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Por que “True Detective 3” é talvez a melhor série que você verá este ano

Fenomenais, Mahershala Ali e Stephen Dorff são os dois detetives que transitam entre as relações violentas do Sul profundo para investigar um caso

Uma das coisas de que mais gosto nas novas séries policiais é o fato de elas não se resumirem ao quem-fez, por-que-fez – ou seja, gosto de elas descartarem aquela ideia herdada da literatura vitoriana de que, uma vez solucionado um crime, a ordem se impõe de novo sobre o caos e restaura-se o mundo ao seu estado normal. Um crime é uma erupção vulcânica na vida das pessoas tocadas por ele; ele muda todo o relevo, para sempre. E a própria investigação desse crime é uma nova sequência de erupções, às vezes tão destrutivas quanto a inicial: coisas que de outra forma permaneceriam enterradas são lançadas com violência à luz – e, novamente, não é possível colocá-las de volta no seu lugar de origem; agora, elas fazem parte da nova paisagem. Acho que a primeira série que vi trabalhar essa ideia, a da investigação como uma perturbação violenta, foi The Killing, sete anos atrás. Mas nenhuma outra a trabalhou tão bem até aqui quanto a terceira – e magnífica – temporada de True Detective: duas crianças somem; com certeza houve um ato criminoso; e as reverberações dele continuam se propagando com força pelas décadas seguintes. Atingem em cheio, é claro, o pai e a mãe (Scoot McNairy e Mamie Gummer) das crianças. Apanham transeuntes que estavam na beirada dessa cena – e que, por causa disso, temporariamente viram protagonistas. E redesenham toda a vida dos dois detetives encarregados do caso, especialmente a de Wayne Hays (Mahershala Ali).

Assim como na primeira temporada de True Detective, com Matthew McConaughey e Woody Harrelson – melhor ignorar a segunda e fracassada temporada –, duas outras ideias são importantes aqui. A primeira é que crimes não são atos isolados: eles são um ápice de violência em um ambiente em que as relações violentas ou desiguais são costumeiras. No Sul profundo de TD3 – o Arkansas paupérrimo de 1980, em que as duas crianças desaparecem –, há brutalidade por toda parte. Entre brancos e não-brancos, entre homens e mulheres, entre crianças pequenas e crianças só um pouco maiores que elas, entre chefes e subalternos, entre ricos (poucos, e muito ricos) e pobres (muitos, e em geral miseráveis). Um outro tipo pervasivo de violência é relevante aqui: muitos dos personagens masculinos, a começar por Wayne Hays e seu parceiro, Roland West (Stephen Dorff), são veteranos da Guerra do Vietnã, da qual muita gente voltou, mas não voltou – por exemplo, o índio Brett Woodard (Michael Greyeyes, um ator sublime), que nunca mais achou seu eixo. Woodard perdeu a mulher e os filhos, perdeu todo o respeito próprio e começou a viver de catar lixo e ferro-velho, como se estivesse manifestando nele mesmo, e na sua casa e no seu quintal, o que ele pensa de si agora. No ambiente de preconceito racial aberto e hostil do Arkansas, Woodard vai ser, é claro, aquele primeiro suspeito em quem todo mundo pensa.

A segunda ideia, essa clássica na ficção policial, é que todo detetive de crimes graves está destinado a, um dia, topar com o caso que vai assombrá-lo para sempre. Não só porque porque é um crime que mexe com sentimentos profundos (e crianças quase sempre mexem com esse tipo de emoção), ou porque o caso ficou sem resolução, mas porque aquele crime e aquele detetive foram feitos um para o outro – um encontro cósmico, digamos assim. Wayne foi rastreador na Guerra do Vietnã, porque aprendeu a rastrear desde criança. No Sudeste asiático, passava semanas a fio sozinho na selva, procurando rastros do inimigo. De volta ao Arkansas, ele vai rastrear os pequenos Will e Julie Purcell até nem saber mais, literalmente, por que o está fazendo: costurando três épocas – 1980, a reabertura do caso Purcell em 1990 e uma longa entrevista que Wayne dá à TV em 2015 –, nessa terceira fase TD3pega o detetive já nos estágios iniciais de Alzheimer, com a memória cheia de buracos, mas ainda obcecado com as pistas que poderia seguir. Isso é o que dá a TD3sua estrutura: os oito episódios acompanham o esforço de Wayne para reconstruir sua memória, reorganizá-la e lançar sobre ela um olhar novo, acrescido do aprendizado e das descobertas da velhice. Em outras palavras, Wayne incorpora toda a sua vida ao caso.

Eu disse que era o caso de ignorar a segunda e malsucedida temporada de True Detective, aquela com Colin Farrell e Rachel McAdams, mas não é bem assim: o criador Nic Pizzolatto aprendeu muito com os erros dela. Aprendeu tanto que fez uma terceira temporada melhor ainda que a sensacional primeira temporada. Melhor na artesania (as fusões de uma época para outra são magistrais, e vêm carregadas de significado narrativo) e melhor no tema: em muitos momentos, para mim, a resolução do caso Purcell ficou totalmente em segundo plano, porque aquilo que estava acontecendo entre os personagens era muito mais fascinante – a dinâmica complicada do casamento de Wayne com Amelia (a ótima Carmen Ejogo), o relacionamento entre Wayne e Roland, os laços que eles vão estabelecendo com pessoas ligadas à investigação (por exemplo, a tentativa tocante de Roland de proteger de si mesmo o pai das crianças, interpretado pelo sempre perfeito Scoot McNairy).

Qualificar o trabalho de Mahershala Ali em True Detective esgotaria o meu estoque de adjetivos. Digamos apenas que é um trabalho tão superior ao que ele faz Green Book, tão mais complicado em termos técnicos e tão mais exigente em termos psicológicos, que nem parece ser do mesmo ator. Não chega a ser surpresa; Mahershala foi fenomenal também em House of Cards e em Moonlight, por exemplo. O que me surpreendeu, sim, e muito, é como Stephen Dorff, um ator da segunda ou mesmo terceira fileira, que anos atrás foi promessa mas não desenvolveu a carreira que se esperava, está também ele fenomenal como Roland West, o parceiro de Wayne. A amizade dos dois passa por momentos terríveis, mas se faz e refaz com aquela persistência e aquela camaradagem genuína que são a marca das boas amizades masculinas; é lindo de ver. E o último episódio – esse é inesquecível. Com e sem trocadilho. Veja, e entenda.

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