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45 Anos

A exumação de um casamento.

É segunda-feira, e a carta chega: as autoridades suíças avisam que, passadas cinco décadas, finalmente encontraram o corpo de Katya, que caíra em uma geleira nos Alpes em 1962.

Geoff jura que a notícia não lhe causa nenhuma sensação, e que havia muito tempo já ele não pensava na namorada que despencara para a morte enquanto eles faziam uma caminhada. Kate sabe que não é bem assim; uma espécie de estática atravessou a conversa. Terça, quarta, quinta, sexta: até o sábado, quando Geoff e Kate celebrarão seus 45 anos de casados com uma festa, o assunto Katya vai ressurgir e se revelar de uma extensão e de uma profundidade que Kate nunca suspeitara. Katya saiu da vida de Geoff  muito antes de Kate entrar nela, mas agora essa ausência virou uma presença que domina tudo: Katya está lá, em alguma ravina nos Alpes, imortalizada pelo gelo nos seus 20 e poucos anos de idade; Kate e Geoff estão velhos. No decorrer dessa semana, Katya vai transformar tudo que Kate pensa sobre Geoff, sobre seu casamento com ele, e sobre o que foi sua vida nesses 45 anos.

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Em suma: essa semana vai ser uma barra – e o diretor Andrew Haigh acompanha essa inquietação crescente colado ao desempenho arrasador de Charlotte Rampling, que vai caminhando da curiosidade para o pânico e, por fim, para a sensação de que é ela própria quem está despencando em um abismo. Tom Courtenay, também ele brilhante no papel de Geoff (os dois ganharam o Urso de Prata no Festival de Berlim este ano), parece cada vez mais errático desde que recebeu a carta, e vagueia para dentro e para fora da cena enquanto Kate tenta preencher as lacunas do passado e reinterpretar seu presente à luz dele.

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Repare na quantidade de relógios em cena, e como Kate cai em si quando, na festa, ao dizer para o marido que quase o presenteou com um relógio naquela semana, ele responde: “Mas eu gosto de não saber que horas são”. Aliás, repare em cada momento da cena da festa, porque é num deles – um momento decisivo, mas muito sutil – que o filme vai se encerrar. Piscou, perdeu. E garanto que você não vai querer perder.


Trailer


45 ANOS
(45 Years)
Inglaterra, 2015
Direção: Andrew Haigh
Com Charlotte Rampling, Tom Courtenay, Geraldine James
Distribuição: Imovision

16 comentários em “45 Anos”

  1. Amei! De tantas páginas de críticas, a sua é a mais coerente e tangível. Não costumo ler a Veja, mas já irei marcar nos meus favoritos. Eu precisei tomar um drink depois do filme…saí estarrecida…

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  2. Cara Isabela, fiquei tão feliz de encontrar seu blog hoje! Era leitora assídua das suas críticas na Veja.
    Sobre os 45 anos, a Katya estava grávida, não? Ou fui eu que vi demais?
    Acho que este filme, com Cidadão do Ano e Uma Nova Amiga estão entre os meus favoritos do ano.

    Um grande abraço e longa vida ao blog!

    Cláudia M.

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  3. So para deixar registrado que em “Boa noite, mamãe”, o terror-sensação austríaco, também há um momento “piscou, perdeu”, igualmente sutil, mas que pode alterar toda a percepção do filme. 🙂

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  4. Isabela, assim como o Antonival, sempre começo a Veja pela sua crítica. Sou muito sua fã. Suas resenhas são sensacionais. Gosto de ler antes e depois do filme. Você consegue captar filigranas que passam desapercebidas por nós mortais.A resenha de Longe desse insensato mundo é simplesmente maravilhosa. Esse 45 anos quero assitir já. Ah, e tô viciada no seu blog, maior achado do ano.

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  5. Que bom encontrar suas críticas de novo, Isabela! Vi “45 Anos” com altas expectativas (gosto muito do filme anterior de Haigh, “Weekend”), e ele me surpreendeu. O que foi esse final? Começou a música do The Moody Blues e eu não conseguia engolir, de tão forte! Me lembrou como a série Looking (em grande parte escrita e dirigida pelo Haigh) também acabou. Dê uma conferida!

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  6. Além da cena dos relógios que você citou, a direção se empenha em construir o “desmoronamento” da estabilidade do casamento de Kate de várias maneiras sutis, como na própria cena que ela vai escolher o salão de festas: “tão cheio de histórias. Como um bom casamento”, disse o anfitrião, algo que ela parecia estar ciente, mas que aos poucos não é bem assim.
    A cena final é de cortar o coração, mas nos deixa o ensinamento que precisamos administrar a arte de recomeçar. Sozinhos.
    Que paulada, Isabela!

    Curtido por 1 pessoa

  7. Caríssima Isabela, por longos anos iniciava a leitura de Veja, exatamente pelas suas críticas de cinema. Sou seu fã e, com certeza, estarei sempre acompanhando seus textos. Que bom!

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