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Sinais

Sinais de vida inteligente.

O diretor de O Sexto Sentido mostra mais uma vez que é possível fazer cinema comercial com alguma relevância.

O diretor Manoj Night Shyamalan tem 32 anos, mas é hoje um dos raros praticantes em Hollywood de uma lição que já tinha começado a cair em desuso quando ele nasceu: num filme, e especialmente num suspense, aquilo que não se vê é ainda mais importante do que o que é mostrado. Os trabalhos anteriores de Shyamalan – O Sexto Sentido e Corpo Fechado – eram demonstrações eficazes dessa linha. Mas Sinais a leva ao extremo da simplicidade. O protagonista Graham Hess (Mel Gibson) é um ex-pastor que, certa manhã, depara com uma enorme formação de círculos na plantação de milho defronte a sua casa, onde na noite anterior não havia nada. A primeira providência de Hess é a mais racional. Ele chama a xerife da cidadezinha (a ótima Cherry Jones), para que ela verifique se seus vizinhos não são os autores da brincadeira.

Hess conhece a história desses círculos que aparecem de forma misteriosa em campos de todo o mundo desde os anos 70, e sabe que muitos deles já foram desmascarados como obra de pregadores de peças. A policial, contudo, é mais reticente. Outras pessoas das redondezas têm relatado fatos estranhos, diz ela – como a presença de intrusos e animais domésticos que se tornam agressivos. A essa altura, aconselha a xerife, é melhor não se fixar em nenhuma explicação e considerar todas as hipóteses. É o que faz também Shyamalan. Sem pressa, mas com um admirável senso de propósito, o diretor explora cada um dos estados de ânimo que a família de Hess atravessa na tentativa de entender o fenômeno, da descrença à incredulidade. E, praticamente sem sair do território restrito da fazenda dos Hess, amplifica a repercussão dos acontecimentos – e a tensão da platéia – até o seu limite.

Shyamalan repete em Sinais vários dos temas de seus filmes anteriores. Por exemplo, o peso que a imagem de invencibilidade da figura paterna – ou a decepção com essa imagem – tem no relacionamento entre pais e filhos pequenos. No caso dos Hess, essa é uma questão premente. Graham Hess perdeu a mulher há poucos meses num acidente. Junto com ela, perdeu também a fé, razão pela qual deixou de pregar, e a conexão com os filhos Morgan (Rory Culkin, mais um rebento do clã de Macaulay) e Bo (Abigail Breslin). Sua ligação emocional com as crianças foi delegada ao seu irmão Merrill (Joaquin Phoenix), uma promessa não-cumprida do beisebol que voltou para casa em situação de inferioridade. Shyamalan habilmente usa esse nó familiar como indício de que há outros desajustes em ação no universo dos Hess – o imediato e o mais amplo. O milho na plantação da família está alto e parece pronto para ser colhido, mas não se vê ninguém trabalhando nos campos.

Os Hess moram a menos de uma centena de quilômetros de uma grande cidade, Filadélfia. Mas, pelo seu isolamento, poderiam estar nos confins do mundo. Tudo o que eles vão descobrindo sobre os círculos do seu quintal chega por vias remotas e em fragmentos – os noticiários da televisão, um velho monitor desses que se usam para ouvir os ruídos no berço do bebê a distância, um livro encontrado num sebo. Como em O Sexto Sentido e Corpo Fechado também, essas comunicações truncadas e os vastos silêncios entre elas tornam mais intensas a angústia e a relutância com que os personagens ponderam a intromissão de forças inexplicáveis em seu dia-a-dia.

Sinais é um filme lento e estudado, que tira muitas lições dos melhores trabalhos de Alfred Hitchcock (a começar pela trilha sonora, excelente, que homenageia as composições de Bernard Herrmann, colaborador habitual de Hitch). Em sintonia com sua filosofia espartana, não tem mais do que meia dúzia de efeitos especiais. Essas características não prejudicaram em nada o desempenho do filme na bilheteria americana, na qual ele já acumulou 207 milhões de dólares e protagonizou um feito incomum: voltar ao primeiro lugar da parada na quarta semana após seu lançamento. Sinais foi também a primeira produção iniciada após os atentados de 11 de setembro, e esse sentimento de catástrofe faz muito bem ao filme. “Não há história que não se beneficie de uma conexão mais humana. Quando um cineasta despreza esse aspecto, ele aliena a sua platéia. Não entendo como os estúdios não percebem essa obviedade”, disse o diretor a VEJA na ocasião em que O Sexto Sentido se tornou o grande, e inesperado, sucesso de 1999.

Shyamalan é um entusiasta das ligações humanas. Filho de um cardiologista e uma obstetra indianos obcecados pelo trabalho, ele nasceu em Pondicherry, na Índia, durante uma visita dos pais aos parentes. Foi criado desde bebê num subúrbio rico de Filadélfia, onde todos eles moram até hoje, a minutos de distância uns dos outros, e onde Shyamalan roda todos os seus filmes, para não se afastar dos pais, da mulher, Bhavna, uma psicóloga infantil, e das duas filhas pequenas. Numa entrevista recente à revista Newsweek, entrou em pânico quando o repórter indagou se na juventude ele gostava de beber e namorar. “Se você escrever isso, meus pais vão ficar sabendo e vão ter um infarto”, respondeu. Apesar de decepcionados com a falta de interesse de Manoj (ele inventou o Night na adolescência) pela medicina, foram seus pais os financiadores dos 750.000 dólares necessários ao seu primeiro filme, que ele rodou na Índia e no qual era o protagonista.

Tanto seu trabalho de estréia como o seguinte, feito para a Miramax, foram completos fracassos de público. Aos 27 anos e com um bebê recém-nascido em casa, Shyamalan decidiu então provar que tinha um mapa preciso para as emoções da platéia. Fechou-se em seu escritório e escreveu um roteiro sobre um menino que vê pessoas mortas. Não obstante a maré baixa em que se encontrava, instruiu seu agente a estabelecer um lance mínimo de 1 milhão de dólares pelo script e a deixar claro aos interessados que só ele, Shyamalan, poderia dirigi-lo. O roteiro de O Sexto Sentido virou objeto de um verdadeiro leilão entre os estúdios. Acabou sendo adquirido pela Buena Vista – uma divisão da Disney –, à qual rendeu mais de 650 milhões de dólares e seis indicações ao Oscar. Na esteira desse sucesso, Shyamalan abocanhou 10 milhões para escrever e dirigir Corpo Fechado, sobre um homem que descobre ser indestrutível. Por Sinais, recebeu 12,5 milhões de dólares.

A Disney se diz muito satisfeita com a renda de Corpo Fechado. Mas, na avaliação do seu próprio autor, ele é um desastre. Visualmente o filme é, como os outros de Shyamalan, magnífico na sua originalidade e no seu casamento entre estilo e conteúdo. Mas é soturno demais e desajeitado demais na sua ligação com o universo fantástico dos quadrinhos, diz o diretor (com razão). Sinais corrige essa rota. Como antes, Shyamalan mostra que sabe manobrar de forma notável em espaços muito pequenos – não só no sentido físico, mas também na opção por tratar de forma naturalista temas que estão no limite da credibilidade, como espíritos ou alienígenas. Mas agora ele abriu espaço para o humor e conseguiu também tirar os adultos do papel de sparring das crianças.

Joaquin Phoenix, sempre excelente, aproveita ao máximo um papel potencialmente secundário, e pela primeira vez em muito tempo Mel Gibson passa a sensação de que está interpretando um personagem – e não apenas uma versão de si mesmo. Nesse ritmo, Shyamalan está cada vez mais próximo de realizar sua ambição confessa: tornar seu nome uma grife tão poderosa quanto o de seu maior inspirador, Steven Spielberg.

Isabela Boscov
Publicado originalmente na revista VEJA no dia 18/09/2002
Republicado sob autorização de Abril Comunicações S.A
© Abril Comunicações S.A., 2002

SINAIS
(Signs)
Estados Unidos, 2002
Direção: M. Night Shyamalan
Com Mel Gibson, Joaquin Phoenix, Abigail Breslin, Cherry Jones, Rory Culkin

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