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Quando o ator é o filme

Gabourey Sidibe assombrou em Preciosa – e depois provou que não era só sorte de principiante

Filha de uma americana e um senegalês, nascida em Nova York, no distrito barra-pesada de Bedford-Stuyvesant, e criada no Harlem, Gabourey Sidibe já chegou chegando: fazia faculdade de psicologia e não tinha nenhuma experiência dramática quando foi escolhida pelo diretor Lee Daniels, em 2009, para o papel-título de Preciosa (que está disponível no Netflix) – mas carregou o filme com uma interpretação excepcional, dessas de fazer história. É tão competente e inspirado o desempenho de Gabourey como Precious, uma adolescente brutalizada pelo pai, pela mãe e pelas circunstâncias, que temeu-se que o público e a indústria do entretenimento não seriam capazes de distinguir entre a atriz e a personagem – ou seja, que a carreira de Gabourey (que vai fazer 33 anos agora em 6 de maio) ficaria soterrada sob o estereótipo da jovem negra de vida miserável.

Ao contrário de Precious, porém, que tem de se defender da violência de sua situação atrás de uma armadura de passividade, Gabourey tem uma personalidade de chacoalhar, e é um show onde quer que apareça – em filmes como Sete Psicopatas e um Shi Tzu, Roubo nas Alturas ou Pássaro Branco na Nevasca, ou nas séries The Big C, Difficult People, Empire e American Horror Story (não há dúvida que a TV ainda acolhe muito melhor do que o cinema mulheres que não sejam cabides de roupas com cabelos esvoaçantes). O mais sensacional é que até ela fazer o teste para Preciosa, o plano de Gabourey era ter um emprego normal e estável, com carteira assinada: sua mãe penou como artista de rua, e ela queria distância desse jeito de viver sem eira nem beira. Mas não adianta. Quando o talento é assim inato e inequívoco, não há plano que resista a ele.

Leia a seguir a resenha que publiquei quando Preciosa foi lançado nos cinemas:


Uma atriz infeliz com seu papel

A protagonista de Preciosa é negra, pobre, obesa, semianalfabeta e vítima de abuso sexual. Mas tem também um desejo forte, ainda que vago, de recusar o personagem ruim que lhe coube no teatro social

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A protagonista de Preciosa poderia ser uma caricatura, pela maneira como reúne problemas epidêmicos nos guetos negros americanos. Clai­reece Precious Jones tem 16 anos, é semianalfabeta e obesa. Ela também é física e psicologicamente abusada pela mãe, que lança mão de fraudes para não trabalhar e receber benefícios. E está grávida pela segunda vez do próprio pai; da primeira vez, deu à luz uma menina com síndrome de Down. No entanto, no drama do diretor Lee Daniels – o primeiro cineasta negro a ter um trabalho indicado ao Oscar de melhor filme –, Precious é uma pessoa viva. Ainda que, de início, mal se possa notá-lo: com os olhos sempre semicerrados, o rosto congelado em uma expressão de alheamento e o modo como carrega seu corpo, ela é a imagem da brutalização. Em um desempenho de inspiração profunda, a estreante Gabourey Sidibe indica que essa imagem é também uma couraça. Precious é o que foi feito dela, mas aprendeu que corresponder a essa imagem é útil como barreira entre si e a violência de seu mundo. Trata-se de um método perverso, claro: alguém que necessita dele não está no controle da parte de si que é ator e da parte que é personagem. Uma se confunde com a outra. Nesse sentido, sim, Precious é menos do que uma pessoa para si mesma e para os que a cercam – até onde ela e os outros podem enxergar, ela não passa de mais uma figurante no drama repetitivo das crianças que crescem na miséria e na indiferença.

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Expulsa da escola, Precious se junta a um grupo de alfabetização tardia e, empurrada pela professora, passa a escrever diariamente em um caderno. Articulando seus pensamentos, começa a articular também uma identidade – não aquela dos seus sonhos secretos, nos quais se vê como uma popstar exuberante (ou, às vezes, branca e magra), mas uma identidade possível. Ou seja, livre de sua mãe, uma mulher que é uma fornalha em que qualquer aspiração se consome antes até de tomar forma. Violenta, preguiçosa e ressentida – sua queixa contra o abuso da filha é o fato de a menina ter assim rivalizado com ela na cama –, ela é um emblema da acomodação a um papel ruim nesse teatro social. Mas, graças à convicção furiosa com que a comediante Mo’Nique a interpreta, ela não resulta um emblema fácil nem esquemático. É, ao contrário, uma personificação matizada e complicada de uma armadilha sempre pronta a apanhar as minorias vitimizadas por preconceito e inferiorização – o processo que as leva a assimilar essa inferiorização e manifestá-la em desprezo por si mesmas e rancor contra seus algozes, os reais e os supostos.

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Sem a atuação estupenda de Mo’Ni­que, é possível que Preciosa se enredasse em tantas outras armadilhas. A personagem da assistente social que consegue extrair de Precious sua história (interpretada com discrição e eficácia surpreendentes pela cantora Mariah Carey) teria colhido um sucesso; mas, confrontada com o egoísmo voraz da mãe, fixa-se numa nota final bem mais provável, de impotência. Mesmo a superação de Precious tem um sabor distintamente amargo, já que suas cicatrizes psicológicas e a pobreza de suas circunstâncias permanecem incanceláveis. Nesse sentido, o filme é uma criação mais sutil e menos maniqueísta que Preciosa  (publicado aqui pela editora Record), o romance da poeta Sapphire que lhe deu origem, em que tanto o brilho da trajetória de Precious como o negativismo dos personagens masculinos e ligados ao poder público são bem mais acentuados.

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Parte desse travo se deve ao tempo. O livro foi publicado em 1996, e a história, tanto no romance como no filme, se passa em 1987, quando o então presidente Ronald Reagan já retalhara muito da rede de auxílio social. No filme, porém, esse é um dado periférico, se não irrelevante. Ainda hoje, algo como 25% dos negros americanos vivem abaixo da linha de pobreza. Seu déficit de educação, saúde e moradia é imenso. Eles ganham menos do que os brancos, são mais atingidos pelo desemprego, sofrem com taxas altíssimas de filhos nascidos fora de uniões estáveis e formam a maioria esmagadora da população carcerária, embora não sejam nem 14% da população geral. Esse quadro já seria o bastante para esvaziar muito da polêmica suscitada pelo filme nos Estados Unidos, onde alguns o acusam de reforçar estereótipos negativos. Soa mais razoável o argumento da fileira oposta, de que olhar de frente e sem assombro as desvantagens que persistem é imprescindível para remediá-las. Em que pese seu conhecido populismo, Oprah Winfrey e o dramaturgo e cineasta Tyler Perry, que assumiram a produção executiva de Preciosa, têm motivos sólidos para liderar esse lado da trincheira. Ambos tiveram de contornar a pobreza e o trauma do abuso sexual. E, embora seu sucesso seja exceção, não regra, a ideia de que se pode ao menos tentar um destino que não o que está prescrito já é, em si só, luminosa.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 10/02/2010
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2010

PRECIOSA
(Precious – Based on the Novel Push by Sapphire)
Estados Unidos, 2009
Direção: Lee Daniels
Com Gabourey Sidibe, Mo’Nique, Paula Patton, Mariah Carey, Lenny Kravitz

2 comentários em “Quando o ator é o filme”

  1. Realidade brutal e chocante, deprimente e monstruosa; mas o grande feito deste filme, além da coragem de mostrar todos os horrores concentrados em um único caso, é ir além disso enquanto obra de arte: quebrando o molde, focando na atriz-personagem, mostrando nuances, superando clichês, desenvolvendo novos traços. Os produtores e o diretor Lee Daniels estão de parabéns. E as atrizes Gabourey Sidibe e Mo’Nique mereciam ser premiadas.

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  2. Mais do que um artigo, um micro-ensaio de Sociologia. Nada mais coerente, pois o próprio filme é sociológico, e todo texto de análise cinematográfica deve espelhar toda a proposta do filme. A questão é que quase todos os críticos de Cinema brasileiros quase NUNCA se aprofundam nas questões levantadas pelas obras sérias, e quando o fazem, é se limitando a repetir os pontos sugeridos nos “press-releases” enviados á redação. Eis uma saudável exceção. Parabéns.

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