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Orgulho e Preconceito e Zumbis

Todos amam Jane. Até os mortos-vivos

Orgulho e Preconceito e Zumbis, que mistura o texto original de Jane Austen a uma praga de criaturas hediondas, é uma prova de que a modernidade não afeta os artistas verdadeiramente imortais

Jane Austen morreu em 1817, aos 41 anos. Logo antes de expirar, disse que nada mais necessitava da vida que não a morte. Talvez fosse resignação, talvez fosse vaidade. Em uma célebre carta a um sobrinho, anos antes, a escritora descrevera seu trabalho como o de alguém que pinta “com um pincel finíssimo sobre um pedacinho de marfim, produzindo quase nenhum efeito depois de muita labuta”. Era, enfim, uma autora de perfeccionismo intransigente – e, sendo também dona de um senso crítico implacável, é quase certo que estivesse segura da marca que, não obstante a morte precoce, deixaria na literatura: um livro incompleto, por causa da saúde em declínio; cinco romances perfeitos; e um romance sublime, Orgulho e Preconceito. Em seu breve período produtivo, Jane fora já muito festejada. Nos quase 200 anos desde sua morte, alcançou uma envergadura só um pouco menor que a de William Shakespeare: é a escritora obrigatória para todo autor de língua inglesa com alguma ambição estilística (e deveria ser para os de todas as outras línguas também, com lucros consideráveis para o leitor). Quem não conhece a fundo como Jane Austen manejou o idioma não pode aspirar a domá-lo completamente. Das inovações na pontuação à doutrina da precisão despótica no uso do vocabulário, ela estabeleceu o padrão-ouro. Em outro aspecto, ainda não surgiu quem se iguale a ela: no poder misterioso de emitir julgamentos vastos sobre seus personagens com um mero turn of phrase, como se diz: aquele volteio malicioso que se dá a uma frase para que, embora aparente inocência, ela transpire zombaria, ironia ou cinismo (a desaprovação era uma especialidade sua). O melhor romance dessa autora maravilhosa ganhou uma versão um tanto heterodoxa: o absurdamente divertido Orgulho e Preconceito e Zumbis.

No livro do americano Seth Grahame-Smith (que assina como “coautor”, com Jane), o vilarejo de Meryton é o mesmo do texto original, cheio de intrigas, fofocas e demonstrações desavergonhadas de oportunismo social. Mas a Inglaterra convive também com outra praga: os mortos-vivos que se propagam com particular rapidez durante a primavera, quando as chuvas amolecem o solo e lhes tornam mais fácil emergir de seus túmulos. Elizabeth Bennett, a protagonista, conserva a língua afiada – assim como suas espadas e adagas. Treinada por um mestre de shaolin, ela é uma emérita matadora de zumbis e de quem mais a ofenda. Tanto que, quando conhece o arrogante Mr. Darcy e ele a esnoba num baile, cogita decapitá-lo. Acaba esquecendo a ideia porque os convivas são atacados por uma horda repelente e ela tem de ir à luta. “Planejar como inserir os zumbis na história foi um trabalho penoso. Já escrever as cenas foi a coisa mais deliciosa que fiz”, disse a VEJA Grahame-Smith. Não deve ser força de expressão: algumas passagens, como aquela em que a feiosa Mrs. Collins, em plena metamorfose, tenta acertar a direção das colheradas de sopa enquanto sonha em mastigar cérebros, são uma mescla tão bem urdida do linguajar de Jane Austen com o humor pop contemporâneo que dá vontade, a qualquer um, de tê-las escrito. E de lê-las: em uma acolhida que não poderia ser calculada, Orgulho e Preconceito e Zumbis chegou ao terceiro posto na lista de livros mais vendidos do jornal The New York Times.

Jane Austen é hoje uma marca extremamente rentável. Além de um sem-número de filmes declaradamente ou não adaptados de seus romances, há centenas de títulos que se aproveitam de seus personagens e histórias. Orgulho e Preconceito e Zumbis, porém, inaugurou uma nova tendência: o mash-up classic, ou “clássico mistureba”, em tradução livre. A mesma editora americana, a Quirk Books, lançou Razão e Sensibilidade e Monstros Marinhos; outras empresas embarcaram na onda com títulos que combinam, sobretudo, Jane a vampiros. Como o filão vem rendendo ouro, muitos outros clássicos devem ganhar versões assim dadaístas. Jane talvez se sentisse insultada com essa carinhosa bagunça com seu trabalho tão laboriosamente escrito e reescrito. Ou talvez não. A imitação (e eventual mutilação) é a maior homenagem que se pode prestar a um artista – e nem orgulho nem senso de humor lhe faltavam. Ao contrário do preconceito, que ela só alimentava para com pessoas aborrecidas, mesquinhas ou, que gafe, sem imaginação.

Uma noite quase agradável

“Alguns poucos convidados, que desafortunadamente estavam muito perto das janelas, foram agarrados e imediatamente devorados. Quando Elizabeth se pôs de pé, de pronto percebeu que a Sra. Long lutava para se livrar das mandíbulas de duas pavorosas fêmeas que haviam se aferroado à cabeça dela, partindo seu crânio como se fora uma noz, o que projetou um esguicho de sangue escuro para o alto que chegou a atingir os candelabros. Mas (…) à exceção do ataque, a noite de um modo geral foi bastante agradável para toda a família.”

Trecho de Orgulho e Preconceito e Zumbis, de Seth Grahame-Smith

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 24/03/2010
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2010

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