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Julieta

Almodóvar não perdeu só a mão. Ele se perdeu de si mesmo

Entra a música dramática, e a tela é inundada de vermelho. Mas, quando a câmera se afasta um pouco, vê-se que ela estava fechada, com muito esforço e um tanto de malabarismo, na altura da barriga de uma mulher, que está usando um vestido vermelhíssimo. Que coisa mais desajeitada – e é assim, já forçado e errado, que começa o novo filme de Pedro Almodóvar. Aliás, vamos trocar “novo” por “mais recente”: não há de novo aqui. Tudo é requentado ou reciclado de filmes melhores que o espanhol fez no passado. Em especial de Tudo Sobre Minha Mãe (1999) e de Fale com Ela (2002), a dobradinha que compõe o auge criativo de Almodóvar, e para a qual ele olha em busca de inspiração ou mesmo de identidade. Não que as encontre.

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Julieta (Emma Suárez), a mulher do vestido vermelho, está empacotando seus pertences. Vai deixar Madri e mudar-se com o namorado Lorenzo (o argentino Darío Grandinetti) para Portugal. Mas, nesse mesmo dia, topa na rua com uma velha conhecida, que lhe dá notícias da filha Atía, que há mais de uma década Julieta não vê. E, assim, repentinamente, ela decide cancelar a mudança: é preciso permanecer em Madri, porque Atía tem de saber onde encontrá-la se, um dia, quiser finalmente revê-la. A Lorenzo, Julieta simplesmente comunica o novo plano; nunca falou de Atía para ele. A filha é seu grande segredo.

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Mas por que ela haveria de ser um segredo? Há algo de vergonhoso no passado de Julieta? Algum tabu ronda o nascimento de Atía? Nada disso. Ela é um segredo porque o roteiro canhestro necessita que ela o seja: para que Almodóvar possa acrescentar uma nota melodramática (falsa) à história e para que, em um recurso que está muitos degraus abaixo daquilo que o cinema do diretor representava, Julieta narre a Atía todo o passado em uma carta. Não uma carta que ofereça uma revelação ou deflagre algum acontecimento, mas um verdadeiro relatório de atividades, tintim por tintim, de tudo (mas tudo mesmo) que aconteceu na vida dela desde a noite em que, em um trem, conheceu Xoan (Daniel Grao), o pai de Atía.

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O filme recomeça, assim, a partir dessa noite, com a exaustiva narração de Julieta – é a leitura da carta que se ouve – acompanhando toda a ação. Julieta, jovem, é interpretada por Adriana Ugarte, que é muito bonita e tem um tipo físico parecido com o de Emma Suárez, mas não é nem um terço da atriz que Emma é, além de ter uma vibração muito diferente. Como essas duas poderiam ser a mesma pessoa? Não poderiam. Por que Atía, que era tão unida à mãe, resolveu sumir da vida dela? Só Deus sabe: o evento que teoricamente estaria na raiz dessa ruptura se passou muitos anos antes do sumiço, e durante todo esse tempo Atía não deu sinal de algo estava diferente no seu relacionamento com Julieta. E por que Julieta sente tanta culpa por esse evento? Porque Julieta, o filme, é uma novela ruim e antiquada, em que culpa e segredos são impostos aos personagens por um autor desinspirado.

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Julieta, na verdade, é o fruto de uma escolha inadequada. Almodóvar adapta aqui três contos da canadense Alice Munro, uma criadora em tudo diversa dele. A especialidade de Munro, para começar, são as narrativas breves, em que o arco dramático, por ser mais curto, pode ser ser suportado por um pilar relativamente frágil – por exemplo, uma emoção súbita como a que Julieta vive naquela noite no trem. Almodóvar, ao contrário, sempre trabalhou no formato da narrativa longa, convoluta, plena de ramificações. Segundo, as coisas que em geral disparam transformações nos protagonistas de Munro são internas, íntimas, silenciosas, e é numa prosa também ela interna e íntima que a autora as narra. Almodóvar, nos seus melhores momentos, é um mestre do melodrama, em que tudo tem de ser acentuado e externado. Por fim, Munro é uma escritora que tende a jogar água fria na fervura; quando o drama está por chegar ao ponto de ebulição, ela ameniza e concilia. Almodóvar brilhou sempre no oposto: em provocar rupturas sísmicas, levar os abalos até as últimas consequências e então tirar dos escombros o que restou de belo e importante. Munro e Almodóvar são como água e vinho. O mais triste, neste caso, é que Almodóvar não é aqui o vinho. É insípido como água.


Trailer


JULIETA
Espanha, 2016
Direção: Pedro Almodóvar
Com Emma Suárez, Adriana Ugarte, Daniel Grao, Rossy de Palma, Darío Grandinetti, Michelle Jenner, Joaquín Notario, Mariam Bachir, Susi Sánchez, Blanca Parés, Sara Jiménez
Distribuição: Universal

3 comentários em “Julieta”

  1. Eu sou fã do Almodóvar há muitos anos. E fã acaba sendo benevolente… Talvez por isso eu tenha que discordar do seu parecer. Concordo em muitos pontos, sobretudo quando diz que o diretor está descaracterizado. Sim, o filme não tem os seus excessos peculiares, que todos amamos, mas não deixa de ser agradável. É envolvente e feminino… na minha opinião, um bom filme. Não é sensacional, como um dia as obras de Almodóvar foram, porém está longe de ser um fiasco como o sofrível Os Amantes Passageiros.

    Em tempo: também sou sua fã e sempre leio suas críticas antes de escolher o que ver no cinema. Não concordamos desta vez mas isso em nada diminui minha admiração e meu respeito pelo seu trabalho!

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  2. Ao contrário da crítica sobre Julieta, amei o que vi! Desde a abertura com o tal vestido vermelho, à trama e principalmente a fotografia primorosa. A história me encantou e a expectativa do final surpreendeu. Saí bastante feliz do cinema. O filme não tem aquele toque tragicômico característico de Almodóvar, mas muito me impressionou sua abordagem em relação à culpa e do que ela é capaz de fazer com as pessoas. Sem falar nos truques cinematográficos, como aquele na hora da transformação de Julieta e nas cores… Ah as cores de Almodovar!

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  3. Nem li seu comentário . Acabei de sair do cinema e com o título do seu comentário na cabeça . Pensei 2 coisas estou velho ? Ou o tempo de Almodóvar já foi ? Já passei dessa época qdo está claro na mente a abertura vermelha . E o filme rolando mas a cadeira não está boa e incomoda. Almodóvar foi voltou no.passado colocou no liquidificador e bateu . Mas a vitamina vermelha ficou sem sabor. Nem consigo saber qual o sabor. Ufa

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