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Alice Através do Espelho

Fique do lado de cá que é melhor

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Nunca entendi o mais de 1 bilhão de dólares que Alice no País das Maravilhas, de 2010, fez na bilheteria mundial: com tudo que ele tem de colorido e delirante, é também um filme estéril e cansativo, uma colagem exagerada e desinspirada de elementos dos filmes anteriores de Tim Burton (ou recolagem, já que havia tempo ele vinha reciclando seu próprio trabalho), na qual cada ator faz aquilo que lhe convém ou que acha que deveria fazer, sem um ponto de convergência no qual mirar. São tantos os problemas de País das Maravilhas que o fato de ele ter pouquíssimo em comum com a obra de Lewis Carroll é a menor das inconveniências. Em Alice Através do Espelho, esses problemas se repetem e se agravam, começando pela maneira ainda mais arbitrária com que o roteiro pinça alguns pontos da história de Carroll para – suponho – fazer de conta que é uma adaptação do livro.

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“Começando”, eu disse; a lista de tribulações que o espectador tem de enfrentar é longa. A história, agora teoricamente dirigida pelo inglês James Bobin (Burton assina apenas como produtor, mas é óbvio que mandou em tudo), é de uma fragilidade espantosa: o Chapeleiro está prestes a morrer de tristeza, porque acha que sua família sobreviveu à guerra do primeiro filme, mas Alice não acredita nele. Boa amiga que é, então, ela decide investigar se o Chapeleiro não teria razão. Consegue adentrar o castelo impenetrável do Tempo (Sacha Baron Cohen) para roubar dele um não-sei-o-quê que permitirá a ela viajar até o passado.

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Alice descobre assim a origem da hostilidade entre as irmãs Rainha Branca (Anne Hathaway) e Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter), e fica sabendo também por que Vermelha tem aquela cabeça tão grande. A certa altura, ela passa para o lado de lá do espelho, por razões insondáveis – e com resultados nebulosos. Mas tudo, no final, volta aos seus devidos lugares. O que, em se tratando de Lewis Carroll, deveria ser uma impossibilidade, já que o mote das histórias de Alice é que nada, nunca, está no lugar certo ou do jeito esperado. E dá-lhe, cor, e figurino, e cenário, em quantidades atordoantes. As interpretações estão ainda mais caóticas: Johnny Depp transforma o Chapeleiro num pateta, Anne Hathaway é um pavor como a Rainha Branca, Sacha Baron Cohen é repetitivo como o Tempo, Mia Wasikowska está apática como Alice. Para mim, os únicos momentos de alívio foram aqueles em que Helena Bonham Carter estava em cena: dentre tanta gente fora de tom, ela pelo menos se afina com a insolência e a anarquia de Carroll.


Trailer


ALICE ATRAVÉS DO ESPELHO
(Alice Through the Looking Glass)
Estados Unidos, 2016
Direção: James Bobin
Com Mia Wasikowska, Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Sacha Baron Cohen, Anne Hathaway, Rhys Ifans, Andrew Scott, Lindsay Duncan e as vozes de Alan Rickman, Timothy Spall, Stephen Fry e Michael Sheen
Distribuição: Disney

7 comentários em “Alice Através do Espelho”

  1. Pô, Isabela… tá errado. Cê devia ter baixado o porrete com MAIS força.

    ‘Xa cumigo que eu faço esse trabalho sujo com prazer:

    Fui ao cinema 3 dias depois desse artigo. Sala quase vazia. Só 10 pessoas, contando comigo. Pensei cá com meus botões: “Esses 9 devem ser os únicos que NÃO leram o artigo de Boscov. Ou então vieram só pelas belas imagens, como eu.” Pus os óculos 3D e por um instante tive a impressão que na poltrona ao meu lado um gato sorria maldosamente pra mim, indicando que a sessão de torturas vai começar. Mas então as luzes se apagaram, e só vi aquele sorriso maldoso flutuando no escuro. Mau agouro. Armei-me de coragem, enchendo a cara com refrigerante. Munido de audácia, enfiei a mão no saco de pipoca, onde havia uma balinha Ice Kiss sabor tutti-frutti, dizendo: “Me chupe.” Um tanto ressabiado, engoli a pílula vermelha; as Portas da Percepção se abriram, quando na tela apareceu o Silvio Santos e o pesadelo começou.

    Eis que surge a Alice in Chains fantasiada de Mulan. No filme anterior, ela foi a Joana Dark dos loucos, numa refilmagem da batalha final de “O Senhor dos Anéis – O Retorno da Rainha Louca”. Neste aqui, ela abre a primeira cena reescrevendo o destino dos Piratas do Caribe, que naufragaram do outro lado do mundo porque o Johnny Depp foi contratado pra outro papel no mesmo filme, e levou com ele a bússola de ouro. Á tripulação desesperada, mas feliz por afundarem logo na primeira cena, sem sequer aparecerem, ele disse: “Não entenderam o roteiro? Pergunte ao Pó!”

    Daí fomos parar num romance de Charles Dickens, com caricaturas de executivos de Wall Street ocupando a casa da viúva e querendo trocar o imóvel por um navio. Mais tarde, mudaram o cenário para a Menina de Ouro ser internada no hospício do dr. House. Áquela altura, eu já me sentia um estranho no ninho.

    Mas o pior ainda estava por vir. A garota era da pá virada, e escapou dos golpistas atravessando um espelho falso de uma delegacia, por onde se viam políticos e empreiteiros dando com a língua nos dentes de uma delação premiada. Ao fundo, o juiz Sergio Moro cantava o sucesso mais recente do sertanejo universitário: “Tô prendendo todo mundo! / 99% rico, mas aquele 1% é vagabundo!”

    O Chapeleiro Michael Jackson andava alegremente, brincando com as criancinhas, rolando com os bichinhos, brincando de guerra de travesseiros com os filhos da Fat Family branca, os gêmeos Bocanov que Aldous Huxley rejeitou. Naquele Abominável Mundo Novo, tudo se encaixa no lugar certo, menos você. Mas o sujeito caiu na depressão porque esqueceu os remédios de tarja preta no fundo da cartola remendada, que ele achou nos restos queimados da cabana do Pai Tomás.

    Naquele momento, o Tempo Imperador Borat estava flertando com a Rainha Vermelha Dilma, que foi deposta num impeachment e queria voltar ao passado pra cortar a cabeça do Zé Dirceu, junto com o Lula, o Renan e o Sarney. Entretanto, a Rainha Branca tinha outros planos. Pra se manter no poder, ela imitou a irmã e montou um ministério de compadres estranhos, que eram decapitados no ritmo de um ministro caindo a cada semana, sempre ás segundas-feiras. Nesse ínterim, o capitão-do-mato Bolsonaro se aproveitou da confusão e fez uma viagem ao passado, ou pior, fez o País das Maravilhas voltar a 1964, cantando “Águas de 31 de Março” e segurando o calendário marcando 1° de abril.

    “OK, entendi: isso é só uma piada, como dizia o Comediante que virou o pai do Batman. Daqui a pouco o filme vai terminar e…”

    As portas da sala foram arrombadas com estrondo, pelos pontapés das botas de cano longo dos funcionários do cinema, exigindo de volta os óculos 3D e avisando que o shopping center estava fechando. Era a crise econômica. Logo estariam todos desempregados. Mas antes ainda havia um último serviço a fazer. Parecia um batalhão da Gestapo, algemando os 9 petistas que se escondiam no fundo da sala do cinema e os conduzindo ao camburão onde no volante se via um japonês.

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  2. Faz uma critica de The Poker House, por favor, vi esses dias na Netflix e fiquei impressionada com a coragem da diretora em retratar um momento tão triste, pra não dizer traumático de sua vida. Adoro suas críticas!!!

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  3. FOI, E É ASSIM, QUE MATAM AS FANTASIAS QUE INTEGRAM OS GÊNIO DO GÊNERO HUMANO. OS OBJETOS DO SOM E DOS EFEITOS ESPECIAIS, AGORA FACILITADOS PELA TECNOLOGIA, JÁ ENTERRARAM ROMEU, JULIETA, ALICE, SANSÃO, TARZAN, KING KONG, ENTRE OUTROS. – ISABELA, PARABÉNS POR SUA RESENHA, LÓGICA E ATUALIZADA.

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  4. “recolagem, já que havia tempo ele vinha reciclando seu próprio trabalho”

    RARARARARA

    pô, Isabela, o pior é que quanto mais impiedosa você fuzila os filmes logo nos títulos do seus textos, mais eu gosto…

    “Fique do lado de cá que é melhor.”

    perfeito: genial, curto e grosso.

    tiro de fuzil no ego de cada cineasta metido a besta.

    RARARARARA RARARARARA

    maldade…

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    1. Isabela, queremos ouvir sua voz. Fico lendo as críticas e imaginando sua expressão ao tecer certos detalhes dos filmes #maisvideosporfavor #nãoépreguiçadeler #agentegostadetever

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