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007 – Operação Skyfall

O Bond do tigrão.

Em Operação Skyfall, 007 a toda hora ouve que está velho e obsoleto. Pura provocação: este é o melhor dos filmes da série, e Daniel Craig agora é dono absoluto do personagem.

Meio morto de cansaço e com um tiro no ombro, James Bond salta para dentro do vagão de trem que acabou de abrir ao meio com uma escavadeira – mas, antes de partir para cima do sujeito que está perseguindo, para e dá aquela puxadinha curta no punho da camisa para alinhá-la com a manga do paletó. E assim, mais ou menos aos dez minutos de 007 – Operação Skyfall (Skyfall, Inglaterra/Estados Unidos, 2012), fica decidido: Daniel Craig é James Bond. Em cinquenta anos de história, 22 filmes (este, desde sexta-feira em cartaz, é o 23º), 13 bilhões de dólares de bilheteria e seis intérpretes, só de Sean Connery se pôde dizer isso. George Lazenby e Timothy Dalton foram Bonds ruins; Pierce Brosnan foi um bom Bond; Roger Moore foi Bond para uma facção dos fãs, mas nunca chegou a convencer o restante deles; e, em Cassino Royale, de 2006, e Quantum of Solace, de 2008, Craig fora um Bond excelente. Agora, porém, ele é tão dono do personagem quanto Connery jamais o foi, e o compreende melhor do que qualquer outro. Aí entram os múltiplos significados da ajeitada na roupa. Primeiro, Bond é um profissional consumado, e o terno é o seu uniforme de trabalho – respeito com ele. Bond desfruta o perigo e está em seu elemento natural em situações de risco – de forma que mesmo um momento extremo lhe é longo o suficiente para acomodar não só decisões estratégicas como também gestos corriqueiros. Bond jamais vai dar a um oponente a satisfação de perceber-lhe pressionado – e por isso prefacia a violência com uma demonstração de calma e arbitrariedade. E Craig nunca se divertiu tanto com Bond – e, assim, escolhe justamente o instante mais decisivo para dar uma piscadela para a plateia e lembrá-la de que nem o personagem nem o seu intérprete se levam a sério demais, e aí está sua virtude essencial.

Não se levar a sério não significa encarar o trabalho com leviandade. Bem ao contrário: Skyfall transpira o empenho concentrado de seu impressionante plantel de talentos em destilar o apelo de Bond, despi-lo de todo o supérfluo e devolvê-lo então à cena em sua forma mais pura. Bond é dado como morto, e cogita aproveitar a deixa para retirar-se da ativa em definitivo. Uma explosão atinge o quartel-general do MI6, a Inteligência britânica. M (Judi Dench), a chefe do MI6, não estava no prédio: a intenção era que ela assistisse impotente ao atentado e às mortes que ele provoca. Bond, que tem uma relação conturbada e freudiana com essa figura materna, retorna: é preciso caçar o elusivo Silva (Javier Bardem), o responsável pelo atentado, que tem contas ainda mais tortuosamente edipianas a acertar com M.

Como visto em Onde os Fracos Não Têm Vez, Bardem tanto mais brilha quanto pior seu penteado – e Silva, com sua cabeleira oxigenada e escovada, é um vilão para fazer história. Antes de mais nada, porque o roteiro lapidar de John Logan joga pela janela todos aqueles tolos planos de dominação mundial e caçadas a artefatos tecnológicos: Silva é um ciberterrorista, uma criatura contemporânea que age a distância e almeja não qualquer espécie de nova ordem, mas a anarquia geral e o seu proveito particular. Depois porque, na interpretação de Bardem, tudo para Silva é pessoal. “O que diz o protocolo sobre situações inéditas como esta?”, ronrona Silva, acariciando as coxas de Bond rumo a regiões cada vez mais indiscretas. “E quem disse que esta é a primeira vez?”, devolve Bond. Um 007 em que a cantada mais erótica é de homem para homem – o mundo realmente mudou.

Quando Sean Connery se anunciou como “Bond, James Bond” pela primeira vez, em 007 Contra o Satânico Dr. No, o mundo acabara de entrar na era do jato e da pílula anticoncepcional e União Soviética e Estados Unidos estavam à beira do confronto nuclear com a crise dos mísseis de Cuba. No universo da ambição masculina, vivia-se uma fase heroica: grandes apostas, grandes gestos, grandes riscos. Um sujeito como Bond nunca ouviria a palavra “protocolo” – e não é por coincidência que, à parte a licença para matar, a melhor retradução do personagem clássico é hoje o Don Draper da série Mad Men. O Bond de cinco décadas adiante vive em um outro mundo, no qual M tem de prestar contas publicamente ao Parlamento e Bond precisa passar por uma versão extrema do check-up empresarial para reaver sua licença. A toda hora, alguém ameaça decretar sua obsolescência: Bond tem mais de 40, e a fila quer andar. O seu, enfim, é um mundo no qual o risco das decisões executivas é tolhido e escrutinado pelo sentimento corporativo de autopreservação mesmo quando se reconhece sua necessidade. Os homens da década de 60 adorariam ser playboys internacionais, como Bond. Os homens – e as mulheres – desta década dispõem de farto material, em Skyfall, para continuar invejando esse aspecto da vida do agente secreto. Mas têm também razões para se identificar com sua frustração profissional.

Nada é mais invejável, contudo, que o solene desplante de Bond para com a opinião ou as regras alheias – e Craig, no seu mais propulsivo, enche o personagem de vigor em vista da oportunidade de uma operação clandestina para eliminar Silva e salvar M. Entrar na clandestinidade, no caso, implica retornar ao básico: quando Q, agora não mais um engenheiro de jaleco mas sim um nerd petulante (Ben Whishaw), lhe entrega apenas uma arma e um pequeno transmissor de rádio, o filme ganha uma excitação ímpar: sem canetas explosivas nem outras engenhocas absurdas, Bond só pode contar com a própria inteligência e audácia, mais um pente de balas e um velho Aston Martin DB5 prateado (o mesmo de Connery, homenageado aqui de mil maneiras sutis). Há locações em Istambul, Xangai e Macau, além de um epílogo fabuloso na Escócia; mas o grosso da ação se passa em Londres, em outra manifestação bem-vinda do desejo de readquirir a essência do personagem criado pelo inglês Ian Fleming.

Fleming, celebremente, fora ele próprio espião. Menos conhecido é o fato de que também o roteirista de Dr. No, Richard Maibaum, passara pelo cinema americano de esforço de guerra, uma divisão das Forças Armadas, e que o produtor Harry Saltzman, coproprietário da série com Albert “Cubby” Broccoli, fora do departamento de guerra psicológica. A franquia 007 começou, portanto, atiçando o público com aqueles fetiches curvilíneos da década de 60, mas seus ossos eram sólidos: o conhecimento combinado, de agentes de três procedências, sobre os meandros da espionagem. Em Skyfall, a preocupação com atualidade e verossimilhança volta a figurar entre os componentes fundamentais de um filme de James Bond. E, na direção estupenda de Sam Mendes, surge uma outra prioridade ainda: o realismo da dramaturgia.

Mendes, que em 2000 ganhou o Oscar por Beleza Americana, de início foi tido como uma escolha idiossincrática (Craig, que trabalhou com ele em Estrada para Perdição, ofereceu-lhe o emprego que não tinha autoridade para oferecer depois de uns drinques a mais, mas a iniciativa foi comemorada por Barbara Broccoli e Michael G. Wilson, herdeiros da franquia). Mendes, porém, orquestra as cenas de ação com o deleite que só um diretor que raramente encontra chance de fazê-las poderia ter. E, sob seu comando seguro, Craig adensa o agente secreto em direções inesperadas. Fica a par e passo com os outros ótimos desempenhos (todos, na verdade, descontada a Bond girl da francesa Bérénice Marlohe, linda mas nem de longe tão envolvente quanto a Eva Green de Cassino Royale). Judi Dench, Javier Bardem, Ben Whishaw, Naomie Harris, Albert Finney e Ralph Fiennes – que passará a ter função decisiva na série daqui por diante – se excedem. No conjunto, 007 nunca pareceu ao mesmo tempo tão ele mesmo e tão novo e original. Para a MGM, que nos quatro anos desde o último filme entrou em processo de falência, viu todas as marcas sob seu domínio ficarem em situação de incerteza e teve então de se reorganizar, não poderia haver notícia mais tranquilizadora (tanto que seu astro já está com contrato assinado para mais dois filmes). Mais ainda porque, se Cassino Royale fora uma estreia explosiva para Craig, Quantum of Solace foi recebido com entusiasmo sensivelmente reduzido: rodado sem um roteiro fechado e duro no tom – Bond perdera sua amante e estava enraivecido e deprimido –, o segundo episódio de Craig deixava entrever algo do desconforto do ator com um papel que lhe conferira notoriedade além do negociável. Essa fase passou: Craig agora ama Bond, e seu amor é plenamente correspondido. Só resta à plateia, portanto, apaixonar-se por um e outro também.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 31/10/2012
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2006

Uma consideração sobre “007 – Operação Skyfall”

  1. Um Presente Que Caiu do Céu

    Feliz Aniversário, Mister Bond.

    Surpresa: o Melhor Filme de toda a série 007 é o mais simples e despretensioso, coroando meio século de aventuras no cinema do espião mais divertido do mundo

    Relatório do agente duplo Ernesto Ribeiro

    MILAGRE: um filme de James Bond com personalidade própria. Corajoso. Feroz e furioso. Cortesia do diretor Sam Mendes, que não se intimidou com as limitações artísticas de uma série para entretenimento e vestiu a camisa dos filmes de ação. Eis a diferença no trabalho de um cineasta autoral: a câmera mostra toda a bela cinematografia em planos duradouros, especialmente o final, nas paisagens impressionantes da Escócia, num desfecho atípico, visceral, diferente de todos os outros filmes da série. A seqüência da viagem de carro na estrada adentrando o território escocês é uma verdadeira transição mágica: de repente, a narrativa lembra um road movie com a música transfigurando o clima em acordes oníricos.

    Numa comparação com os anos 80: o diretor John Glen, que realizou 4 filmes consecutivos da série e se definia como “um homem de trabalho duro da TV” que sempre cumpre todos os prazos, de fato concentrava-se na máxima eficiência técnica, sem muita inspiração artística. Sam Mendes superou-o em seu próprio jogo: alcançou o ápice da perfeição técnica e se esmerou na beleza artística. A cinematografia das cenas em Shangai lembra muito o que Blade Runner poderia ter sido.

    Talvez o maior feito de SkyFall seja essa proeza da humanização: finalmente os personagens da série desceram do pedestal e se tornaram pessoas comuns, expostos a situações comezinhas, onde são flagrados com fino humor. Quando M reclama que o interior do carro clássico Aston Martin é horrivelmente desconfortável, 007 ameaça ejetá-la do automóvel em plena corrida. O vilão Silva é simultaneamente trágico, assustador e engraçado. O próprio James Bond enfim se torna amigável até com os inimigos, quando numa luta num cassino em Macau tenta poupar um adversário de ser devorado por um dragão de Komodo. Bond finalmente se torna um cara sem afetação e vulnerável em seus vícios: álcool, pílulas e outras substâncias.

    A música de Thomas Newman cumpre a missão: mantém a emoção no máximo sem ocupar espaços nem distrair com temas de fanfarra, mas apenas eletrizando as cenas. É a trilha sonora ideal para a eficiência do melhor cinema de ação do século 21.

    A melhor parte é a esplêndida vinheta dos créditos de abertura criada por Daniel Kleinman, uma obra de arte tão linda e extraordinária como um sonho, com imagens arrebatadoras num visual de encher os olhos ao som da magnífica canção de Adele. Numa interpretação passional, com arranjo monumental e num toque de piano perfeitamente cadenciado, ela se entrega por inteiro, nos inspirando os sentimentos mais fortes, do encanto entusiasmado até a mais funda melancolia — e sem deixar que pese demais na canção a sensação de desespero e depressão que o personagem estaria sentindo ao cair do céu para o fundo das águas e experimentar a passagem do fim da vida para a morte. Basta ver a letra e entender o que Adele diz sobre a alma do agente em seu momento mais dramático. É o limite final, na hora da verdade.

    para humilhar os heróis do filme, a comparação do quesito “performance” é ainda mais vantajosa para o vilão Silva (nome real: Tiago Rodriguez) na interpretação brilhante e poderosa de Javier Bardem, numa atuação de altíssimo nível, compondo de longe o Melhor Vilão de toda a série James Bond em 50 anos. É disparado o melhor ator em cena. SkyFall é uma delícia de festa para Bardem, que domina todas as cenas e rouba o filme inteiro.

    Nunca, jamais se viu um vilão estabelecer uma empatia tão completa, simples e direta com a platéia. Nós entendemos perfeitamente toda a motivação dele, seu sofrimento e desespero. Javier Bardem consegue nos passar todo o sentimento e paixão de seu personagem, com uma densidade emocional e profundidade psicológica digna de Marlon Brando e com uma força descomunal até mesmo em papéis dramáticos sérios. O desfecho da tragédia de Rodriguez na seqüência final de ação é um clímax apoteótico de drama teatral, arrepiante e assombroso até para os corações mais fortes. Colossal!

    Esqueça tudo o que você já viu em matéria de vingança. Ao contrário dos outros vilões, ele não deseja matar o herói, mas convencê-lo de que os dois estão no mesmo barco, revelando verdades sobre o Serviço Secreto que o próprio Bond desconhecia. Inclusive sobre o abandono de M, a quem ele chama de “Mãe”. Numa das atuações mais intensas e viscerais da História do Cinema, Javier Bardem consegue até mesmo fazer o seu personagem Silva se equiparar ao Coringa de Heath Ledger em Batman — O Cavaleiro das Trevas. Raras vezes se assistiu uma atuação como esta, digna de um Oscar de Melhor Ator em qualquer época. Bravo!

    O enredo original escrito por Peter Morgan e desenvolvido por mais 3 roteiristas mantém a tensão no máximo, com o espectador grudado na tela. Assistindo logo na primeira vez, já temos um mapa mental do roteiro. É sem dúvida a estória mais concisa e enxuta de um filme de 007.

    Há 50 anos, este homem caminha sob a mira do inimigo oculto, para em seguida atirar contra a câmera e banhá-la de sangue. Missão cumprida. SkyFall é a coroação definitiva de uma criação magnífica, celebrando meio século de aventuras do melhor espião do mundo com seu trabalho mais corajoso. Em termos artísticos, 007 Operação SkyFall é o MELHOR filme de James Bond.

    Para assistir muitas vezes. Este é mesmo um feliz aniversário. Parabéns, agente.

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