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Beasts of No Nation

Continuo de olho em Cary Fukunaga. E em Idris Elba, claro.

Vai chegando a sexta-feira à noite, povo vai para casa pensando em pedir pizza (ei, eu sou paulista!) e assistir alguma coisa. E aí você se pergunta: mas será que é assim que eu quero começar o fim de semana, vendo um filme sobre órfãos recrutados como soldados por um miliciano louco em alguma guerra na África? Toda essa desgraça, toda essa violência?

Então vamos responder assim: você viu Sin Nombre? Não, provavelmente não, mas se tivesse visto não se arrependeria nem se esqueceria. Na estreia dele em longa-metragem, em 2008, o diretor Cary Fukunaga entrelaça duas histórias de maneira mesmerizante: a de Sayra, uma garota hondurenha que está atravessando o México e a Guatemala rumo aos Estados Unidos, e a de Casper, um menino que faz parte de uma gangue que vive justamente de roubar os imigrantes pobres durante a jornada deles. É belíssimo, surpreendente, inesperado – um desses filmes que fazem você se prometer que vai ficar de olho nesse diretor que ninguém conhece.

Não foi difícil ficar de olho em Cary Fukunaga. Digo só isso: True Detective – primeira temporada, claro.

E assim chegamos a Beasts of No Nation, que estreia hoje, sexta-feira 16 de outubro, no Netflix. Vou chover um pouco no molhado e lembrar que essa é a estreia do Netflix em produção de cinema, e que o plano era lançar Beasts ao mesmo tempo em streaming e em salas de exibição. Parte do plano falhou: as cadeias de cinemas americanas se recusaram a programar o filme. Só algumas salas independentes vão mostrá-lo.

A outra parte do plano, fazer um filme que seja tão forte na tela grande quanto na da TV, essa funcionou à perfeição. Fukunaga tem um dom especial: criar uma atmosfera em torno do espectador, fazer com que ele sinta que está na ação – como se fosse um personagem anônimo dela, que está sendo carregado pelos acontecimentos junto com os outros. É um jeito extremamente tátil, aliciador de filmar, que ele combina a uma encenação ultra sensorial: sabe quando você está num momento de sobressalto intenso, por exemplo achando que vai bater no carro à sua frente, e o tempo se dilata, e a sequência de eventos se deforma? É isso que eu quero dizer: cada sequência de Beasts of No Nation é uma espécie de set piece que você vê conforme a distorção psicológica do momento. Alguma das cenas são fortíssimas, não só por causa da violência, mas também por causa desse empuxo emocional.

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Para alguém que filma assim, não poderia haver ator melhor que Idris Elba: além de imensamente carismático, ele é capaz de modulações sutilíssimas de tom. É um desempenho tão rico, com uma topografia tão variada – e captado com tanto desvelo por Fukunaga –, que é impossível se desprender dele.

A história, essa é mesmo uma desgraceira: a vida de Agu (Abraham Attah), um menino de uns 12 ou 13 anos que mora numa aldeia em algum país da África Ocidental, desmorona no momento em que uma das eternas guerras civis da região bate à porta dele. Agu perde a família, foge, embrenha-se no mato e é então capturado pelo exército de meninos órfãos que cerca o Comandante (Idris Elba). O Comandante é imprevisível, volátil: é uma figura paterna para os meninos e, à sua maneira, cuida deles. Ao mesmo tempo, exige que eles se provem capazes da mesma violência e brutalidade que ele. Ameaça, seduz, conforta, pune – mas nunca se sabe qual dessas coisas ele vai fazer em dado instante.

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Me incomoda isso do país genérico da África Ocidental. Um crítico americano disse que é como fazer um filme sobre o Holocausto e situá-lo na “Europa”, e eu concordo: é uma tática redutiva, porque reforça o estereótipo – equivocado – de que todos os países dessa região da África se parecem entre si e as guerras civis e rebeliões que eles enfrentam são intercambiáveis. Pior: faz parecer, em alguns momentos, que Fukunaga está explorando com certo oportunismo um tópico tão emocional quanto o dos soldados-mirins. Mas coloco todo este parágrafo aqui sub judice. Antes de ter certeza que essa é uma opinião que se sustenta, preciso ver Beasts of No Nation de novo. Hoje mesmo, para começar o fim de semana com ele.


Trailer


BEASTS OF NO NATION
Estados Unidos, 2015
Direção: Cary Fukunaga
ComIdris Elba, Abraham Attah, Francis Weddey, Grace Nortey, Emmanuel Nii Adom Quaye

3 comentários em “Beasts of No Nation”

  1. Estou vendo Luther, série britânica com o Idris Alba e é muito boa recomendo.
    Me desculpe, não gosto de comentar assim, mas sou um escritor jovem e estou em um”treino literário”. Gostaria que você desse uma olhada e comentasse o que preciso melhorar. Afinal realmente quero melhorar e preciso de muito treino e muitas críticas.
    Me desculpa de novo se a incomodei, obrigado por ler. Tudo de Melhor Sempre.

    https://wordpress.com/stats/day/leitorcampos.wordpress.com

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  2. Assisti sábado e adorei.Idris Elba está ótimo e merece uma nomeação ao Oscar.Eu já havia gostado de “Sin Nombre” e “Jane Eyre” e Cary Fukanaga é um diretor muito talentoso.Gosto do último trecho do filme que o protagonista conversa com a assistente social.Uma cena que não sai da minha mente.Espero que “Beasts of No Nation” seja lembrado na temporada de premiações.

    Curtido por 1 pessoa

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