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Hoje é um bom dia para ver (ou rever)… O Senhor das Armas

Um tremendo filme com Nicolas Cage – do tempo em que Cage fazia bons filmes

Nascido no Tadjiquistão, preso durante uma negociata na Tailândia, em 2008, extraditado para os Estados Unidos em 2010, julgado em 2011 e desde então cumprindo pena de 25 anos por terrorismo, o russo Viktor Bout ficou conhecido como “O Mercador da Morte”: com seu faro imbatível para o tráfico de armas, botou tanques, fuzis, lança-granadas e outros mimos nas mãos de boa parte dos maus elementos do planeta durante os anos 1990 e 2000. Em algumas guerras, chegou a suprir os dois lados – o que deve colocar lá pela casa dos milhões o número de mortes pelas quais ele tem responsabilidade indireta. Pois foi com a assessoria de Bout (além de armamentos emprestados por ele) que o diretor neozelandês Andrew Niccol fez este filmaço que está disponível no Netflix. Com o nome inventado de Yuri Orlov, Nicolas Cage entrega aqui um de seus desempenhos mais fascinantes: colorido, sim, como sempre, mas calibrado para abarcar uma infinidade de nuances. Bons tempos esses, em que Cage ainda não estava cheio de dívidas para pagar e não tinha se viciado em fazer filmes ruins.

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Leia a seguir a resenha que publiquei quando o filme foi lançado nos cinemas:


Tiro e queda

O Senhor das Armas mergulha fundo no negócio, sempre em expansão, de matar. E é ótimo cinema

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Na excepcional abertura de O Senhor das Armas, tem-se a oportunidade de conhecer uma vida estranha: a de uma bala de fuzil, desde seu nascimento do metal fundido, no Leste Europeu, até o momento em que ela estoura o crânio de um rapaz negro, num país africano qualquer. Existem cerca de 550 milhões de armas leves em circulação, ou uma para cada doze habitantes do planeta, explica a seguir o protagonista e narrador Yuri Orlov. A questão, emenda ele, é: como armar os outros onze? Interpretado com exuberância por Nicolas Cage, o personagem tem também ele uma vida estranha, que o filme acompanha com sofreguidão semelhante à de Os Bons Companheiros, de Martin Scorsese. Nascido na Ucrânia e criado na periferia nova-iorquina, Orlov tem uma epifania ao se ver no meio de um tiroteio entre mafiosos russos, nos anos 80. Com seu restaurante, explica ele, seus pais atendem a uma necessidade humana básica – a de comer. Seu próprio destino, porém, é atender a outra necessidade, tão básica quanto o alimento – a de matar. Orlov alicia então seu irmão caçula e enfia-se no negócio do tráfico de armas, começando por baixo (vendas de peças usadas, por quilo) e subindo ao topo graças aos arsenais deixados sem dono pelo desmantelamento da União Soviética.

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Os clientes de Orlov, claro, não são as polícias, os exércitos regulares e os cidadãos de ficha limpa, mas exatamente as pessoas que, armadas, fazem barbaridades: narcotraficantes, terroristas, genocidas e milicianos de ditadores infames. Vender para essa gente proprociona ao personagem um barato tão viciante quanto o da cocaína, e é por isso que O Senhor das Armas, escrito e dirigido pelo neozelandês Andrew Niccol (autor também de Gattaca e O Show de Truman), é o tipo mais eficiente de libelo: em vez de pregar ou admoestar, provoca partes iguais de repulsa e interesse por seu protagonista. Nada desvia Orlov de sua trajetória – nem o mal que faz a seu irmão, nem o perigo que corre em negociatas com ditadores como um assustador tirano liberiano. Preso pela Interpol, o traficante é libertado quase no minuto seguinte, graças a um telefonema vindo muito de cima. Sem ele, explica Orlov, de que forma as grandes potências poderiam levar armamentos às facções que apóiam às escondidas?

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Esse não é um filme feito a uma distância segura de seu tema. Os tanques que Orlov vende e o avião Antonov-12 que ele usa foram emprestados pelo ex-militar russo Viktor Bout, que nega ser (mas é) um dos principais traficantes de armas ilegais do mundo, com serviços prestados a grupos que guerreiam em Angola, Ruanda, Paquistão e na própria Libéria, entre muitos outros países. Foi Bout também quem vendeu os 3.000 rifles AK-47 usados na produção e depois revendidos – de forma legítima, espera Andrew Niccol, mas quem pode garantir? Magnificamente filmado, amparado em dados de boa procedência e dirigido com verve, além de um humor quase perverso, O Senhor das Armas abate a tiros qualquer resquício de inocência da plateia.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 12/10/2005
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2005

O SENHOR DAS ARMAS
(Lord of War)
Estados Unidos/Alemanha/França, 2005
Direção: Andrew Niccol
Com Nicolas Cage, Jared Leto, Ethan Hawke, Bridget Moynahan, Ian Holm, Donald Sutherland, Evgeniy Lazarev

5 comentários em “Hoje é um bom dia para ver (ou rever)… O Senhor das Armas”

  1. cara, não vou mentir: o que eu mais gosto mesmo em seus textos é esse seu “humor quase perverso” tipo… “Esse não é um filme feito a uma distância segura de seu tema.” como na foto bem ao lado, em que o safado recua o rosto de uma arma que um cliente aponta pra cara dele… ei, é impressão minha ou o brinquedo é feito de ouro?

    é esse tipo de diálogo entre texto e imagem que eu sempre faço em meus artigos ilustrados.

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