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Negócio das Arábias

Você precisa de um sujeito decente? Ainda não há quem se compare a Tom Hanks

Alan Clay, o protagonista de Negócio das Arábias, tem nas costas não só um casamento naufragado, como uma grande empresa falida – a tradicionalíssima indústria de bicicletas Schwinn, da qual ele era presidente e que vendeu para a China (o caso é verídico, embora o personagem seja fictício). Centenas de pessoas perderam o emprego por causa das decisões ruins de Clay; e ele perdeu a família, a casa, o dinheiro e o respeito por si próprio. Nas audiências de divórcio, a ex-mulher o humilha e esfola; quando ele liga para o pai, ele o desanca pelas burradas. Como ainda precisa dar um jeito de pagar a universidade da filha, Clay convence uma empresa de tecnologia de que é o sujeito certo para ir vender um revolucionário sistema holográfico de conferências para o rei da Arábia Saudita. Mas, sob o sol de 50 graus de Jedá, o negócio está patinando – o rei nunca dá as caras, a equipe de Clay está assando dentro de uma tenda no meio do deserto, ele perde a hora todos os dias, nada avança. Como um diretor que tem nas mãos um personagem tão resolutamente enrascado consegue convencer a plateia de que ela deve, desde o primeiro instante, depositar toda a sua confiança nele e torcer para que essa última chance funcione? A solução rápida e eficaz é a encontrada pelo cineasta alemão Tom Tykwer: escale Tom Hanks para o papel, ora.

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Não sei se ainda há por aí alguém que duvida do talento de Tom Hanks. Espero que não. Como James Stewart antes dele e Matt Damon depois dele, Hanks é um mestre em artes dificílimas: é um astro mas consegue ser autenticamente comum, e comunica a decência mais fundamental e completa sem parecer nem ingênuo, nem simples, nem inocente ou inexperiente. Apesar do seu otimismo (ou da sua aparência de otimismo), Alan Clay é um desesperado, e há poucas coisas no mundo menos convidativas do que esse cheiro particular que o desespero exala: ver um sujeito com um sorriso carimbado no rosto enquanto implora por uma chance, ou que acossa um cara que nem se dá ao trabalho de parar para ouvi-lo, ou que precisa caprichar na simpatia de vendedor para arrancar uma informação de uma recepcionista – em geral, a nota patética dessas situações se sobreporia a todo o resto. Mas Hanks faz essas coisas indignas com tanta dignidade, e com tanta leveza e graça, que não há como duvidar de que Alan Clay merece também ele uma graça – do tipo que cai do céu, no caso.

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Tom Tykwer estourou no final dos anos 90 com Corra, Lola, Corra (se você não viu, corra para ver) e nos anos seguintes fez outros filmes que eu adoro, como Paraíso e A Princesa e o Guerreiro. Ultimamente, deu para trabalhar com Lana e Andy (agora Lilly) Wachowski – o que não me parece uma escolha muito sensata –, co-dirigindo o incompreensível A Viagem (que tinha Hanks no elenco) e a série assim-assim Sense8. Negócio das Arábias é uma espécie de meio de caminho entre essas duas vertentes: tem aquele pano de fundo multicultural do trabalho dele com os Wachowski, mas não é viajandão, e sim de novo firmemente centrado num personagem. Quem leu o romance homônimo de Dave Eggers em que o filme se baseia reclama por o tom fatalista do texto ter sido transformado: o escritor faz uma espécie de autópsia do americano comum de classe média com o qual o fim do século XX não foi lá muito generoso, enquanto o diretor, embora não fuja totalmente do tema, está mais interessado na possibilidade de reinvenção que ele contém.

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O filme, é verdade, tem coisas que não são exatamente novas, como a sensação surreal do ocidental na Arábia Saudita, ou o motorista de táxi simpático (e Alexander Black corresponde à descrição) que vai servir de guia ao estrangeiro e franquear a ele o acesso a coisas que nenhum turista poderia ver de perto – inclusive a Meca, a cidade mais sagrada do Islã, na qual é proibida a entrada de não-muçulmanos. Mas o fato é que esses elementos, mesmo sem muita originalidade, funcionam. E Tykwer, além disso, está tão enamorado da atuação de Hanks e da maneira como os outros atores respondem a ele que se deixar carregar pelo elenco para lugares melhores do que os previstos no roteiro.

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Um dos perrengues que Alan Clay enfrenta durante sua estada na Arábia Saudita, por exemplo, é um estranho calombo nas costas – uma manifestação física dos fracassos que vêm lhe pesando nos ombros. Quando ele vai parar no hospital depois de uma tentativa de auto-cirurgia, é atendido por uma médica, uma raridade em um país tão rigorosamente muçulmano. A doutora Zahra, interpretada pela ótima Sarita Choudhury, tem uma melancolia e uma veia rebelde com as quais Clay imediatamente se identifica. O que poderia ser um romance forçado e meio constrangedor vira, com esses dois atores, uma aproximação tão tateante e cuidadosa, e tão cheia de frescor, que é difícil resistir a ela.

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Da mesma forma, a apresentação do sistema holográfico vira um momento de encanto: a demonstração que Hanks e Ben Whishaw (que Tykwer dirigiu em Perfume) fazem para o rei mais parece um número de mágica do que uma estratégia de venda, e a cena toda irradia deslumbramento com a ideia de que pessoas tão distantes no globo possam se sentir tão próximas. Por mais sentimental ou mesmo banal que a ideia soe, há algo na sinceridade de Tykwer e Hanks que faz com que, por um momento, ela pareça possível, e também inebriante.


Trailer


NEGÓCIO DAS ARÁBIAS
(A Hologram for the King)
Direção: Tom Tykwer
Inglaterra/França/Alemanha/Estados Unidos/México, 2016
Com Tom Hanks, Alexander Black, Sarita Choudhury, Sidse Babett Knudsen, Khalid Laith, Tracey Fairaway, Tom Skeritt, Ben Whishaw
Distribuição: Mares Filmes

23 comentários em “Negócio das Arábias”

      1. E Isabela, como você acha MR. robot, uma fanfic de clube da luta que me deu rios de vergonha alheia, decente mas sense8 assim-assim?
        você assistiu a mesma coisa que eu?
        :v

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  1. Eu não fico surpreso em constatar que Hollywood mais uma vez inverte a realidade e teima em apresentar o Islam como uma cultura bacana, linda e maravilhosa desde o centro, que é a Arábia Saudita, em vez de fazer um filme decente, mostrando aquele país como realmente é: um inferno onde em pleno século 21 ainda há escravos negros sendo CASTRADOS, onde a cada ano mais de 80 meninas estrangeiras são raptadas para serem escravizadas sexualmente pela casta governante de velhos pedófilos islâmicos e onde as mulheres não têm direito nem a um professor na sala de aula (por pressão dos EUA, os sauditas permitiram que elas frequentassem escolas, mas só as deixam assistir vídeos com as gravações das aulas dos estudantes homens).
    Enfim: Hollyweird só vende fantasia mesmo.

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  2. Isso sim é literatura de fantasia.

    “autópsia do americano comum de classe média com o qual o fim do século XX não foi lá muito generoso”

    Taí um morto que TODO MUNDO gostaria de ser.

    Principalmente no fim do século XX .

    Mais um capítulo da novela “Hollyweird e seus delírios alimentados por escritores fora da realidade.”

    Desde 1848, quando Karl Marx anunciou a crise final do capitalismo á beira da morte, o ópio dos intelectuais continua fazendo mais vítimas.

    Principalmente entre escritores americanos comuns de classe média que enriqueceram no fim do século XX.

    Enfim: mais outro caso de paralaxe cognitiva.
    Bastante comum entre pregadores do Apocalipse.

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  3. Isabela, não deixo ler suas resenhas ou assistir aos vídeos. Acho tb que Matt Damon foi exagero… Aquele sujeito tem muito que fazer para chegar a um Tom Hanks.

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  4. O filme é fraquíssimo sob o ponto de vista do roteiro (que atira para todos os lados) e sob o ponto de vista da direção (em pensar que ele fez o excelente Corra Lola). Apenas a dignidade de Hanks se salva ao longo das duas horas.

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  5. Tom Hanks é excepcional. Como a maioria dos bons atores de Hollywood, é do signo de cancêr : Tom Cruise, Meryl Streep, Harrison Ford, Kevin Bacon, Silvester Stalonne e mais alguns. O signo é o da sensibilidade que passa realismo e verdade para os personagens.

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  6. Isabela, grande texto. Durante anos Tom Hanks foi comparado a Cary Grant, mas sua comparação é perfeita, James Stewart é de fato o astro a ser comparado a Tom, a humanidade que ambos transmitem na tela é simplesmente perfeita.

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  7. Nesse filme Tom está um excelente personagem, mas Yousef, o motorista, é de longe o melhor personagem. Ele quebra logo de cara tão fortemente o estereótipo do árabe extremo que eu não esperava, e acabei me apegando ao (a) personagem. Senti falta de um desfecho dele, mas depois entendi que isso aconteceu em umas cenas antes do final. Passou pela minha cabeça que o Yousef estava chamando o Alan (Tom H.) para o ISIS, mas não, ele estava apenas fazendo uma ligação forte de amizade entre os dois. Eu lutaria pelo Yousef. E aceito de bom grado um filme solo dele.

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