futurologia, eu diria que Moonlight talvez tenha vida mais longa. Mas, quanto à posteridade verdadeira, a possibilidade de permanecer vivo na cultura – aí não é dos ganhadores do Oscar dos últimos anos que a gente vai falar em uma, duas ou mais décadas. Pense bem: por mais que tenha sido excitante ou interessante assistir a Spotlight (2016), Birdman (2015), 12 Anos de Escravidão (2014), Argo (2013) ou O Artista (2012), eles ainda estão vívidos na sua memória? Quando o papo com seus amigos avança e vocês começam a elencar cenas antológicas, marcantes, aquelas de deixar a gente no chão, vocês pensam nesses filmes? (Ouso dizer que, dessa leva dos últimos cinco anos, talvez Argo é que curiosamente dure mais na lembrança – a elegância econômica da narrativa tem vantagens inegáveis.)

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La La Land

O mais provável é que a conversa saia do cinema e vá para a Batalha dos Bastardos de Game of Thrones, para aquele meio de temporada estupendo em que Rick teve de matar a sangue frio uma criança (zumbi, mas criança) em The Walking Dead, para o enregelante Gus Fring que Giancarlo Esposito interpretou em Breaking Bad, para o episódio em que, escondido da filha, Tony executa um inimigo em Família Soprano, para o pavor que você tinha do Stringer Bell vivido por Idris Elba em The Wire, para todas as vezes em que Battlestar Gallactica deu um nó na sua cabeça, para a empáfia de Hugh Laurie em House, para aquela primeira temporada assombrosa de True Detective, para a venalidade nua de Frank Underwood em House of Cards, para…

A lista não termina porque, da maneira como o jogo se armou, a TV hoje é a dona da bola e do campo quando se trata de almejar o definitivo, o revelador, o pioneiro, o transformador, o paradigmático, o empolgante. Não é que não haja séries medíocres, ou decepcionantes, Há, claro. Mas é surpreendente como é alta a proporção do que é bom. Aquilo que se encontrava em O Poderoso Chefão, em Laranja Mecânica, em Apocalypse Now, em Taxi Driver, em Bonnie e Clyde e, sim, em Os Imperdoáveis – hoje são maiores as chances de encontrar isso na TV do que no cinema.

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Hell on Wheels

Neste ano, como em todos os outros anos, adorei assistir aos indicados ao Oscar. Todos me trouxeram algo – uns mais, outros menos, mas em nenhum caso vê-los foi tempo perdido. Alguns filmes, vencedores ou não, continuam bem presentes comigo (dói até hoje pensar na cena em que Heath Ledger se despede de Jake Gyllenhaal em Brokeback Mountain, por exemplo). Mas, do que vi ultimamente, pressinto que vou lembrar mesmo é de Cullen Bohannon, parado na porta de uma taverna deserta (o momento da foto acima, episódio 12, temporada 5 de Hell on Wheels), com a bengala numa mão e o revólver na outra, pensando em como está sempre de volta ao mesmo ponto – a violência – e dizendo para Mei Fong: “Espere aqui”. Para viver esses momentos estrondosos na TV, é só esperar um pouquinho mesmo. Depois de um, sempre vem mais outro.

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