“Um Lugar Silencioso: Parte II”: uma garota contra o apocalipse

No papel de Regan (mesmo nome da personagem de Linda Blair em “O Exorcista”), Millicent Simmonds é o coração e a musculatura da continuação do sucesso de 2018

Assista aqui a resenha em vídeo:


Leia aqui a minha resenha publicada na revista Veja:

“Um Lugar Silencioso: Parte II”: o apocalipse continua – e com brilho

A ameaça pesa a cada cena em filme que atesta a força da gramática cinematográfica dos anos 70

É quase justiça poética que Um Lugar Silencioso: Parte II (A Quiet Place: Part II, Estados Unidos, 2020), em cartaz no país na quinta-feira 15, tenha sido o primeiro filme a levar o público americano em massa de volta aos cinemas na reabertura, no fim de maio: com estreia marcada para 19 de março do ano passado e, portanto, apanhada em cheio pela pandemia, a continuação do sucesso-surpresa de 2018 começa justamente com um retorno ao dia em que tudo mudou — um dia de sol em que as crianças jogam beisebol no parque e os adultos torcem, na paz das cidades pequenas, sem nenhuma intuição do que está por vir. O pressentimento fica por conta do espectador, que sabe bem o significado das manchetes confusas que começam a aparecer e gostaria de poder alertar o dono da mercearia que está vendo o noticiário, a freguesa que põe sem pressa as compras na sacola, o sujeito de boné na arquibancada e, evidentemente, Evelyn e Lee Abbott (Emily Blunt e John Krasinski) e seus três filhos. Mas já seria tarde demais; de um segundo para outro, o apocalipse irrompe e se alastra, sem que os personagens sequer compreendam o que estão vendo.

São doze minutos magistrais, aos quais Krasinski, retomando a direção, aplica a gramática direta desenvolvida na década de ouro do cinema de terror e ficção científica — aquela que vai do fim dos anos 60 à virada para os 80 e abrange desde blockbusters como O Exorcista e Tubarão até thrillers minimalistas como O Enigma de Andrômeda e os filmes B de John Carpenter (veja o quadro). Krasinski segue com aptidão notável o cânone desse cinema: o uso de contrapontos cuidadosamente ritmados pela edição — entre prenúncio e fato, quietude e ruído, imobilidade e fuga, e planos lentos e ação caótica que não raro “sangra” para fora do quadro.

DE VOLTA - Krasinski no set: ator, roteirista, diretor — e marido

O que Krasinski aprecia não é o terror, mas a linguagem musculosa com que aquela leva de diretores driblou as limitações de orçamento e de recursos de pós-produção com um cinema que evoca o fantástico, o estranho e o terrível quase que tão somente com o que a câmera é capaz de fazer — e as câmeras mais ágeis e leves que iam surgindo representavam uma oportunidade imperdível de romper com a sintaxe antes ditada pelo padrão mastodôntico dos equipamentos. O resultado é um cinema limpo, elegante na sua economia e altamente eficaz, que afeta o espectador não de forma passiva, com efeitos, mas por seduzi-lo com sua tensão narrativa.

Dessa abertura antológica, Um Lugar Silencioso: Parte II salta para o exato ponto em que o primeiro filme terminara. Lee, o pai, está morto; Evelyn, a mãe, com um recém-nascido que ela tem de esconder em uma caixa para que os alienígenas de audição apuradíssima não ouçam o choro dele; Marcus (Noah Jupe), o filho menor, apavorado; Regan (Millicent Simmonds), a adolescente com deficiência auditiva, tentando preencher o vácuo deixado pelo pai; e a fazenda deles em chamas, obrigando-­os a uma debandada. Escondidos no subterrâneo de uma fundição, eles encontram o sujeito de boné do começo — Emmett (Cillian Murphy), um velho amigo que está, agora, muito mudado. “Não existe mais ninguém que valha a pena salvar”, diz ele, tentando — em vão — expulsar os recém-chegados. O pouco que restou da humanidade, de fato, regrediu a um primitivismo predatório. Regan, porém, acha que há algo mais, o que ocasiona a separação dos personagens em dois grupos e enseja uma série de cenas montadas em paralelo — demasiadas, talvez.

Se o miolo de Parte II fica aquém da Parte I, isso não significa que falte vigor ao filme (que, aliás, recobra toda a tração no trecho final, um “gancho” eficientíssimo para uma Parte III). Krasinski não cai na tentação de aumentar a escala da ação e se cola com firmeza aos personagens. Emily Blunt, sua mulher — e sempre ótima atriz —, tem menos espaço do que mereceria. Por outro lado, Millicent Simmonds assume a dianteira com uma segurança que visivelmente impressiona o excelente Cillian Murphy, e deve impressionar outros personagens (e atores) mais no futuro. Um mundo em que o fim pode estar sempre a um passo precisa de uma pessoa como essa, em que a eloquência está não nas palavras, mas nas ações.

Inimigos Traiçoeiros

Quatro exemplos de como o cinema dos anos 70 e 80 equivale a uma enciclopédia animada de apocalipses em escala humana

O Enigma de Andrômeda (1971)

Um microrganismo mata quem se expõe a ele, exceto um bebê e um velho alcoólatra. Num laboratório secreto, cientistas buscam o porquê, enquanto o diretor Robert Wise articula a tensão sobre silêncios e esperas

Corrida Silenciosa (1972)

Na ficção científica quase poética dirigida por Douglas Trumbull, um astronauta se condena à solidão para salvar o último Éden: a estação espacial que abriga aquilo que restou da natureza da Terra

Westworld: Onde Ninguém Tem Alma (1973)

Michael Crichton, de Jurassic Park, assinou o roteiro desta fantasia corrosiva que usa o mínimo para fazer o máximo: como um androide em pane, Yul Brynner, de preto, olhar gelado e andar medido, é a personificação de uma ameaça implacável

A Bruma Assassina (1980)

Em uma cidadezinha à beira-mar, um grupo díspar de pessoas enfrenta a ameaça misteriosa contida em um nevoeiro espesso. Várias vezes refeito, o terror do diretor John Carpenter é um “mapa da mina” para filmes como Um Lugar Silencioso

Publicado em VEJA de 14 de julho de 2021, edição nº 2746

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s