divulgação

007 – Cassino Royale

Tudo de Bond.

Agressivo, musculoso e quase feio, Daniel Craig não corresponde ao quese imagina de 007. E isso é ótimo.

Desde que Tim Burton elegeu Michael Keaton como Batman não se via tamanho derramamento de bile em razão da escolha de um ator para um personagem. Anunciado pela produtora Barbara Broccoli, em outubro de 2005, como o sexto James Bond, o inglês Daniel Craig atravessou os meses de filmagens de 007 – Cassino Royale (Casino Royale, Inglaterra/Estados Unidos, 2006) sob uma saraivada de críticas e de ridículo, orquestrada conjuntamente pelos ferocíssimos tablóides britânicos e pelos blogs de fãs na internet. Craig é loiro, enquanto Bond é moreno; com 1,80 metro, é baixo demais para o papel (seus predecessores ficaram entre 1,85 e 1,89 metro); tem orelhas de abano, sua cara é quadrada e achatada, e ele não é bonito o suficiente; seus créditos dramáticos são desproporcionais ao personagem, como o eram os de Timothy Dalton, o mais aborrecido de todos os Bond. E principalmente, dizia-se, falta a Craig suavidade – o atributo primordial do espião, como definido nos livros do escritor Ian Fleming e nos vinte filmes anteriores da série. Tudo verdade. E só não se pode dizer que seja tudo também perfeitamente irrelevante porque, conforme demonstra o filme que estréia nesta sexta-feira no país, esses supostos defeitos de Craig são, em grande medida, os trunfos desta nova encarnação do agente secreto.

Escrito em 1953, Cassino Royale é o livro em que Ian Fleming apresentou 007. Até hoje, fora filmado uma única vez, como paródia, com Peter Sellers no papel do agente secreto. Quando Barbara Broccoli (que herdou a série de seu pai, o lendário Albert “Cubby” Broccoli) conquistou os direitos sobre o título, em 2001, depois de uma longa pendenga judicial, decidiu-se que ele apresentava a oportunidade ideal para uma reformatação do personagem. Pierce Brosnan estava rodando sua quarta e última aventura no papel do espião e, embora 007 – Um Novo Dia para Morrer viesse a se tornar o maior sucesso comercial da série, esta já dava sinais inequívocos de esgotamento. Uma pesquisa de mercado feita pouco antes mostrava que, entre as franquias de ação e aventura, a de 007 era a que menos atraía o público jovem, e a popularidade dos games com a marca não seria capaz de, sozinha, reverter essa tendência. Acima de tudo, era preciso sacudir o cansaço criativo que vinha acometendo o personagem. Donde, depois de dois anos de buscas e testes com duas centenas de atores de três continentes, chegou-se ao agressivo e musculoso Daniel Craig, que começa o filme adquirindo sua licença para matar e, subseqüentemente, surpreendendo-se com o prazer que ela lhe proporciona. James Bond, aqui, não carece de familiaridade apenas com as sutilezas da espionagem internacional. Ele ainda não se conhece.

Sua caçada ao vilão Le Chiffre (“O Enigma”), banqueiro de terroristas e guerrilheiros em todo o mundo, funcionará como um curso intensivo na matéria – assim como seu envolvimento extracurricular com Vesper Lynd (Eva Green, de Cruzada), encarregada pela Inteligência britânica de assinar, ou não, os cheques que 007 vai deixando pelo caminho. “Eu sou o dinheiro”, apresenta-se Vesper ao espião. “Cada centavo dele”, retruca Bond com olhar cobiçoso, numa daquelas double entendres que são sua marca. Não será esse, porém, o tom de Cassino Royale, que dispensa também as engenhocas, reduz o contingente de mulheres voluptuosas e pisoteia com gosto itens até aqui considerados obrigatórios. Esse novo Bond não dá a mínima para as minúcias de um dry martini e não raro prefere usar os punhos à sua pistola Walther (nenhum outro 007, aliás, derramou tanto sangue quanto Craig). Também o vilão que ele combate não tem planos de dominação mundial – seu negócio, mais convincente, é o lucro –, e nem Vesper é propriamente uma Bondgirl, já que Eva Green tem curvas de menos e classe demais para se encaixar no padrão. Das explosivas seqüências de ação às cenas de sedução, o que Bond revela aqui é uma natureza predatória que Sean Connery, o 007 canônico, pôde apenas sugerir à sua época. Pela primeira vez a franquia aborda uma questão latente no personagem: que tipo de homem é esse que, com ou sem licença do governo, vive de assassinar? A resposta a essa pergunta fica para os próximos episódios – e é difícil pensar em gancho melhor que esse para a continuação de Cassino Royale.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 13/12/2006
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2006

Uma consideração sobre “007 – Cassino Royale”

  1. A coisa mais genial no roteiro de Cassino Royale é a construção passo-a-passo de 007.

    Primeiro, temos o brutamontes de camisa colorida estampada de manga curta que corre como um louco, sobe e desce, pula e cai, se suja e se mela todo pra pegar um bandido peixe pequeno e conquistar como troféu um celular na mochila.

    Segundo, temos a mulher que o transforma: a agente dupla Vesper Lynd o ensina a ser um cavalheiro elegante e refinado — ela o vai refinando e lapidando, até reinventá-lo como um gentleman que valoriza o terno que veste. Em homenagem a ela, ele batiza o dry martini com o nome dela em sua receita pessoal.

    Terceiro, no último minuto de filme, temos o resultado final: para pegar o bandido peixe grande, basta acertar na perna dele á distância, com uma arma de mira telescópica e um silenciador, após identifica-lo falando com ele pelo celular. Enquanto o chefão se arrasta apavorado, acaba chegando aos pés do inimigo, agora impecavelmente vestido num terno todo escuro, de colete e sapatos finos. Só então encerra-se a obra, com a apresentação acabada ao anunciar quem ele se tornou:

    “O nome é Bond. James Bond.”

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