divulgação

Melinda e Melinda

Para rir e chorar

Woody Allen volta à boa forma com Melinda e Melinda, em que comédia e drama se confundem

divulgação

Numa mesa de restaurante, dois dramaturgos ilustram suas teses divergentes sobre a natureza humana — se cômica ou se trágica — partindo da mesma história e desenvolvendo-a cada um à sua maneira. O escritor dramático imagina uma moça misteriosa, Melinda (a australiana Radha Mitchell), que certa noite invade o jantar de uma amiga, em Nova York. Nessa versão, Melinda foi casada com um cirurgião, teve dois filhos e perdeu tudo porque, enfastiada, se meteu num caso com um fotógrafo de nome novelesco. Melinda está tão abalada que, mal chega, toma vinte comprimidos de tranqüilizante. Mas, quando os convivas tentam levá-la para o hospital, ela recusa a oferta: um bom copo de vodca e estará nova em folha, ela diz, arrancando risadas da platéia. Se essa era a Melinda trágica, a lógica ditaria que a Melinda cômica deveria ser ainda mais engraçada. Mas não é bem o que transcorre: depois de igualmente invadir um jantar de figuras tipicamente nova-iorquinas, ela irá partir o coração do anfitrião (o comediante Will Ferrell, de O Âncora), um ator cronicamente desempregado que a mulher, uma cineasta ambiciosa, faz de serviçal. Mostrar que a mesma história pode ser dramática ou cômica, dependendo da forma como se a trate, já seria um desses golpes de gênio nos quais Woody Allen se especializa, de localizar o novo no que há de mais óbvio. Mas, em Melinda e Melinda, o cineasta vai adiante: a despeito do que os seus dois dramaturgos achem, o que ele quer demonstrar é que drama e comédia são uma coisa só e a mesma coisa, e que ambos têm exatamente o mesmo nascedouro — a infinita capacidade do ser humano de ferir a si mesmo e aos outros.

divulgação

Depois de quase uma década de produção tépida — mais precisamente desde Desconstruindo Harry, de 1997 —, Allen dá sinais de ter recobrado o vigor. Na semana passada, ele entusiasmou os críticos presentes no Festival de Cannes com seu novo filme, Match Point, no qual trocou sua indefectível Nova York por Londres (seu próximo trabalho, ele já avisou, será rodado em Barcelona). “Mal posso acreditar, mas acabei de ver um grande filme de Woody Allen”, escreveu o crítico A.O. Scott, do The New York Times. A longa carreira do diretor, de fato, parece obedecer a um padrão de ciclos de brilhantismo que se alternam com outros de inspiração mediana — e o que os demarca é sempre a maior ou menor criatividade que Allen investe no roteiro. Não é só por causa de sua ótima premissa, portanto, que Melinda e Melinda indica um novo ciclo. Outras, igualmente boas, já foram desperdiçadas em filmes como Dirigindo no Escuro. O que faz toda a diferença, aqui, é o encaminhamento da idéia.

divulgação

É intencional, por exemplo, que depois de umas poucas idas e vindas entre a Melinda trágica e a cômica o espectador já tenha de parar para pensar em qual história, afinal, ele se encontra (e, não fosse o elenco de apoio variar de uma versão para a outra, a tarefa seria impossível). Em ambos os enredos há casais em que a honestidade de um cônjuge é retribuída pelo outro com indiferença; em ambos há traições, mal-entendidos e, finalmente, paixões que despontam em circunstâncias inesperadas. E em ambos também Melinda, com seu passado rocambolesco e seus ares de heroína de ópera, é quem menos importa. A riqueza está nas pequenas histórias que correm à sua margem, e que ela tem a função de catalisar — como a lenta e dolorosa descoberta da personagem de Chloë Sevigny de que já se tornou supérflua para seu marido oportunista. Melinda e Melinda é, enfim, o ponto em que o drama de Ingmar Bergman e a farsa de Oscar Wilde se encontram — e, depois do longo inverno que o separa de Hannah e Suas Irmãs, é também o lugar em que Woody Allen volta a reconciliar as suas duas veias.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 25/05/2005
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2005

MELINDA E MELINDA
(Melinda and Melinda)
Estados Unidos, 2004
Direção: Woody Allen
Com Radha Mitchell, Will Ferrell, Chloë Sevigny, Jonny Lee Miller, Wallace Shawn, Amanda Peet, Steve Carrel, Chiwetel Ejiofor, Josh Brolin, Vinessa Shaw

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s