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Hoje é um bom dia para rever…O Espião que Sabia Demais

Isto, sim, é uma rede de intrigas.

Este sabadão nublado (pelo menos no Sudeste) me deixou com vontade de ver um filme de espionagem dos bons. Ou seja: filme inglês, com um monte de atores ingleses excelentes, sem gadgets e com muita intriga. Neste aqui, que está disponível no Netflix, todos os créditos são puro-sangue.

É uma adaptação de 2011 de um livro de John le Carré protagonizado pelo seu personagem mais fascinante, o espião de médio-escalão George Smiley. Quem dirige é o sueco Tomas Alfredson, que três anos antes havia feito um dos filmes de vampiro mais intrigantes e lúgubres que eu já vi, Deixa Ela Entrar (não, não estou falando da versão americana meia-boca com a Chloë Grace Moretz, mas do original sueco). E o elenco, começando por Gary Oldman e indo até Benedict Cumberbatch e Tom Hardy (que ainda não eram “Benedict Cumberbatch” e “Tom Hardy”), é de ofuscar. Veja a seguir a resenha que eu publiquei quando o filme foi lançado nos cinemas – e, no final dela, uma entrevistinha com Oldman.


O espião que voltou do frio

Gary Oldman brilha como George Smiley, o homenzinho inescrutável no centro de O Espião que Sabia Demais.

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Quando John le Carré começou a escrever romances de espionagem, em 1961, ele trabalhava ainda no Secret Intelligence Service, ou SIS, britânico (mais conhecido como MI6). A Guerra Fria fervia. E, com seu dom para captar a atmosfera de altas apostas, perigos terríveis e erros fatais em que viviam então os agentes secretos, Carré se consagrou como o maior dos autores do gênero e o mais esclarecido tradutor desse mundo à parte. No primeiro livro que Carré publicou, e em todos os outros seguintes, havia um personagem secundário recorrente: George Smiley, um homenzinho de aparência comum, meticuloso e lúcido, alocado no médio escalão da espionagem britânica – mas, justamente por causa da facilidade com que é subestimado, de grande talento para o ofício. Em 1974, depois de aparecer em quatro livros, Smiley ganhou o centro do palco: em O Espião que Sabia Demais, aposentado do SIS na esteira de uma barafunda armada por seu chefe no Leste Europeu, Smiley é convocado de volta para, operando à margem, “desenterrar” um agente duplo a serviço dos soviéticos – e que só pode ser um dos quatro homens que naquele momento ocupam o topo do SIS, ou O Circo, como é chamado por Carré.

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Com tudo que tem de descolorido, Smiley é um personagem capaz de despertar um interesse obsessivo no leitor: é um homem que nada revela, mas no qual se pressente um interior de cores e correntes fortes. Ele se provaria sedutor também para os espectadores. Vivido por Alec Guinness em uma minissérie da BBC de 1979, Smiley manteve a audiência em transe durante sete episódios, embora o máximo de ação em que se engajasse fosse limpar os óculos fundo de garrafa ou trocar um olhar com Peter Guillam, o agente que o acompanha na tarefa. Agora, Smiley acaba de ganhar uma reencarnação no cinema: em O Espião que Sabia Demais, outro magnífico ator inglês, Gary Oldman, enverga os ternos mal assentados de Smiley com a missão de transportar a plateia para o mundo drástico e inseguro de 1973, quando antecipar os lances dos soviéticos no xadrez da Guerra Fria era questão crucial de sobrevivência.

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Parte do que destacou Carré é a maneira sistemática como ele desmantelou a mise-en-scène de 007. Nada de garotas, pistolas, glamour, vilões exóticos: espionar, pregava o autor, consiste fundamentalmente em ter paciência, memória, método e desconfiança – enfim, decifrar quebra-cabeças, ou ser um burocrata com função (ao menos em tese). Assim, no filme dirigido pelo sueco Tomas Alfredson, de Deixa Ela Entrar, o mundo drástico e inseguro de 1973 é também deprimente, até nos tons enlameados escolhidos para a encenação: marrons mortiços, laranjas sujos e cinzas impessoais compõem os cenários em que Smiley e Guillam (o ótimo Benedict Cumberbatch) se movimentam discretamente à cata do traidor do Circo. Se alguém jogasse uma bomba no set de filmagens, o cinema inglês não se recuperaria tão cedo: entre nomes estabelecidos ou em ascensão, o elenco inclui ainda John Hurt, Colin Firth, Mark Strong, Ciáran Hinds, Toby Jones e Tom Hardy – além de uma breve e marcante aparição de Kathy Burke, uma das atrizes preferidas de Oldman, que a tirou da aposentadoria para este trabalho.

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Como suas contrapartes ficcionais, nenhum desses grandes intérpretes está aqui para chamar atenção para si: a especialidade de Carré, e também do diretor Alfredson, são as cartas viradas para baixo, a ameaça que se insinua mas não se mostra, o terror de que, por mais que se suspeite de todos, não se esteja suspeitando o bastante. Tanta amargura e desilusão – e um enredo tão intrincado, que pede concentração total do espectador – não são a matéria-prima da qual se fazem os entretenimentos passageiros, nem muito menos os sucessos de bilheteria. Aos que se disponham a fazer esse retorno a 1973, porém, o que se pode garantir é que estarão nas mãos de guias inescrutáveis, mas nunca menos do que intrigantes.


Entrevista com Gary Oldman


“O mundo não mudou tanto assim”

Em entrevista a VEJA, Gary Oldman falou sobre seu personagem, George Smiley, e a interpretação icônica de Alec Guinness no mesmo papel.

O fantasma de Alec Guinness o assombrou?

Meu propósito nunca foi o de ser diferente só por sê-lo. Mas Guinness tinha quase 70 anos quando fez o papel; talvez por isso, o caráter que ele deu ao personagem lembra o de um professor de escola – severo, mas também afável. Meu George Smiley, creio eu, é mais seco e feral. Mas o fato é que a sombra que Guinness projeta é longa, e era inevitável que a atuação dele se tornasse uma baliza para mim. Eu diria, porém, que ele começou como uma nêmese e terminou como guia espiritual. Gosto de imaginar que ele estava olhando por mim e dizendo “vá nessa”.

Por meio de Smiley podemos dar uma espiadela na vida interior de um espião durante a Guerra Fria – e ela é toda desapontamento.

Smiley, de fato, é um desencantado – um romântico, um sujeito da velha-guarda que tem certeza da importância do trabalho que faz mas desenvolveu uma reação de cinismo a ele, e nem mais tem certeza de que seu lado seja tão diferente assim nos métodos do outro lado, o da Cortina de Ferro.

Neste filme, Smiley tem também uma certa raiva. O senhor diria que é a nossa visão contemporânea dos tempos da Guerra Fria que imprime esse traço a ele?

A visão em retrospecto sempre carrega sentimentos que não eram evidentes ao tempo dos acontecimentos, e o filme provoca essa sensação de que o mundo não mudou tanto assim. O tempo, o lugar, o inimigo mudam, mas a perspectiva de aniquilação está sempre à nossa espreita – econômica, tecnológica ou de qualquer outra natureza. Aliás, adoro isso no filme: o retorno a um mundo analógico, que não estava ainda mergulhado na tecnologia, e no qual a espionagem era um trabalho de engenhosidade, inteligência e instinto – o instinto de desconfiar de tudo e de todos sempre.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 11/01/2012
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2012

Trailer


O ESPIÃO QUE SABIA DEMAIS

(Tinker Tailor Soldier Spy)
Inglaterra/Alemanha/França, 2011
Direção: Tomas Alfredson
Com Gary Oldman, Benedict Cumberbatch, John Hurt, Colin Firth, Mark Strong, Ciáran Hinds, Toby Jones, Tom Hardy, Kathy Burke

2 comentários em “Hoje é um bom dia para rever…O Espião que Sabia Demais”

  1. …e o pior é q que até hoje aqueles quadrúpedes da “Academia” de Hollyweird NUNCA deram o Oscar de Melhor Ator ao Melhor Ator do Mundo: GARY OLDMAN. Assim como NÃO premiaram Al Pacino por nenhum dos “Poderoso Chefão”, “Serpico”, “Scarface”, “Um Dia de Cão”, “Lost Boys”, etc, Nada de prêmio para Humphrey Bogart por “Casablanca” ou “O Falcão Maltês”. E NUNCA deram Oscar para Charlie Chaplin, Alfred Hitchcock, John Houston. É por essas e outras que Oscar e nada pra mim é a mesma coisa.

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