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Caminho da Liberdade

Não está moda – mas nunca sai de moda.

O australiano Peter Weir filma muito pouco, mas filma muito bem. Exemplos? A Testemunha, Gallipoli e Mestre dos Mares, que também vai ganhar reprise aqui no blog esta semana, e este Caminho da Liberdade, que entrou há pouco no Netflix e trata de um grupo de prisioneiros que fugiu de um gulag na Sibéria e foi a pé dali até a Índia.

É uma beleza: um épico discreto, filmado em locações acachapantes (ou não seria épico), com uma história que já foi objeto de muita polêmica mas que, definitivamente, aconteceu com alguém – só não se sabe direito com quem. É um tipo de filme que quase não se faz mais, mas que nunca sai de moda. Leia, assista e encante-se.


Entre extremos.

Peter Weir conta com linguagem comedida, e visual arrebatador, a história de um grupo de fugitivos que caminhou 6000 quilômetros, da Sibéria à Índia.

São longos os intervalos que o australiano Peter Weir coloca entre seus filmes – cinco anos entre Fearless e O Show de Truman, por exemplo; e sete desde o último que lançara, Mestre dos Mares. É uma ausência a ser sentida: os hiatos do cineasta não são períodos de retiro, mas sim de atividade intensa, cujo saldo sempre pode ser observado na tela, em torno de projetos que costumam consumir quantidades imensas de pesquisa e de indagação sobre os detalhes da história a ser contada – desde aqueles cuja importância é óbvia, como a escolha das locações, até aqueles que, para um outro tipo de diretor, pareceriam irrelevantes (como, em Mestre dos Mares, a produção de centenas de metros de cordas torcidas exatamente como o eram à época das Guerras Napoleônicas). Para o novo Caminho da Liberdade, a equipe de Weir, ainda que bem agasalhada e alimentada, teve de viver parte da experiência medonha de ser prisioneiro soviético na era stalinista e construir do zero, no meio de um nada gélido, um gulag – como acontecia com as primeiras turmas que chegavam aos quase 500 campos que a certa altura se espalhavam pelo território da União Soviética, e em particular na Sibéria, e dos quais quase ninguém saía vivo. O “quase ninguém”, aliás, é o fulcro deste filme extraordinário, que trata de um grupo que, sob a cobertura de uma noite tempestuosa, fugiu em 1941 de um gulag siberiano e caminhou mais de 6000 quilômetros até a Índia. Vários morreram pelo caminho. E os que enfim foram encontrados por uma patrulha nas idílicas plantações de chá de Darjeeling estavam mais mortos do que vivos – mas, afinal, livres.

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Há muita disputa histórica em torno desse relato. Publicado originalmente em 1955 na Inglaterra por Slavomir Rawicz (1915-2004), um tenente polonês acusado de espionagem e despachado para o gulag com base na delação obtida de sua mulher mediante tortura, o livro The Long Walk (lançado aqui, com o mesmo nome do filme, pela Record) se consolidaria, nas décadas seguintes, como uma espécie de clássico – até ser desmentido recentemente por pesquisadores da BBC, que descobriram que Rawicz havia sido libertado do gulag em 1942. Outro ex-prisioneiro polonês, então, veio a público dizer que havia sido ele o protagonista da jornada, e que Rawicz se apropriara de sua história. Parece indisputável, porém, o fato de que alguém a empreendeu – e que Weir a recria com um tipo de inspiração que quase não existe mais no cinema de hoje: primeiro, com o senso de que, em um épico, a paisagem tem de ser verdadeiramente uma personagem (e tem de ser real, não gerada em computador, ou o desafio que ela representa se dissolve de maneira intangível, mas palpável); e, depois, com uma crença igualmente profunda nas reservas de coragem, intrepidez e resistência que às vezes se revelam até nos seres humanos menos suspeitos de possuí-las.

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Em Caminho da Liberdade, o protagonista Janusz (Jim Sturgess) e seu grupo compreendem, desde o primeiro instante de sua fuga, o significado das palavras do oficial encarregado do campo, de que a Sibéria é sua verdadeira prisão: poucas paisagens do planeta são tão magníficas quanto a vastidão branca e cinza da taiga– uma beleza que Weir e seu cinegrafista, o craque Russell Boyd, capturam fascinados –, e poucas também são tão implacáveis. O frio extremo, e a fome e o cansaço que ele produz, convida a pensamentos horríveis sobre canibalismo nos fugitivos, em particular no ladrão Valka (Colin Farrell). Mais adiante, é o próprio estado de fraqueza em que eles se encontram que tornará ainda mais pastoral a vista das margens do Lago Baikal, onde há peixe e caça – e fará com que um americano no grupo, Mr. Smith (Ed Harris), quebre sua regra de não compaixão e admita a presença de Irena (Saoirse Ronan), uma menina que os vem seguindo a distância: diante dessa relativa fartura, é difícil persuadir os companheiros de que qualquer caridade pode terminar por ser fatal. Na chegada à Mongólia, onde esperavam alcançar a liberdade, a visão de símbolos comunistas na fronteira quase tira deles todo o espírito. Decidem então prosseguir pelo Deserto de Gobi até o Tibete, o Himalaia e a Índia, no que se prova a etapa mais devastadora da caminhada: calor e sede são inimigos ainda mais invencíveis do que frio e fome.

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Não há vista que Weir e seu diretor de fotografia não sejam capazes de registrar (em locações na Bulgária e no Marrocos, por questões logísticas) em toda a sua grandiosidade particular – e, como é inevitável que esse tipo de cena faça pensar nos filmes de David Lean, fazem pequenas homenagens a ele, dos telhados tão peculiares dos vilarejos russos, mostrados com o mesmo encanto com que o inglês os retratou em Doutor Jivago, às torturantes miragens do deserto, que citam de maneira ainda mais explícita Lawrence da Arábia. O tom de Peter Weir, entretanto, é bem menos grandiloquente. É, ao contrário, comedido, como se o diretor não quisesse arvorar mais poder sobre essa história que o de um cronista: tão miraculosa quanto a beleza do mundo, aqui, é a simples constatação de que, para ganhá-la, os homens se dispõem a perder até a vida.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 11/05/2011
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2011

Trailer


CAMINHO DA LIBERDADE
(The Way Back)
Estados Unidos, 2010
Direção: Peter Weir
Com Ed Harris, Jim Sturgess, Colin Farrell, Saoirse Ronan, Gustaf Skarsgard, Mark Strong, Dragos Bucur, Zachary Baharov, Igor Gnezdilov, Sebastian Urzendowsky

4 comentários em “Caminho da Liberdade”

  1. Esse filme é excelente. E Colin Farrel definitivamente merecia novas chances. Mas meio off-topic. Minha primeira sugestão a você foi um desastre (o Monsters 2), por isso me sinto na obrigação de me redimir. Assisti a um pequeno e notável filme neste fim de semana, e queria ter a petulância de te indicar, se você ainda não viu.
    O filme se chama “Me, Earl and The Dying Girl”, e é uma pequena obra prima. Imagina “A Culpa é das Estrelas” sem hype e sem babaquice. Mais não falo. Mas é um filme especial. Merece ser visto.

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  2. Assisti esse filme apenas uma vez,mas é uma obra que merece uma revisão.Peter Weir é um grande diretor e tenho carinho especial por “O Show de Truman” e “Sociedade dos Poetas Mortos”.Assisti outra dica sua e gostei muito:o norueguês “O Cidadão do Ano” com Stellan Skarsgård.

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