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Jurassic World

Ops, eles mordem

O enredo é batido, mas funciona: em Jurassic World, um grupo de iludidos de novo acha que turistas podem conviver com dinossauros sem virar refeição.

A definição da loucura, diz-se, é repetir uma mesma ação vez após outra esperando que ela ofereça resultados diferentes. Nesse sentido ao menos, John Hammond – o bilionário que primeiro idealizou o Parque Jurássico – e seus sucessores são doidos de carteirinha: vivem tentando promover a convivência turística entre seres humanos e dinossauros achando que desta vez, quem sabe, ela não vai chegar ao seu desfecho inevitável – com os turistas aos pedaços entre os dentes dos animais. Já Steven Spielberg e os outros produtores que desde 1993 se associaram à franquia Jurassic Park, esses de loucos não têm nada: sabem que uma ação, repetida, tende a produzir os mesmos resultados, e que sempre que seres humanos viram comida de tiranossauros e velociraptores os cinemas se enchem para ver o espetáculo. Jurassic World – O Mundo dos Dinossauros (Jurassic World, Estados Unidos, 2015), já em cartaz no país, assume sem pudor essa regra, e explica por que o faz.

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Vinte e dois anos após os eventos que determinaram o fechamento do Parque Jurássico antes mesmo de sua inauguração, o Mundo Jurássico, instalado na mesma Isla Nublar do original, é um sucesso tremendo. Multidões vão à Costa Rica para andar no lombo de herbívoros mansos, abraçar filhotes de apatossauros, percorrer os habitats em monotrilhos ou dentro de engenhosos carrinhos esféricos, ou, sobre passarelas instaladas a distância segura, assustar-se com a ferocidade dos carnívoros. Há até um show aquático, no qual um colossal mosassauro abocanha tubarões em pleno ar. O problema é que, depois de uma década de funcionamento regular, nada disso é mais novidade. Para impulsionar a frequência, é preciso oferecer algo diferente, maior – por exemplo, o Indominus rex, um super-predador feito a partir do DNA do tiranossauro e mais uns tantos genomas não revelados. Esse exemplar único (ele devorou sua irmã ainda na infância) é considerado uma aposta segura pelos iludidos de praxe – a executiva que administra o parque (Bryce Dallas Howard), o cientista que criou o híbrido (B.D. Wong) e o bilionário idealista que sucedeu a John Hammond no projeto (Irrfan Khan) –, mas enche de temor a única pessoa que realmente conhece os dinossauros de perto. Owen Grady (Chris Pratt), um ex-militar que vem obtendo algum êxito no treino de velociraptores, sabe que o instinto de um predador sempre vai prevalecer, e que a fêmea de Indominus, dona de uma inteligência notável, é uma catástrofe esperando para acontecer. Dito e feito, claro.

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Da armação desse cenário ao massacre que se segue, Jurassic World retoma todos os temas do Jurassic Park de 1993 (as continuações de 1997 e 2001 foram descartadas do enredo): o casamento mal ajustado de tino empresarial com ímpeto visionário, os riscos da manipulação genética, a natureza que se volta contra os que presumem poder domesticá-la, a família em perigo – de novo, duas crianças, os irmãos Zach e Gray (Nick Robinson e Ty Simpkins), serão apanhadas em cheio pela confusão. Mas admite explicitamente que aquilo que encantou a plateia em 1993 hoje já é carne de vaca, e por isso está apresentando a ela o ferocíssimo Indominus – e, de quebra, satiriza a índole corporativa desse tipo de empreendimento ao mesmo tempo em que ganha dinheiro com ela: o Mundo Jurássico, como qualquer outro parque temático real, não perde uma oportunidade que seja de propagandear marcas. Tão fiel é a refeitura do filme original que pode-se apostar, sem medo de erro, que essa insanidade não tem cura: de novo alguém vai investir uma fortuna no parque dos dinossauros – e de novo esse alguém vai esquecer de combinar com os dinossauros que não, os turistas não fazem parte da refeição.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 17/06/2015
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2015

Trailer


JURASSIC WORLD: O MUNDO DOS DINOSSAUROS
(Jurassic World)
Estados Unidos, 2015
Direção: Colin Trevorrow
Com Chris Pratt, Bryce Dallas Howard, Irrfan Khan, Vincent D’Onofrio, Ty Simpkins, Nick Robinson
Distribuição: Universal

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