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O garimpo da semana: River

Não consigo desapegar de Stellan Skarsgard como um detetive esquisitão

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Rodando por Londres, à noite, o detetive veterano John River e sua parceira, Jackie “Stevie” Stevenson, batem papo com aquela familiaridade das pessoas que se conhecem do direito e do avesso: River é travadão, Stevie tem uma personalidade borbulhante; ela o provoca, brinca com ele, canta I Love to Love, na versão de Tina Charles, junto com o rádio; ele finge que ela está torrando sua paciência, mas está adorando a brincadeira. E, então, eles veem à sua frente um Mondeo azul que suspeita-se estar envolvido no caso que eles estão investigando. A longa perseguição que se segue, primeiro de carro e depois a pé, pelas ruas e pelas escadas e corredores de um edifício de apartamentos, termina de maneira trágica, com o suspeito estatelado vários andares abaixo. Outras viaturas vão chegando, a confusão se instala – e percebe-se que…

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Não vou estragar a surpresa, embora ela seja central a esta minissérie em seis episódios produzida em parceria entre a BBC e o Netflix (onde, aliás, ela está disponível). Digo apenas que John River, sueco de nascimento e radicado na Inglaterra desde os 14 anos, provavelmente tem uma forma leve de autismo. Seus colegas estão habituados a vê-lo falando sozinho (não é estritamente verdade), mas ainda assim se fascinam com os rompantes dele. River não tem família nem amigos. Stevie, que passou mais de uma década trabalhando com ele, é a única pessoa que conseguiu de fato furar seu bloqueio emocional. River precisa de Stevie desesperadamente – mas também ela precisa dele, e as interpretações estupendas de Stellan Skarsgard e Nicola Walker são a âncora do argumento concebido pela roteirista e criadora Abi Morgan (de filmes como Brick Lane, A Dama de Ferro e As Sufragistas e séries como The Hour). Outras pessoas vão interferir nesse relacionamento: o detetive recém-chegado Ira (o excelente Adeel Akthar), a chefe da divisão de River (Leslie Manville), a psicóloga (Georgina Rich) com quem River tem de cumprir uma dúzia de sessões por ter presenciado um crime violento. Mas tudo, sempre, conduz River de volta a Stevie: ela, em si, é o mistério que ele tem de resolver.

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A rigor, não há nada de muito inovador em River. A bem da verdade, a série trata é de pegar uma carona na onda das séries policiais escandinavas como Forbrydelsen (que é apenas mediana, e foi refeita nos Estados Unidos como The Killing) e principalmente a ótima A Ponte, que tem como protagonista a irresistível, maravilhosa e apaixonante detetive Saga Norén (Sofia Helin), também ela estigmatizada pelo comportamento peculiar em que o autismo funcional a confina (e quem tem NOW deve procurar A Ponte neste minuto dentro do cardápio do Globosat+). O que faz de River um programa tão bom é mesmo a qualidade da escrita – e a competência com que o elenco dá corpo à finesse do roteiro. Nicola Walker torna Stevie intoxicante de tanto encanto e vivacidade. E Stellan Skarsgard, que sempre faz tudo com excelência (inclusive filhos; entre os oito que ele tem, incluem-se o Alexander Skarsgard de True Blood, o Gustaf de Vikings e o Bill de Hemlock Grove), aqui se supera: John River sofre o diabo, mas nunca deixa de ver seus problemas mentais com humor; tem imensa dificuldade para entender a etiqueta das interações sociais, mas compreende o que faz as pessoas funcionarem com uma clareza desconcertante; e é intratável, mas é também de uma doçura infinita. Já faz quase uma semana que terminei de ver a série e não consigo desapegar: a toda hora, ainda me flagro cantando I Love to Love e pensando nele.

5 comentários em “O garimpo da semana: River”

  1. Ontem eu assisti o primeiro episódio de River e confesso que fiquei surpreso! Lembrei na hora do filme o sexto sentido e a genial frase: “I see dead people.”
    Não vejo a hora de chegar em casa para continuar assistindo (River)….

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  2. Fala de Wallander, putz… aquele final, sem apelação, chorei de molhar a camisa. Não sei se é pra isso tudo mas me derrubou forte não sei se foi o envolvimento à época assistindo tudo quase numa tacada só. Enfim… não tem um só diálogo que vc joga fora, impressionante. Não que tudo tenha um significado profundo, etc., mas a dignidade e o intimismo com o que o personagem é construído (e desconstruído) na “nossa frente” é comovente e poético, a fotografia também ajuda. “…desapego…”, omg… quando soltou essa frase quase no final, acabou comigo…

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