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Evereste

Por que ir ao limite? Porque ele está lá.

Adoro ler sobre pessoas que embarcaram (ou, às vezes, foram obrigadas a embarcar) em aventuras extremas.

Por exemplo, as expedições de Roald Amundsen e Robert Scott ao pólo Sul, Ernest Shackleton e a perda do Endurance na Antártica, Richard Burton (não, não o ator) e a busca pela nascente do Nilo, naufrágios como o do baleeiro Essex, que virou o livro e agora o filme No Coração do Mar (e inspirou o Moby Dick de Herman Melville). “Por quê?” é sempre a primeira pergunta que se faz alguém que (como eu) não tem a menor inclinação para façanhas como essas: por que algumas pessoas têm essa ânsia de se submeter aos desafios mais terríveis e ao sofrimento físico indescritível para chegar ao limite – ou, no caso dos naufrágios, por exemplo, como é possível resistir tão além do que se imagina ser viável? Um dos méritos de Evereste, a meu ver, é que o filme do diretor islandês Baltasar Kormákur é, todo ele, um grande “por quê?” – mas sabe que essa pergunta necessariamente tem de ficar sem resposta, e que a única explicação cabível para esse desejo de conquistar o Evereste é a que o inglês George Mallory deu em 1924: “Porque ele está lá”.

A expedição de 1924 foi a última de Mallory. Seu corpo está lá, perto do cume da montanha mais alta do mundo, há 91 anos, junto com outras duas centenas de corpos que nunca poderão ser recolhidos – alguns, ocultos em fendas ou sob desmoronamentos e avalanches, nunca poderão ser sequer localizados. Entre 10 e 11 de maio de 1996, outros oito montanhistas se juntariam a Mallory no gelo. Até o final da primavera de 1996, a conta subiria para doze mortes, o saldo mais drástico de uma temporada no Evereste até o terremoto que, neste ano, provocou uma avalanche que pegou em cheio o Acampamento Base.

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Essa é a história que o islandês Kormákur (do excelente Sobrevivente) conta: a do acúmulo de pequenos erros, decisões banais e casualidades que, combinados a uma tempestade que começou a varrer o Evereste no meio da tarde de 10 de maio, resultaria em uma tragédia de tais proporções. Entre as vítimas de 1996 incluem-se os líderes das duas expedições comerciais mais competentes do Evereste, o neozelandês Rob Hall (interpretado por Jason Clarke), da Adventure Consultants, e o americano Scott Fischer (Jake Gyllenhaal), da Mountain Madness, além de clientes, guias e sherpas de ambos. A conta poderia ser ainda maior: o médico americano Beck Weathers (Josh Brolin), cliente da Adventure Consultants, foi dado como morto e deixado num banco de gelo. Quase dois dias depois, acordou e conseguiu andar sozinho até o acampamento mais próximo, embora tenha perdido as duas mãos, alguns dedos dos pés e parte do rosto para o frostbite.

Não há competência visual que seja capaz de expressar a brutalidade fisiológica que é uma ascensão ao cume do Evereste, 8 848 metros acima do nível do mar. Além dos 8 000 de altitude está-se na chamada “zona da morte” – não só porque é nessa região que se concentram os montanhistas que nunca deixarão a montanha, mas porque nela o organismo humano começa a ceder vertiginosamente aos efeitos da escassez de oxigênio. Os problemas se multiplicam de forma exponencial: não só a atmosfera paupérrima em oxigênio pode induzir edema pulmonar, edema cerebral (ambos potencialmente fatais) e alucinações, como torna o organismo drasticamente menos apto a lutar contra esses ataques. Dou essa “aulinha” aqui porque, embora Evereste se saia muito bem como um drama/aventura clássico, falta a ele a especificidade do Evereste: por que essa subida é tão simbólica; por que pode ser tão mais letal que a do K2, por exemplo, que está ali ao lado e não é tão mais baixo (atinge os 8 611 metros); por que seu trecho final, o Hillary Step (em homenagem a Sir Edmund Hillary, que junto com Tenzing Norgay primeiro atingiu o cume, em 1953), uma face de rocha de apenas doze metros, derrota tantas tentativas de chegar ao topo?

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Todas essas respostas e o material da “aulinha” do parágrafo acima, mais o sofrimento extremo que o Evereste cobra dos montanhistas, podem ser encontrados com riqueza de detalhes em No Ar Rarefeito, que o escritor Jon Krakauer lançou apenas seis meses após a tragédia. Krakauer, que integrava a expedição de Rob Hall e chegou ao topo naquele 10 de maio (no filme, ele é interpretado por Michael Kelly, o Doug Stamper de House of Cards), tentou reconstituir todos os passos da tragédia em seu livro-investigação. Tem a precisão da reportagem, mas também o luto pessoal, a indignação, pela perda de tantas pessoas de quem se tornara próximo. É uma leitura fascinante, não raro perturbadora, e provocadora também: Krakauer argumenta que a popularização do Evereste entre montanhistas amadores, que sobem conduzidos por esportistas excepcionalmente talentosos, como o eram Rob Hall e Scott Fischer – os pioneiros nessa “comercialização” da montanha –, torna tragédias como a de 1996 inevitáveis. Sua proposição: se fosse proibido o uso de tanques de oxigênio auxiliar na subida, muito se faria para evitar mortes. Parece paradoxal, mas faz sentido: se o montanhista não consegue chegar aos 8 848 metros com seu próprio (e singularmente excepcional) fôlego, então provavelmente o topo do mundo não, nem nunca será, lugar para ele.


Trailer


EVERESTE
(Everest)
Inglaterra/Estados Unidos/Islândia, 2015
Direção: Baltasar Kormákur
Com Jason Clarke, Josh Brolin, Jake Gyllenhaal, John Hawkes, Ang Phula Sherpa, Sam Worthington, Naoko Mori, Pemba Sherpa, Emma Watson, Michael Kelly
Distribuição: Universal

11 comentários em “Evereste”

  1. este filme Everest (sem o e final – porque está errado) é uma verdadeira loucura. é como vc diz: só vai quem quer mesmo que a adrenalina chegue ao pico!
    fiquei meio tonto de ver esta gente querendo subir cada vez mais.
    lia as suas criticas no jornal e hoje uma amiga me deu seu blog.
    você é uma excelente critica de cinema.
    parabéns.
    oscar colucci

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  2. Isabella, sou do seu time. Me sinto mau só de me imaginar em situações como as presente em “Evereste” ou “A Travessia”, até evito esse tipo de filme. Na terra bem firme, noticio que já estou te seguindo aqui. Sinto falta apenas de vê-la em vídeo, mesmo discordando de algumas de suas análises, acho que sempre se saiu muito bem diante das câmeras.

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  3. Leio suas críticas a vários anos e saber que agora tem um blog é uma enorme satisfação e alegria para acompanhar umas das maiores críticas de cinema do país. Sucesso nessa empreitada, continue postando sempre sobre filmes, séries, atores e atrizes do momento, etc… Não pare por favor, pois somos carentes demais de críticos ótimos como você, não suporto tantas pessoas que se consideram críticos e ficam postando sem parar nessa era de internet, sem conteúdo significante, opiniões rasas, sem conhecimento de causa. No que eu puder ajudar para o sucesso do blog farei ao máximo…

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