Mistress America

Uma pequena fábula nova-iorquina.

Depois de estourar com A Lula e a Baleia, em 2005, o diretor Noah Baumbach entrou numa fase ½ amarga, ⅔ esnobe que foi dura de engolir. Felizmente, essa fase durou só dois filmes (Margot e o Casamento e O Solteirão) e deu lugar a uma etapa excelente em seu trabalho.

Assim como Frances Ha, de 2013, e Enquanto Somos Jovens, lançado no início deste ano, Mistress America é uma pequena fábula sobre a ansiedade de “acontecer” em Nova York. Tracy (a ótima Lola Kirke), que tem 18 anos e foi fazer a faculdade lá, está sentindo a pressão: não consegue conhecer gente, não sabe aproveitar a cidade e é rejeitada pelo pessoal do clube literário ultra-exclusivo ao qual submete seus contos. No dia em que seu único amigo aparece com uma namorada, Tracy admite a derrota: está mais sozinha que um vira-lata, e só lhe resta ir se apresentar a Brooke (Greta Gerwig), a filha do sujeito com quem sua mãe vai se casar. Surpresa! Brooke a recebe de braços abertos, e é tudo aquilo que Tracy acha que gostaria de ser: tem mil planos e um monte de amigos, está em todas, não para quieta. Mas tem também 30 anos (ela finge que tem menos) e nada do que tentou na vida deu certo. Como a personagem-título de Frances Ha, também interpretada pela encantadora Greta Gerwig (que é namorada, musa e corroteirista de Baumbach), Brooke produz quantidades inacreditáveis de energia, mas toda ela se dissipa sem gerar nenhum movimento real.

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Uma das coisas curiosas de Mistress America é que Tracy está fascinada com Brooke, mas entende de cara aquilo que a própria Brooke não consegue perceber – que ela está a um passo do desespero, e que se seu próximo plano (abrir um restaurante tipo, assim, diferente) não der certo, ela vai desmoronar. Tracy, enfim, verdadeiramente nasceu para ser escritora. Não apenas é muito observadora, como não hesita em transformar sua futura irmã postiça na protagonista de um conto que, este sim, pode lhe abrir as portas do clube literário. Ou seja: da mesma forma que Brooke não enxerga seu próprio desespero, Tracy é cega à sua própria falta de escrúpulos. E ambas sofrem da angústia que aparentemente acomete boa parte dos jovens americanos com ambições intelectuais ou artísticas: a de ver Nova York como um lugar quase mítico. Sobreviver à cidade é uma validação pessoal; fracassar nela é enterrar os sonhos e ter de assumir o mais terrível de todos os destinos, a mediocridade. Noah Baumbach, que é filho de um ensaísta e uma crítica de cinema e foi criado em Nova York, entende muito bem essa hipercompetividade. A diferença é que hoje em dia, aos 40 e poucos anos, ele consegue vê-la com afeição e com compaixão – quanta gente simpática e cheia de qualidades se sentindo péssima e sofrendo inutilmente, é o que dizem esses seus três últimos filmes.

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Mistress America, porém, não é drama: é uma comédia quase em tom de farsa, que a certa altura fica decididamente amalucada e, depois, se aquieta um pouco, quando suas duas protagonistas conseguem colocar todo esse frenesi em perspectiva. O mais doce, no filme, é que ele em nenhum momento é cego aos defeitos de Tracy e Brooke. Mas ama-as assim mesmo, e também por isso – e quer que elas continuem se amando como no instante em que se conheceram. Ou cada vez mais, se possível.


Trailer


MISTRESS AMERICA
Estados Unidos, 2015
Direção: Noah Baumbach
Com Greta Gerwige, Lola Kirke, Matthew Shear, Michael Chernus, Heather Lind, Kathryn Erbe, Jasmine Cephas Jones
Distribuição: Vitrine Filmes

Uma consideração sobre “Mistress America”

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