divulgação

Rainha & País

Deus salve o passado

Rainha & País retrata as crises do pós-guerra.

Aos 9 anos, ainda de posse daquela ingenuidade que frequentemente é uma das mais cortantes ferramentas críticas acerca do mundo adulto, o pequeno Bill Rohan foi um protagonista memorável para Esperança e Glória, o filme de 1987 no qual o diretor John Boorman recuperava, com alguma ficcionalização, sua experiência aventuresca de crescer na Londres sob os bombardeios nazistas da II Guerra. Um observador por excelência, como convém a um futuro cineasta, Bill reaparece agora, aos 18 anos, em Rainha & País (Queen and Country, Inglaterra, 2014), já em cartaz. E a guerra, tão definidora de todos os aspectos da vida inglesa mesmo décadas após o seu término – do infindável racionamento de alimentos à reação representada pela revolução pop dos anos 60 –, dita também os rumos mais comezinhos da vida de Bill (Callum Turner): convocado pelo Exército, ele não é mandado para lutar na Coreia, como imaginava. Junto com seu inseparável amigo de caserna, o baderneiro Percy (Caleb Landry Jones), recebe a incumbência de permanecer no quartel e tocar as aulas de datilografia dos novos recrutas.

queen&country_mat1

Entediados e exasperados com as regras da caserna, os dois exercitam seu inconformismo de várias maneiras possíveis. Algumas, inocentes, como roubar um velho relógio presenteado pela rainha Vitória, ou tomar lições de ócio e esquiva com o mais notório faz-nada do quartel. Uma de suas brincadeiras, porém, revela-se funesta. Ao voltar o código militar contra o o superior (David Thewlis) que os atormenta com seu conhecimento em prosa e verso de todos os artigos nele contidos, os rapazes provocam no sujeito um tristíssimo colapso: veterano das duas grandes guerras e gravemente traumatizado desde a primeira delas, o superior tinha no seu apego aos verbetes e alíneasa única forma de manter alguma sanidade.queen&country_mat2

Mas que sanidade poderia haver em um sistema nascido de um mundo já desaparecido se o mundo inteiro estava se transformando de dentro para fora, indaga John Boorman, hoje com 82 anos? As garotas em torno das quais Bill e Percy orbitam – a aristocrática e deprimida Ophelia (Tamsin Egerton) e a pragmática e alegre Sophie (Aimee-Ffion Edwards) –, os filmes que eles veem, a independência sexual da irmã de Bill (Vanessa Kirby), tudo em volta deles é um sinal de uma Inglaterra que logo estaria radicalmente mudada, e na qual a coroação da rainha Elizabeth II, em 1953, é vista pelos protagonistas como um desfile curioso, ou como um símbolo vazio de um poder irremediavelmente perdido na década anterior, posto por terra pelas bombas alemãs junto com tantos quarteirões de Londres. Essa é, evidente, a sensação que Bill experimenta, não o saldo dos fatos: com sua graça, sua nostalgia e sua empatia, Rainha & País acaba por ressaltar muitas coisas mais nas quais a Inglaterra de ontem poderia reconhecer a de hoje. Entre elas, a extraordinária capacidade de mudar junto com os tempos – e de se divertir enquanto o faz.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 01/07/2015
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2015

Trailer


RAINHA & PAÍS
(Queen and Country)
Irlanda/França/Romênia, 2014
Direção: John Boorman
Com Callum Turner, Caleb Landry Jones, David Thewlis, Richard E. Grant, Tamsin Egerton, Aimme-Ffion Edwards
Distribuição: Paris Filmes

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s