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Ricki and The Flash: De Volta Para Casa

Tem dias em que nem Meryl Streep consegue ser Meryl Streep.

Este filme do diretor Jonathan Demme (disponível no NOW e saindo em DVD) é uma espécie de versão light, e com sinais trocados, do devastador O Casamento de Rachel, que ele lançou em 2008.

A recauchutagem, porém, não deu certo: Meryl Streep canta (de verdade), toca guitarra (meio fingida), carrega na sombra azul, põe bota de couro e assobia e chupa cana ao mesmo tempo, mas não há o que faça a história sair daquele torpor de previsibilidade que se anuncia já nos primeiros minutos.

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Meryl é Linda, que prefere ser chamada de Ricki, o nome artístico que ela adotou uns vinte anos antes, quando largou marido e filhos para correr atrás do seu sonho de ser uma rockstar. No mundo, como Ricki, as coisas não correram conforme o esperado: de noite ela toca com sua banda, The Flash, num bar meio caído, e leva um namoro em banho-maria com o guitarrista Greg (o guitarrista, cantor, compositor etc. Rick Springfield); de dia, é caixa de supermercado e vive dura. Nas raras ocasiões em que está em família e volta a ser Linda, a situação é ainda pior: os filhos a odeiam pelo abandono, e os velhos conhecidos a olham como se ela fosse uma alienígena sempre que ela aparece por ali com aquela sua cara de roqueira extraviada no tempo. Seu ex-marido (Kevin Kline), porém, acha que ela ainda tem algo a contribuir: o casamento da filha deles, Julie (Mamie Gummer, que é filha de Meryl mesmo e ótima atriz) terminou repentinamente e a menina está em depressão profunda; quem sabe rever Ricki não a ajude?

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Sinto informar que tudo aquilo que você acha que vai acontecer realmente acontece, e do jeito que você imagina, neste roteiro surpreendemente convencional – para não dizer preguiçoso – de Diablo Cody. Uma das coisas que mais machucavam em O Casamento de Rachel era a constatação de que às vezes nem toda boa vontade e todo desejo de reconciliação podem remediar certos dramas de uma família. Aqui, ao contrário, décadas de ressentimentos (alguns deles até bem justificados, acho eu) evaporam em questão de dias. Não sou contra o otimismo, de jeito nenhum – sou contra apenas a absoluta implausibilidade. (E contra o excesso de números musicais assim-assim.)

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Mas quer saber? Filmes como este às vezes são uma necessidade na carreira de uma atriz como Meryl. Leia o porquê na matéria que vem a seguir, que eu escrevi no lançamento de Simplesmente Complicado, em 2010.


Trailer


RICKI AND THE FLASH: DE VOLTA PARA CASA
(Ricki and the Flash)
Estados Unidos, 2015
Direção: Jonathan Demme
Com Meryl Streep, Mamie Gummer, Rick Springfield, Kevin Kline, Audra McDonald, Sebastian Stan, Nick Westrate, Aaron Moten

Simplesmente Complicado

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Ela se diverte

Desde que estreou no cinema, há três décadas, Meryl Streep é um paradigma de excelência. Mas hoje ela não é só admirada, como antes. Aprendeu a ser leve e calorosa e fez o que ninguém imaginava ser possível para uma atriz de 60 anos em Hollywood: virou campeã de bilheteria.

Desde a sua primeira personagem de destaque, em O Franco-Atirador, de 1978, Meryl Streep estabeleceu uma reputação que nunca esteve perto de ser abalada: a de ser um dos talentos mais fulgurantes da história do cinema. Não havia papel que ela não pudesse fazer; não havia idioma que ela não aprendesse ou aparência que não fosse capaz de adquirir. Meryl interpretava mães que abandonam filhos (Kramer vs. Kramer, 1979), mães que escolhem qual filho entregar aos nazistas (A Escolha de Sofia, 1982), aristocratas europeias que se acham donas de tribos africanas (Entre Dois Amores, 1985), alcoólatras terminais (Ironweed, 1987), mães suspeitas de assassinar filhos (Um Grito na Escuridão, 1988). E, em vez de colher antipatia, colhia indicações a prêmios e aclamação. Mas não tietagem. Sua beleza patrícia não é bem a matéria-prima de que se fazem as fantasias. Seu ar era meio distante, cortante até, e sua técnica extraordinária chegava a intimidar. Meryl, enfim, era perfeita demais e calculada demais. Era fácil admirá-la; gostar dela, nem tanto. Hoje, entretanto, é preciso puxar pela memória para lembrar que ela um dia provocou esse tipo de reação. Pouco a pouco, de uns quinze anos para cá, ela foi se tornando uma das atrizes mais queridas do cinema americano. E, precisamente há quatro anos, virou algo que mulher nenhuma na meia-idade espera ser em Hollywood: uma campeã de bilheteria, que bate fácil rivais bem mais jovens. Meryl, é evidente, se destaca porque nunca deixou diminuir as qualidades que já possuía. Mas está nessa situação privilegiada porque aprendeu a única coisa que ainda não sabia sobre atuar: a se divertir, e divertir-se muito. Até com coisas de gosto duvidoso como Simplesmente Complicado.

Nessa espécie de catarse cômica para mulheres trocadas por outras com a metade de sua idade, Meryl é Jane, há dez anos divorciada de Jake. Ele se casou com a amante morena e esguia; ela ficou sozinha. Na festa de formatura do filho do meio, os dois se encontram num bar de hotel. Drinque vai, drinque vem, terminam na cama, onde Jake (Alec Baldwin, outro que está em sua melhor fase) descobre como é bom não ter de correr atrás de alguém com o dobro da energia e, arrebatado, lembra-se de como a mulher que ele deixou é espirituosa, encantadora e bonita. Não se exige nenhum esforço de imaginação para entender a recaída de Jake. Meryl, nesta sua fase tão calorosa, faz de Jane uma personagem pela qual é inevitável que tanto ele como a plateia se apaixonem. Não obstante o roteiro um bocado ordinário da diretora Nancy Meyers, cheio de vulgaridades gratuitas, Meryl faz tudo funcionar – até aquelas cenas que hoje provavelmente podem ser adquiridas como formulário em papelarias, em que um grupo de amigas se encontra para beber e fofocar. (Só uma coisa está além de sua habilidade: tornar crível seu flerte com o personagem de Steve Martin, tão abotoadinho que a ideia de um contato íntimo entre os dois causa certo pavor.)

Simplesmente Complicado, portanto, é um filme muito inferior à sua estrela. Mas não é o primeiro do qual se pode dizer isso; mais importante e curioso é que se trata exatamente do tipo de escolha com que ela reformulou sua carreira e ganhou a espontaneidade e leveza que lhe faltavam. No fim da década de 80, depois que sua segunda menina com o escultor Don Gummer nasceu (ela tem um filho e três filhas), a atriz decidiu que ficara difícil demais conciliar o trabalho com a família. Passou, então, a mirar em projetos com os quais ela pudesse lidar como um emprego, do qual se volta para casa a tempo de preparar o jantar. Fez bobagens como Ela É o Diabo, A Morte Lhe Cai Bem e Rio Selvagem, foi acusada de se vender ao sistema e não deu a menor bola: estava aprendendo, não sem dificuldade, a exercitar algum humor e despretensão. Em 1995, finalmente, caiu-lhe nas mãos o papel que apontaria os seus instintos artísticos em uma nova direção – o da dona-de-casa frustrada que vive uma brevíssima paixão com um fotógrafo, em As Pontes de Madison, no qual Clint Eastwood, seu parceiro de cena e diretor, arrancou dela uma espontaneidade e um prazer descomplicado que, até ali, lhe escapavam.

Meryl continua obsessivamente técnica, e muitos dos projetos em que se engaja exigem dela todo aquele arsenal que desde o início a distinguiu – como o fantasma de Ethel Rosenberg em Angels in America, a jornalista que embarca numa aventura com um caipira desdentado em Adaptação ou a freira fanática de Dúvida. Mas são essa espontaneidade e esse prazer, mais a segurança da idade (60 anos bem conservados e orgulhosamente sem retoques), que fizeram dela um sucesso sem precedentes. O Diabo Veste Prada a tornou um ícone. Mamma Mia!, que sem ela seria insuportável, é o único filme encabeçado por uma atriz que está entre os cinquenta campeões mundiais de bilheteria. E, por Julie & Julia, ela concorre neste ano pela 16ª vez ao Oscar, um recorde absoluto entre intérpretes. Se sair vitoriosa (seria a terceira vez), provavelmente vai dar o show de sempre, comparecendo à cerimônia com um vestido inexplicável, óculos de leitura e penteado de quem terminou a faxina às pressas. Meryl já não tem a menor necessidade nem vontade de impressionar – e por isso mesmo fica cada vez mais impressionante.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 03/03/2010
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2010

SIMPLESMENTE COMPLICADO
(It’s Complicated)
Estados Unidos, 2009
Direção:Nancy Meyers
Com Meryl Streep, Steve Martin, Alec Baldwin, John Krasinski, lake Bell, Mary Kay Place, Rita Wilson

3 comentários em “Ricki and The Flash: De Volta Para Casa”

  1. Isabela, concordo com você que “Ricki and the Flash” tem um roteiro surpreendentemente previsível, mas acho a base dele uma das mais interessantes: aqui não temos um pai que abandonou a família pela música, e sim uma mãe. Ricki também não saiu pelo mundo fazendo sucesso, já que ela, na realidade, só gravou um disco e hoje está falida. A mãe também não é uma figura das mais arrependidas: apesar dos pesares, como ela mesma canta em “Cold One”, não gostaria de ser nenhuma outra pessoa a não ser ela mesma. Enfim, gosto muito dessas inversões de clichês que a Diablo Cody sempre faz, mesmo que, neste caso, os acontecimentos que venham a partir delas não sejam lá muito inspiradas. Beijo!

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