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Gemma Bovery

Alma literária

Gemma Bovery brinca com o clássico quase-homônimo de Flaubert, e prova que ninguém perde em beber de boa fonte.

Não é de nascença, mas pelo casamento, que Gemma Bovery se tornou quase homônima de uma das mais célebres personagens da literatura mundial – a Emma Bovary criada pelo escritor Gustave Flaubert no romance de 1857.

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Ainda assim, Martin, o padeiro do vilarejo na Normandia para o qual a inglesa Gemma se mudou, insiste em adivinhar na sua nova vizinha a mesma trágica insatisfação da protagonista de Madame Bovary, que recorria a futilidades e a vazios casos adúlteros para escapar da vidinha provinciana e do casamento monótono. Se Martin vê Gemma andando pelas trilhas, pensa em solidão e descontentamento; se ela aparece na janela de casa, olhando ao longe, ele pensa em desejos recônditos, em vontade de se libertar. Martin, interpretado por Fabrice Luchini, um dos mais habilidosos atores franceses, pensa em outras coisas também quando olha as curvas frescas e generosas da forasteira – “lá se vão dez anos de tranquilidade sexual”, suspira ele ao ver Gemma metida em um vestido de verão. Gemma Bovery (a inglesa Gemma Arterton) de fato não é perfeitamente feliz. Casou-se no rebote de um fim de caso, foi trazida para um país cuja língua não fala e mora numa casa cheia de goteiras. Mas o verdadeiro descontente em Gemma Bovery – A Vida Imita a Arte é Martin, o parisiense que caiu na ilusão de curtir a aposentadoria no campo mas acha a província uma chatice sem tamanho, que só quando sova a massa dos seus pães sente algum prazer sensual e que é um viciado na fuga proporcionada pela leitura de romances – começando, claro, pelo clássico de Flaubert. É Martin, enfim, a verdadeira Emma Bovary desta história.

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Já no título, a comédia da diretora Anne Fontaine (de Coco Antes de Chanel) entrega tanto sua matriz quanto o espírito em que a utiliza: é ao mesmo tempo uma adaptação e uma brincadeira – um trocadilho, mesmo – com o livro de Flaubert. Pode-se imaginar que só funciona para quem está familiarizado com a obra desde os bancos da escola. Mas trata-se de um raciocínio equivocado: os grandes clássicos da literatura em geral atingem esse status e se tornam parte da cultura corrente justamente pela maneira como expõem ou examinam elementos universais da natureza humana. É possível (ainda que não seja desejável) nunca ter lido Madame Bovary, ou a Anna Karenina de Tolstói, que a diretora usa no desfecho de seu filme, e mesmo assim reconhecer os temas fundamentais de que esses livros tratam – a inquietude tolhida pelas normas, a pequenez da vida cotidiana, o abismo irreconciliável entre o desejo e a realidade. E essa é a razão por que essas obras definitivas não se prestam só às adaptações tal e qual: são matéria-prima que pode ser moldada de mil maneiras diferentes e ainda assim reter a sua natureza.

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Um exemplo surpreendente está em As Patricinhas de Beverly Hills, uma comédia de high school da diretora americana Amy Heckerling: entre tantas adaptações esmeradas de época já feitas do Emma de Jane Austen, esta é a mais atilada e a que mais profundamente compreende as personagens e as suas circunstâncias – muito embora a autora nem sequer seja citada nos créditos. O mesmo ocorre em O Diário de Bridget Jones, uma deliciosa reimaginação contemporânea de Orgulho e Preconceito, a obra máxima de Austen. Ou, por exemplo, em Trocando as Bolas, uma comédia de 1983 com Eddie Murphy e Dan Aykroyd, que é na verdade a história arquetípica de O Príncipe e o Mendigo, de Mark Twain, acrescida de um choque de realidade (e de cinismo). Quem nunca achou fôlego para ler as mais de 2 000 páginas de Guerra e Paz pode se iniciar na magnum opus de Tolstói de forma algo surreal, mas nem por isso menos eficaz: basta ver A Última Noite de Boris Grushenko (1975), uma das melhores comédias da carreira de Woody Allen – onde o diretor de quebra dá umas pinceladas também em Os Irmãos Karamázov, de Dostoievski. Já conhece Hamlet de trás para a frente? Então divirta-se identificando as ligações sutis que John Cusack faz com a peça em Matador em Conflito, de 1997. Ou assista à única versão da Tempestade de Shakespeare que não resulta frustrante: a história está toda lá em Planeta Proibido, de 1956, um clássico da ficção científica por direito próprio. Não há adptação, seja ela literal ou aliterante, que substitua o prazer da leitura do original. Mas Gemma Bovery, tão ligeiro e brincalhão, prova que ninguém, nem o realizador nem o espectador, tem como perder quando se bebe dessa fonte.


NÃO PARECE CLÁSSICO, MAS É

A arte da adaptação que, embora disfarçada, faz jus ao espírito do original


AS PATRICINHAS DE BEVERLY HILLS (1995)

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A história: Cher (Alicia Silverstone) é rica, mimada e narcisista, mas não é má pessoa. Tanto que decide fazer uma boa ação e transformar em “popular” a desajeitada Tai (Brittany Murphy) – no que mete os pés pelas mãos, aprende umas tantas coisas e compreende como é interessante o irmão postiço (Paul Rudd), que sempre achou velho e chato

Na verdade… é a adaptação mais inteligente, espirituosa e criteriosa de todas as muitas já feitas do romance Emma, de Jane Austen


10 COISAS QUE EU ODEIO EM VOCÊ (1999)

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A história: para poder namorar a menina de que gosta, um menino precisa antes cumprir uma condição – encontrar alguém disposto a namorar a irmã mais velha dela, Katarina (Julia Stiles), a garota mais brava da escola. Patrick (Heath Ledger) topa, mediante suborno; mas então descobre que verdadeiramente gosta de Katarina

Na verdade… trata-se da peça A Megera Domada, de Shakespeare, transposta com graça (e com o carisma do então estreante Ledger) para um subúrbio de Seattle


E AÍ, MEU IRMÃO, CADÊ VOCÊ? (2000)

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A história: no Sul americano dos anos 30, Ulysses McGill (George Clooney) foge da prisão com dois outros trapalhões para buscar um tesouro enterrado e para evitar que sua mulher, Penny (Holly Hunter), aceite outros pretendentes. Um cego vaticina que eles viverão grandes aventuras, um grandalhão de tapa-olho os ameaça, três lavadeiras tentam seduzi-los com seu canto

Na verdade… o filme dos irmãos Coen é, sem tirar nem pôr, a Odisseia do poeta grego Homero


A MENTIRA (2010)

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A história: para não ter de admitir que é virgem, Olive (Emma Stone) inventa uma noite de sexo com um rapaz que ninguém conhece. Mas a mentira se espalha e traz consequências inesperadas: se por um lado a facção conservadora da escola milita pela sua expulsão, por outro os alunos mais moderninhos passam a considerá-la um ícone

Na verdade… essa comédia deliciosa ao mesmo tempo vira do avesso e homenageia A Letra Escarlate, de Nathaniel Hawthorne, sobre uma adúltera ostracizada em seu vilarejo

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 05/08/2015
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2015

Trailer


GEMMA BOVERY — A VIDA IMITA A ARTE
(Gemma Bovery)
França/Inglaterra, 2014
Direção: Anne Fontaine
Com Fabrice Luchini, Gemma Arterton, Jason Flemyng, Isabelle Candelier, Mel Raido
Distribuição: Mares Filmes

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