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NO AMOR VALE TUDO. ATÉ O ÓDIO

Com o implacável Closer – Perto Demais, o diretor Mike Nichols expõe a crueldade do mais decantado dos sentimentos

É uma daquelas tomadas clássicas: em meio à multidão que caminha pela calçada em câmera lenta, aos poucos se destacam um rapaz e uma moça – que vão se conhecer, trocar diálogos inteligentes como só um bom roteirista poderia escrever, apaixonar-se e então desentender-se. No sentido inverso ao óbvio, porém, Perto Demais (Closer, Estados Unidos, 2004) não vai devolvê-los à felicidade romântica instantes antes dos créditos finais. Bem ao contrário. A stripper Alice e o escritor de obituários Dan (Natalie Portman e Jude Law), que se envolvem a partir do atropelamento dela numa rua de Londres, vão se torturar e trair um ao outro, em reflexo, causa e efeito do processo que Anna e Larry (Julia Roberts e Clive Owen), os dois outros personagens do filme, também atravessam. Decerto esses dois casais, que em vários momentos se separam e se recombinam, vivem interlúdios de contentamento. Mas não é desses que o diretor Mike Nichols, que adapta a peça homônima do inglês Patrick Marber, quer tratar. Perto Demais é um filme sobre começos, finais e recomeços. Ou, mais precisamente, sobre como o amor é em grande medida uma ilusão que, ao ganhar alguma nitidez, deixa de corresponder à expectativa e passa a exigir uma nova miragem de que se alimentar. A falha, postulam o autor e o diretor, não é do sentimento, mas de quem o sente. Como um não existe sem o outro, entretanto, tem-se aí uma charada, que Nichols destrincha com um rigor implacável como ele não tinha coragem de exercitar desde seu primeiro filme, Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, de 1966.

Não que os quatro personagens tenham visões similares sobre o que esperam de um relacionamento. Alice, a garota que foi para Londres fugir de alguém que a maltratava, se agarra a Dan como a uma oportunidade de amor e devoção eternos. Dan tira de Alice o que ela tem de ainda mais atraente que a beleza: sua história infeliz, que ele usa num livro – o qual, em seus planos, vai removê-lo de sua insignificância e transformá-lo no homem que ele quer ser. Quando ainda se acredita às vésperas desse sucesso (que não se realizará), Dan conhece a fotógrafa Anna, americana como Alice e divorciada. Anna é uma mulher sem subterfúgios e aparentemente sem carências. Como ela não precisa dele, é ela que Dan passa a desejar. E, em sua obsessão, ele a entrega sem querer ao médico Larry, um homem que não vê insulto em sua masculinidade e em sua franqueza e que, por causa dessa honestidade, é o único aqui com algum poder transformador. Quando Dan rouba Anna dele, Larry maquina um plano para recuperá-la – e, não menos importante, para destruir a virilidade do adversário – que poderia ser descrito como monstruoso, não fosse ter nascido de um desespero tão legítimo. Não há nudez ou sexo em Perto Demais, mas a exposição do íntimo dos personagens é tão cruel, e a linguagem que eles usam tão forte e direta, que a sensação é de explicitude total. Ver Julia Roberts, por exemplo, sem maquiagem e com todas as imperfeições físicas e de caráter à mostra, contando em detalhes para o marido o que fez com o amante na cama, é uma experiência tão incômoda quanto revigorante.

Jude Law, que faz o pusilânime Dan, é o lado mais fraco desse quarteto. Julia Roberts e Natalie Portman brilham, e Clive Owen, por sua vez, ofusca. Sua atuação como Larry é tão vulcânica e impetuosa que David Thomson, o mais prestigiado dos críticos britânicos, escreveu que gostaria de montar uma temporada inteira dos textos do dramaturgo Harold Pinter só para ele. Essa habilidade, a de fazer os atores ir além do que se espera deles e mais um tanto, sempre foi o ponto forte do alemão naturalizado americano Mike Nichols. Desde a década de 70, porém, o diretor vinha diluindo seu estilo numa impostura decepcionante de sofisticação. Mas, desde que dirigiu Emma Thompson em Wit e adaptou Angels in America como uma minissérie para a rede HBO, Nichols reencontrou sua verve. Aos 73 anos, e numa altura de sua carreira em que ninguém mais esperava uma ressurreição, ele acaba de fazer um dos melhores filmes americanos dos últimos anos.

Publicado originalmente na revista Veja em 19/01/2005

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