“O Último Duelo”: só Jodie Comer se salva da canastrice no “me too” medieval de Ridley Scott

Produção de primeiríssima linha não basta para encobrir as fraquezas do roteiro e do elenco

Assista aqui a resenha em vídeo:


Leia aqui a minha resenha da revista VEJA:

O embate frustrante de Ridley Scott em ‘O Último Duelo”

Diretor recria um episódio do século XIV com produção impecável e pretensão a um #MeToo medieval. Mas o verdadeiro combate, aqui, é de canastrice

Na exigência dedicada à produção, Ridley Scott costuma ser intransigente. Para O Último Duelo (The Last Duel, Inglaterra/Estados Unidos, 2021), já em cartaz nos cinemas, ele escolheu como locação algumas das edificações medievais mais impressionantes das regiões francesas da Borgonha e da Dordonha — esta, a fronteira entre os domínios da Inglaterra e França na época da Guerra dos 100 Anos (1337-1453), em que se passa a trama. Erguidos entre os séculos X e XII, os castelos de Beynac, Fénelon e Berzé são exemplares particularmente bem preservados da arquitetura maciça e severa do período — uma fidelidade que se completa nos figurinos de Janty Yates, que trabalhou com Scott em GladiadorCruzada e Robin Hood, na decoração de set de Judy Farr, veterana de Downton Abbey e A Coroa Vazia, no desenho de produção de Arthur Max, colaborador de longa data do diretor, e na fotografia primorosamente lúgubre e austera do polonês Dariusz Wolski.

Matt Damon, com quem Scott fez Perdido em Marte, vive Jean de Carrouges, guerreiro que, em razão dos modos bruscos e da mania de acusar qualquer menosprezo à sua pessoa (e, talvez, por causa do péssimo penteado), nunca encontra favor com seu senhor, o libertino conde d’Alençon (Ben Affleck). Nesse quesito, quem se sai bem é Jacques Le Gris (Adam Driver), irmão de armas de Carrouges. Corroída aos poucos, a amizade vira ódio quando Le Gris afana uma propriedade que iria para Carrouges no casamento com Marguerite de Thibouville (Jodie Comer) — e, então, com a acusação de Marguerite de que Le Gris a estuprou. Le Gris nega, Marguerite insiste, e Carrouges pede que a questão seja decidida em duelo. Não daqueles encontros ao amanhecer entre cavalheiros, mas uma justa com cavalos, lanças e machados.

À maneira de Akira Kurosawa em Rashomon, Scott encena a versão de cada um dos três envolvidos (Affleck, Damon e Nicole Holofcener dividiram o roteiro entre si). Ao contrário de Kurosawa, porém, resulta repetitivo e converte em óbvio o que deveria ser subjetivo. Jodie Comer se safa, mas Damon e Driver se enfrentam mesmo é na canastrice (secundados, naturalmente, por Affleck). Rígido, desajeitado e pomposo, este Duelo range, na tela, mais que armadura enferrujada.

Publicado em VEJA de 20 de outubro de 2021, edição nº 2760

Uma consideração sobre ““O Último Duelo”: só Jodie Comer se salva da canastrice no “me too” medieval de Ridley Scott”

  1. Isabela, sem querer entregar minha idade, já faz pelo menos uns 30 anos, por alto, que curto muito suas críticas. Seu texto é notável principalmente pela sua rara habilidade de dissecar as camadas subjacentes do enredo e dos personagens com uma prosa saborosa e perspicaz. Recentemente, vi uma série britânica que me impressionou muito positivamente. Por favor, se houver espaço no seu canal no YouTube, não deixe de falar de C.B. Strike, baseada na obra de J.K. Rowling. Espero que goste.

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