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Doutor Estranho

Cuidado: pode causar surtos repentinos de alegria e até euforia


Veja aqui a vídeo-resenha.


Entre as muitas cenas de Doutor Estranho capazes de causar surtos de alegria, há uma que é uma joia: a doutora Christine (Rachel McAdams) tem de ressuscitar, sozinha na sala cirúrgica, um paciente em parada cardíaca. Só que o paciente tem a habilidade incomum de separar seu corpo astral de seu corpo físico e, enquanto Christine lida afobada com o desfibrilador, a projeção astral do paciente aproveita para se engalfinhar numa briga de bar com a projeção astral de um vilão. Rola sopapo esotérico para todo lado, alguns tão violentos que dão trancos na desesperada Christine, ou fazem soprar o cabelo dela, ou chacoalhar os equipamentos. Eu não sabia o que fazer primeiro, se roer as unhas ou gargalhar – e descobri que fazer as duas coisas ao mesmo tempo pode não ser fácil, mas é muito compensador. Essa junção de imaginação, ação, efeito, tensão, pastelão e até romance (a ressurreição do paciente é um legítimo gesto de amor por parte de Christine) é dosada com tanta felicidade, e resulta tão embriagante, que só por uma sequência assim um filme já justificaria sua existência.

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Doutor Estranho, porém, tem muito a justificá-lo: Benedict Cumberbatch é um ator frequentemente muito inspirado, mas aqui tem mais espaço para brincar até do que em Sherlock Holmes – e ele o aproveita todo, e tira o sumo de cada cena e cada diálogo (o mesmo, aliás, vale para o restante do elenco). Tilda Swinton, esse ser vindo de alguma galáxia ofuscante, me deixou de joelhos como a Anciã (e não venham me dizer que é absurdo trocar um velhinho oriental por uma escocesa de meia-idade, porque absurdo seria não poder trocar o previsível pelo inesperado). O vilão Kaecelius é assim-assim, mas como quem o interpreta é Mads Mikkelsen vou fingir que não percebi; em Mads eu perdoo tudo. E esse clima viajandão é uma delícia: até os personagens parecem meio intoxicados com as coisas lisérgicas que são capazes de fazer (Londres girando como um cubo mágico, e dobrando-se sobre si mesma? Só assim Londres fica melhor do que já é). Nota 10, então, para Scott Derrickson, que faz aqui uma das transições mais elegantes que já vi, do terror de O Exorcismo de Emily Rose e Livrai-nos do Mal para o lado reverso do universo Marvel.

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Quer mais? Dentro de Derrickson, aparentemente, vivem também Moe, Larry e Curly, mais o Gordo e o Magro e a trupe inteira do Monty Python. A cena em que a Capa da Levitação escolhe Estranho como seu novo mestre? Brilhante. E ainda não acabou. Há um momento de beleza verdadeira, no qual a Anciã contempla o mundo e constata que qualquer vida, por mais longa que seja, é sempre muito curta (Tilda consegue transformar qualquer lugar-comum em revelação). Cuidado: se você não estiver preparado para sair de uma sessão de cinema em um estado inebriado, ou até eufórico, passe longe de Doutor Estranho.

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19 comentários em “Doutor Estranho”

  1. Eu esperava mais do filme. Tem momentos deslumbrantes, o elenco é excelente, mas a Marvel não tem jeito. Sempre que eu estava “pirando” na história, me importando com os personagens, vinha uma piadinha sem graça pra me tirar do filme. Acho que a única vez que eu ri foi na cena pós créditos que, vim a saber depois, foi dirigida pelo diretor do vindouro filme do Thor.
    Não foi um dinheiro jogado fora, pelo contrário, mas fica a sensação de que podia ser muito melhor.

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    1. ai ai… gente, cuidado com os comentários, senão a Isabela pode contratar um mago e transformar você num sapo…

      …ou então ela vai num terreiro, pedir pro pai de santo escrever o seu nome num papel e guardar dentro da boca de um sapo, leva o bichinho pruma encruzilhada e larga o ebó num despacho junto com uma galinha preta, um prato de farofa, uma garrafa de cachaça e 4 velas vermelhas…

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  2. Filme bem bacana.
    Quem é fã sabe que o filme retrata fielmente o Doutor Estranho que estreava em Strange Tales #110, em 1963: um homem de caráter duvidoso que precisou se redimir com a responsabilidade de grandes poderes. O filme é isso, com as excelentes atuações de Benedict Cumberbatch e Tilda Swinton.

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  3. Assisti ontem e confirmei que Benedict Cumberbatch e Tilda Swinton carregam o filme nas costas, fora isso, achei o filme bem mais ou menos. Com certeza não é isso tudo que a critica tenta vender.

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    1. Não entendo a chatice dessa gente com spoiler. Tá, pode haver críticas sem spoiler, mas se vc se importa tanto com isso, pq insistir na leitura de uma crítica que não faz menção alguma a existência ou não dele? Vc assumiu o risco.

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  4. Agora que a critica é positiva nenhum fã reclama dos críticos ( e reconhece isso), mas se fosse negativa, não faltam palavrões e teorias.
    Que bom que acertaram no filme. Quando vi o trailer filme bem empolgado (mais do que Esquadrão Suicida)

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  5. Excelente crítica Isabela, estou louca para assistir o filme. Não assistir o filme ainda, mas que estúdio promissor está sendo a Marvel, pegar super heróis de segundo e terceiro escalão e transformá-los em excelentes filmes.

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    1. Bem, é o dever de todo estúdio sempre fazer excelentes filmes. Principalmente quando o montante de dinheiro supera a casa dos 100 milhões de dólares, podendo ultrapassar 200 milhões de dólares numa animação.

      O que é ainda mais imperdoável é fazer um filme péssimo com super-heróis de primeiro escalão como os 4 Fantásticos. Ou pior, 3 filmes medíocres, torrando montanhas de dinheiro na casa das centenas de milhões de dólares.

      Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas ou Esparta, cujos maridos guerreiros já renderam 2 filmes maravilhosos, ainda que com roteiros cada um mais estúpido que o anterior.

      Deviam se mirar no exemplo de “Deadpool”, que custou “apenas” 60 milhões de dólares. “Filmamos usando somente o orçamento da cocaína dos outros filmes de super-heróis!” explicou didaticamente o astro Ryan Reynolds.

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