divulgação

O Sonho de Cassandra

A nau dos insensatos

O Sonho de Cassandra, outro acerto de Woody Allen, começa com a compra de um barco – e termina em tragédia

divulgação

No início de O Sonho de Cassandra, os irmãos Ian e Terry examinam entusiasmados um veleiro e decidem juntar forças para comprá-lo. O diretor Woody Allen deixa claro que esse será o ponto de partida para uma tragédia: primeiro porque, apesar de pequeno e usado, o barco custa muito mais do que os irmãos têm, e essa imprudência, mais as outras que se seguirão a ela, há de trazer conseqüências; e segundo porque o veleiro será batizado justamente de O Sonho de Cassandra, e dica mais clara do que essa não há. A personagem da mitologia grega Cassandra ao mesmo tempo tinha um dom e era vítima de uma maldição – enxergava o futuro, mas ninguém jamais acreditava em seus vaticínios. Allen adora esse simbolismo, e já espalhou referências a ele em pontos diversos de sua obra. Aqui, contudo, ele o desdobra com método. Os irmãos cresceram numa casa em que a mãe humilha sem descanso o pai por causa de seus poucos talentos e proventos, e refletem pólos opostos dessa situação. Terry (Colin Farrell) é mecânico, gosta de beber e de apostar e não tem muita ambição. Ian (Ewan McGregor) toca o restaurante do pai e ocupa as horas livres fazendo-se passar por mais do que é – mais rico, mais poderoso e mais mundano, compondo o figurino com os Jaguares que pega na oficina do irmão. Ambos, portanto, abraçam o fortuito e o imponderável, Terry com suas apostas e Ian com suas imposturas. Deveriam então saber, mas agem como se não soubessem, que esse tipo de risco tem seu preço. Adicione-se a essa mistura um tio milionário (Tom Wilkinson) que precisa de um favorzinho – eliminar alguém que conhece suas desonestidades –, e o cenário está montado.

divulgação

Terceiro filme de Allen na Inglaterra, O Sonho de Cassandra não chega a atingir a voltagem do fabuloso Match Point, de 2005 (que, como este novo trabalho, se inspirava muito no Crime e Castigo de Dostoievski). Mas tem sua própria sedução. Ela começa por uma atmosfera com que o diretor pouco se importou em sua carreira, mas que aqui ele crava desde a primeira cena: a variedade prosaica e cotidiana de desespero que acompanha Ian, Terry e sua família. Numa existência relativamente precária como a deles, os erros não vão ecoar de forma operística no futuro – eles vêm quase que imediatamente bater à porta e cobrar a conta. O grande apelo do filme, contudo, reside na sua dupla central. Maravilhosamente afinados, Farrell e McGregor expressam um amor fraterno genuíno, que se sobrepõe a toda diferença. Ou quase toda. E, se o destino deles não vai ser feliz, há pelo menos uma coisa com que se alegrar em Cassandra: a interpretação soberba de Colin Farrell como o homem que – outra novidade na obra de Allen –, embora fraco, tem uma consciência, e desabará sob o peso dela. Depois de tantos erros e decepções (O Novato, Alexandre, Miami Vice etc.), Farrell reencontrou aqui a centelha e o talento com que tanto prometera, mas até agora não cumprira.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 30/04/2008
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2008

O SONHO DE CASSANDRA
(Cassandra’s Dream)
Inglaterra/ Estados Unidos, 2007
Direção: Woody Allen
Com Colin Farrel, Ewan McGregor, Tom Wilkinson, Hayley Atwell, John Benfield, Claire Higgins, Sally Hawkins, Jim Carter

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s