Sete Minutos Depois da Meia-Noite

Lenços não vão resolver. Leve um balde mesmo

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Existem pelo menos duas maneiras de chorar no cinema. Uma é, digamos, fisiológica, quando os seus sentimentos são manipulados de tal forma que evitar as lágrimas seria a mesma coisa que tentar segurar um espirro; os seus ductos lacrimais precisam entrar em atividade quer você queira quer não, e pronto. A outra maneira, bem mais recompensadora, é quando o roteirista, o diretor e os atores trabalham de maneira honesta e íntegra para merecer o seu choro. É o que fazem o autor Patrick Ness, o diretor J.A. Bayona e o muito jovem e muito notável ator escocês Lewis MacDougall em Sete Minutos Depois da Meia-Noite.

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MacDougall, que tinha 13 anos quando o filme foi rodado, é Conor, um menino que está atravessando um ano de chumbo. Conor não tem amigos; os únicos garotos com quem ele têm alguma convivência na escola são os valentões que o espancam regularmente depois da aula. Não tem pai; ele se mudou para Los Angeles e formou uma nova família. Conor mora sozinho com a mãe (Felicity Jones) no cinzento norte da Inglaterra. E também sua mãe está prestes a se ir, levada por um câncer avassalador. Conor acredita quando ela diz que vai melhorar. Ao mesmo tempo, sabe no íntimo que isso não vai acontecer. Cuidando da casa como se fosse ele o adulto e refugiando-se nos seus desenhos, temendo o dia em que vai ficar a cargo da avó que não tem grande afeto por ele (Sigourney Weaver), Conor olha sempre da janela do seu quarto para o cemitério antigo que fica mais à frente, e para o teixo muito velho que é a única árvore do descampado. Mesmo dormindo, ele não escapa desse presságio  – em um sonho recorrente, a terra do cemitério se abre e engole a sua mãe. Tão perdido está Conor nesse pesadelo da perda que sua imaginação toma a dianteira: nela, o teixo ganha vida como um monstro colossal, que surge sempre depois da meia-noite para contar uma nova fábula e exigir que, em troca, ele fale do sonho que o atormenta.

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O catalão J.A. Bayona é um exímio diretor de crianças. Estreou com O Orfanato e, em O Impossível (leia aqui a resenha), que está disponível na Netflix, revelou outro jovem ator de muito talento – Tom Holland, que desde o ano passado é o novo Homem-Aranha. MacDougall, porém, tem uma tarefa muito mais pesada a cumprir do que Holland: tem de levar Sete Minutos quase sozinho. Mas que beleza a maneira como ele se desincumbe da missão, esquadrinhando o processo tão complicado de ser obrigado a amadurecer e resistir ao amadurecimento, e de sofrer com a doença da mãe e ao mesmo tempo se ressentir dela. A árvore monstruosa, que tem a voz grave de Liam Neeson, é evidentemente tudo aquilo de que Conor mais tem medo: os seus próprios sentimentos. Ainda que o filme às vezes demore a seguir adiante, e que a concepção da árvore tenha me decepcionado um tantinho, por vir de quem veio – Eugenio Caballero, que trabalhou com Guillermo del Toro em O Labirinto do Fauno, no qual outra criança tem de elaborar questões complexas por meio da fantasia –, é preciso frisar que Bayona acertou no crucial. Achou em MacDougall, de físico frágil e olhos tempestuosos, um grande ator adolescente. Que, como Holland ou como Christian Bale (que fez Império do Sol nessa mesma idade), talvez prossiga sendo grande também quando mais velho. Uma coisa, ao menos, os três têm em comum: partiram meu coração e me fizeram chorar aguaceiros – mas com gratidão, e sem manipulação.


Trailer


SETE MINUTOS DEPOIS DA MEIA-NOITE
(A Monster Calls)
Estados Unidos/Espanha, 2016
Direção: J.A. Bayona
Com Lewis MacDougall, Felicity Jones, Sigourney Weaver, Toby Kebbel e a voz de Liam Neesom
Distribuição: Diamond

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