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O Dono do Jogo

O xadrez pode, sim, ser eletrizante

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Para minha vergonha, nunca tive vontade de aprender xadrez: se não tenho paciência nem para cardápio de restaurante extenso demais, que dirá para um jogo em que, após apenas quatro lances, tem-se três bilhões de possibilidades por contemplar. A falta de conhecimento do jogo, porém, nunca me tirou o prazer de apreciar bons filmes sobre xadrez, e em particular sobre enxadristas – categoria em que Bobby Fischer (interpretado aqui por Tobey Maguire) é um dos personagens mais complexos, fascinantes e exasperantes sobre o qual um diretor pode se debruçar. Bobby, americano neto de judeus russos e poloneses por parte de mãe (ele nunca chegou a conhecer seu pai), revelou-se um prodígio do xadrez – e autodidata, ainda por cima – já aos 6 anos de idade. Aos 15 anos, tornou-se o mais jovem grão-mestre do esporte até então, e continuou batendo recorde atrás de recorde, com prêmios em todos os torneios de que participava e pontuações perfeitas que nunca mais seriam repetidas na história.

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Nesse período, contudo – final dos anos 60 e início dos 70 –, os russos dominavam o xadrez e eram tidos como invencíveis. Sobretudo no caso de Boris Spassky (Liev Schreiber), um dos maiores enxadristas de todos os tempos, que, para ódio do cada vez mais irascível Fischer, derrotou-o já na primeira partida que disputaram. Fischer fez de vencer Spassky e tirar dele o título de campeão mundial a sua missão maior na vida. E, como de bobo não tinha nada, percebeu que multiplicaria o apoio à sua cruzada se a transformasse em uma rivalidade-símbolo da Guerra Fria, de competição entre americanos e soviéticos por um emblema de superioridade intelectual.

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Um amigo enxadrista me diz que o xadrez é um jogo que consome e obceca, e que não é fácil retornar ao mundo real, tão ilógico e imprevisível, depois de passar horas (ou dias) em um ambiente mental de possibilidades que podem ser projetadas e calculadas com dezenas de lances de antecedência. De fato, não são poucos os exemplos de grandes enxadristas tidos como pessoas difíceis, ou mesmo perturbadas e desequilibradas. Também nesse aspecto Bobby Fischer se excedeu: à medida que avançava na idade e no esporte, ia se tornando cada vez mais errático, paranóico e voluntarioso – e tornava-se mais complicado também para seu agente (Michael Stuhlbarg) e um velho adversário encarregado de apaziguá-lo (Peter Sarsgaard) evitar o colapso mental iminente de Bobby.

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Fischer e Spassky se enfrentaram, sim, em uma série de 24 partidas disputada na Islândia, em 1972. É óbvio que não vou contar o que se passou, porque o suspense em torno desse combate (durante o qual Spassky, mais velho, mais seguro e mais experiente, fez diversas concessões às manias tresloucadas de Fischer) é um elemento fundamental do filme. Mas certamente não é o único elemento de interesse: na direção muito fluida e confiante de Edward Zwick (de Tempo de Glória, O Último Samurai e Diamante de Sangue), são igualmente envolventes a infância e a adolescência de Bobby (em que ele é interpretado por Aiden Lovekamp e depois por Seamus Davey-Fitzpatrick), sua reinvenção como ícone e o ambiente dramático da Guerra Fria, que Edward Zwick evoca com bom olho para a recriação e com um saboroso senso de ironia. O elenco é todo ele formidável também: Michael Stuhlbarg de novo se prova um dos maiores atores que eu já vi, e Liev Schreiber não fica muito atrás. Minha única objeção vai para o desempenho de Tobey Maguire, que alcança resultados irregulares diante de tamanha concorrência.

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P.S.: Outros dois filmes sobre xadrez de que gosto muito: Lances Inocentes (Looking for Bobby Fischer), de 1993, disponível no Netflix, em que Ben Kingsley tenta transformar um garoto no novo Bobby Fischer. E O Último Lance (The Luzhin Defence), de 2000, baseado em um romance de Vladimir Nabokov, em que John Turturro é um enxadrista que sucumbe à loucura da sua própria genialidade. Este foi lançado aqui em DVD pela Europa, mas, a esta altura, pode ser meio difícil de encontrar…


Trailer


O DONO DO JOGO
(Pawn Sacrifice)
Estados Unidos/Canadá, 2014
Direção: Edward Zwick
Com Tobey Maguire, Michael Stuhlbarg, Peter Sarsgaard, Liev Schreiber, Lily Rabe, Robin Weigert, Conrad Pla
Distribuição: PlayArte

4 comentários em “O Dono do Jogo”

  1. Uma das mais ridículas encenações da grande imprensa mundial foi o falso escândalo em torno da “derrota” de Garry Kasparov para um computador. oh, mídia ridícula! Ele não perdeu nada. Pois se tivesse perdido o título de campeão mundial de xadrez pro Deep Blue, o que iam fazer? Passar pra uma lata a faixa ou cinturão de vencedor, junto com um prêmio em dinheiro? Fala sério! Se fosse um jogo de cartas, seria difícil saber quem estava blefando .

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