Aliados

Nem 50 Tons de Cinza consegue ser tão brega – ou tão sem pé nem cabeça


Se isso é química, eu faltei às aulas: Brad Pitt e Marion Cotillard, lindos, se encontram pela primeira vez no ambiente exótico de um nightclub em Casablanca, no Marrocos – e não acontece nadica de nada. Nem uma faisquinha que seja. E, apesar das muitas cenas lânguidas de sedução e paixão, é assim, nessa modorra, que vai ser até o fim de Aliados, o filme que, se vier a ser lembrado (duvido), o será unicamente por ser o suposto pivô da separação de Brad e Angelina Jolie. Com base nas evidências apresentadas na tela, fica difícil acreditar que tenha rolado romance entre Brad e Marion. Aliás, fica difícil acreditar em qualquer coisa: é um pavor de ruim a história (está no trailer, mas se você acha que trailer é spoiler…) do espião militar que tem de se passar por marido da agente da Resistência francesa – e se casa de fato com ela, e então é confrontado com a notícia de que ela na verdade é espiã nazista, e recebe a ordem de executá-la. Ó céus, e agora?

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Aliados não tem pé nem cabeça. Mas talvez não fosse tão indigesto se (entre muitas outras coisas) não tentasse tão desavergonhadamente se passar por um novo Casablanca. Até parece que Casablanca é o que é por causa de locações lindas, ou dos figurinos chiquérrimos de Ingrid Bergman, ou do queixo másculo de Humphrey Bogart (que, na verdade, nem muito queixo tinha). Feito em 1942, durante o esforço de guerra, com recursos muito modestos (uma limitação que o grande diretor de fotografia Arthur Edeson, de Sem Novidade no Front, contornava com brilhantismo), Casablanca não tinha nada disso. É o que é porque tem um roteiro estupendo e diálogos memoráveis (tudo escrito às pressas, mas com que inspiração!). E a direção inteligentíssima de Michael Curtiz. E coadjuvantes inesquecíveis, como Claude Rains. E um par central que, esse sim, era uma usina termoelétrica. E porque era tão apropriado ao momento, tão embebido naquela combinação paradoxal de cinismo e romantismo da II Guerra Mundial, que estava mesmo destinado a transcender seu tempo.

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Aliados, em contraste, é um exemplo apenas de como fazer o filme errado para um tempo que nunca sentiu falta dele, e de como desperdiçar recursos em adereços. O inglês Steven Knight é um roteirista de primeiríssima linha, como pode atestar quem viu filmes como Senhores do Crime, Circuito Fechado e Locke ou séries como Peaky Blinders. Aqui, porém, deve ter passado o trabalho para o mesmo estagiário que contratou para escrever Redenção (aquele em que Jason Statham se apaixona por uma freirinha polonesa) e O Sétimo Filho (esse nem vou comentar. Não saberia por onde começar). Robert Zemeckis é um diretor de muito respeito (De Volta para o Futuro! Forrest Gump! Náufrago!). Mas, se tivesse começado a carreira por Aliados, ninguém o teria deixado fazer esses filmes: a cena em que Brad e Marion transam no carro, em meio a uma tempestade de areia no deserto? Nem 50 Tons de Cinza consegue ser tão brega. A cena em que eles fuzilam um monte de nazistas numa festa? Alguém viu Bastardos Inglórios e não entendeu nada (Brad, aliás, fala francês com aquele mesmo sotaque estropiado de Bastardos, mas o roteiro faz com que todos os personagens, franceses inclusive, acreditem que ele é parisiense). O par da discórdia bate o último prego na tampa do caixão: nunca vi Brad Pitt tão canastrão, nem Marion Cotillard tão desafinada (na primeira metade do filme) nem tão apática (na segunda metade). Para os que se interessam pelo assunto, é o caso de procurar outra explicação para o fim de Brangelina. Porque isto aqui não há de ser o motivo.


Trailer


ALIADOS
(Allied)
Estados Unidos/Inglaterra, 2016
Direção: Robert Zemeckis
Com Brad Pitt, Marion Cotillard, August Diehl, Jared Harris, Lizzy Caplan, Simon McBurney, Matthew Goode
Distribuição: Paramount

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